Crítica | The Flash – 3X19: The Once and Future Flash

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spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Antes de mergulhar em um hiato de um mês, The Flash nos prometeu uma viagem de Barry Allen (Grant Gustin) ao futuro, em busca de respostas a respeito da identidade de Savitar. Dentre os diversos peeks e previews de The Once and Future Flash, a aparição de uma versão futura depressiva e/ou revoltada de Barry, junto a outros elementos pincelados davam a ideia de que se tratava de uma variação da clássica “ida ao futuro distópico”, destino de viagem mais do que comum no meio super-heroico. O prospecto dificilmente empolgou o espectador já cansado do encaminhamento da série na atual temporada, que atua favorecendo sempre os elementos mais trágicos e amargos possíveis das situações apresentadas, inclusive sem hesitar em criar constantemente problemas e dramas interpessoais e deixar de lado tramas centrais ou desenvolvimentos potencialmente mais interessantes. Ou seja: o presente já é deprimente o bastante, o futuro distópico já está praticamente acontecendo, ao menos se formos nos pautar pelo humor predominante entre os personagens. Um episódio inteiro dedicado a mostrar os danos que o ataque de Savitar causou na vida do Team Flash, sob esse ponto de vista, definitivamente não era o que a série precisava no momento. No entanto, embora seja exatamente isso, The Once and Future Flash surpreende com um sólido episódio que traz um renovado e necessário fôlego para o arco de Savitar.

A direção do episódio fica a cargo do multifacetado Tom Cavanagh, mostrando que tem habilidade não apenas em frente às câmeras mas também por trás delas. O episódio recebe uma bom trabalho de direção que, apoiado sobre um roteiro intenso, nos apresenta um ritmo fluido e produtivo, certamente um avanço em relação ao marasmo que tende a dominar a série em seus momentos menos inspirados. A trama se desenvolve de forma rápida e eficiente. A montagem inicial traz uma boa transição e vende bem o teor da ameaça anunciada ao final de Abra Kadabra, com Barry e Iris (Candice Patton) em um momento caseiro, ainda que angustiante, onde observa-se a neve caindo pela janela, em reminescência ao despertar definitivo de Nevasca (Danielle Panabaker), do qual o casal ainda não suspeita. As cenas de ação que seguem (e são várias, ainda que todas curtas) transmitem uma boa energia, evitando o clima telegrafado visto em outros momentos. A viagem de Barry ao futuro também é bem apresentada, surpreendentemente evitando exageros melodramáticos em prol de boas cenas de interação entre Barry e a versão futura de seus familiares e amigos – destaque aqui para Carlos Valdes como uma versão sete (difíceis) anos mais velha de Cisco, cuja desgraça é felizmente interpretada com a devida sutileza – o que dificilmente acontece na série; além é claro de Jesse L. Martin como a versão futurista do sempre azarado Joe em outra bela performance.

Após uma rápida e hilária fuga comandada por H.R. Wells (Tom Cavanagh), há um senso de importância no combate contra Nevasca nos S.T.A.R. Labs, com Cisco e Barry prontos para atacar a amiga de longa data. O que não convence é fato de que ela consegue fugir do laboratório sem que o Flash consiga alcançá-la, apenas com a construção de uma parede de gelo a qual Barry atravessa imediatamente. Seria Caitlin uma nova velocista (por favor não), ou apenas mais um clássico furo de roteiro? Em todo caso, em meio ao choque geral pela condição de Caitlin, Barry decide partir para o futuro em busca de respostas sobre Savitar. Mesmo diante de uma recepção morna (justificada pelo contexto da cena, onde parece que Barry está pouco se importando com a situação de Nevasca), nosso herói segue com seu plano.

Em sua viagem ao futuro, o que ele encontra é justamente uma agudização do que já vem acontecendo com o Team Flash em 2017: um desmanche da equipe mediante atitudes individualistas e o desânimo  generalizado frente a situações aparentemente sem solução. Um dos grandes sucessos do episódio é esse: a viagem ao futuro trabalha diretamente os temas do presente. O mau pressentimento a respeito do despertar de Nevasca se confirma quando o Cisco do futuro confirma a Barry que aquela fora a última vez em que Caitlin pisou no laboratório. Joe se encontra emocionalmente quebrado após o ataque de Savitar, tendo perdido Iris, com Wally (Keiynan Lonsdale) paralisado e sem consciência e com Barry tendo o abandonado, quebrando a promessa feita para Iris no início do episódio. Tudo isso aparece como pano de fundo de uma busca pouco frutífera de informações a respeito do vilão: Barry do futuro já prendeu o vilão, mas sem nunca descobrir sua identidade. Caitlin, ainda transformada em Nevasca e aprisionada em Iron Heights – com Julian (Tom Felton) servindo de carcereiro, o que não deixa de ser no mínimo estranho – revela ter se aliado a Savitar no passado e conhecer sua identidade, mas obviamente não a revelará para Barry. Ela então sugere que ele visite Wally, provavelmente para toruturá-lo com a situação insuspeita do irmão.

No geral, a busca pela identidade do vilão acaba por aí. Mais significativa do que a busca em si é a forma como Barry se descobre na interação com a versão de si mesmo, Cisco e Joe no futuro. O Barry do futuro ostenta um cômico visual emo, que o faz por vezes estranhamente parecer uma versão mais jovem de si mesmo, e provando que a moda é cíclica e que nos anos 2020 a estética dos anos 2000 estará de volta com tudo. Deixando de lado o distrativo fator visual, o Barry do futuro se apresenta como o típico herói que jogou a toalha, embora isso seja apresentado de forma menos convicente em relação às versões de Cisco e Joe, já que o ex-herói passa os dias enfurnado no subterrâneo do S.T.A.R. Labs, aparentemente contemplando fotos de tempos melhores na câmara do tempo de Eobard Thawne. A caricata figura lembra aqui o Oliver Queen de Star City 2046, o que definitivamente não é um elogio. A atuação de Grant Gustin não é tão sólida quanto um aproveitamento completo do roteiro pediria, mas se apresenta aqui em melhor forma do que nos episódios que precederam, talvez por poder finalmente expurgar a escuridão do personagem em sua versão futura ao mesmo tempo que encontra no roteiro uma forma de mostrar um outro lado do Barry do presente que não seja a choramingação sem fim com a qual já estávamos nos acostumando. O Barry do presente é definitivamente o herói desta história – e isso é o que tem faltado na série nessa temporada, e que funciona tão bem aqui.

O encontro com Joe no cemitério e a subtrama com Cisco inibindo a capacidade de viagem no tempo de Barry, intentando manter no futuro a versão do amigo que já não mais existe, são desenvolvimentos significativos e que não são levantados apenas como melodrama gratuito, como costuma ser a regra com a série. Todas essas subtramas se encontram no desfecho da história, onde Barry decide ficar e inspirar seus amigos a retomarem as rédeas da situação e reviverem o Team Flash, antes de voltar ao seu tempo. E como ele vai proceder para tanto? Raptando todos na velocidade do som e colocando na mesma sala! Bom, ainda é melhor do que chorar pelos cantos…

O ponto de virada é simbolizado com o retorno do próprio Flash do futuro, que decide vestir o uniforme novamente e ajudar sua versão do passado contra a dupla “terrível” Mestre dos Espelhos (Grey Damon) e sua fiel companheira Pião (Ashley Rickards), que tem aqui uma participação mais empolgante do que em sua aparição inicial em The New Rogueso que provavelmente não significa muita coisa. Em todo caso, o efeito utilizado no ataque conjunto da dupla contra o Flash do presente é bastante impressionante, saindo dos lugares-comuns da série. É nessa luta também que vemos a versão futura do uniforme de Barry, com um desenho mais complexo e aparência mais cinematrográfica. O contraste entre as duas versões é melhor realizado com os personagens nos trajes super-heroicos do que fora deles, e a aparição de um Flash do futuro em um bom episódio não deixa de empolgar.

A busca pela revelação da identidade de Savitar acaba assim oferecendo a Barry uma compreensão melhor de si mesmo e de suas relações com o Team Flash. O encontro com sua despedaçada versão futurista cumpre o papel de ser uma possível virada para o herói, que decide ser a força de mudança em um futuro em que tudo de fato já se perdeu, para então voltar ao presente com esperanças renovadas (e um deus ex machina recebido de presente de sua versão new emocore). Não deixa de ser interessante o contraste entre as cenas de reunião do Team Flash (com direito ao seminal empilhamento de mãos), que no futuro, com tudo já perdido, aceita o chamado de H.R. e decide fazer frente à situação, enquanto que no passado isso não se concretiza, simbolizando que mais do que simplesmente deter Savitar, o que está em jogo é fazer frente a um destino aparentemente inescapável. Veremos de que forma a decisão do Flash do futuro em mudar o passadomesmo após todas as advertências e o fato de que a própria ameaça de Savitar nasceu de um ato desse tipo, influenciará os acontecimentos no desfecho dessa temporada.

The Once and Future Flash é um bom retorno para a série, mantendo o bom desempenho dos episódios anteriores. Ao trabalhar a dinâmica interna do Team Flash e o próprio posicionamento de Barry enquanto herói, o episódio dá sentido a algumas das turbulências pela qual a equipe tem passado, embora logicamente isso não justifique os excessos cometidos até aqui, em especial no que diz respeito ao tom da série. Como o inesperado desfecho escrachadamente otimista da viagem ao futuro distópico nos mostra, a série é capaz de empolgar mais quando deixa de lado a sobrecarga melodramática e confia nos conceitos simples e eficientes em torno dos quais seus personagens foram moldados, no material original bem como nos momentos de maior sucesso da série.  O arco de Savitar caminha para uma boa resolução, embora sob a impressão de ter se estendido demais. Talvez um dos rumos necessários para a série seja uma adaptação para uma maior subdivisão de sua temporada em arcos menores, como realizado com sucesso em Agents of S.H.I.E.L.D., por exemplo. De qualquer forma, o episódio surpreendentemente renova o interesse a respeito da resolução do arco, que permanece envolta em mistério. A cena final com o “desmanche” da armadura é apelativa, mas extremamente intrigante.. E afinal de contas, que série não se usa de seus mistérios para manter o espectador enganchado? Veremos melhor para a onde a coisa caminha na próxima semana, quando finalmente saberemos a identidade do terrível deus da velocidade (que aparentemente é suficiente para trazer a tresloucada Nevasca para seu lado), ponto central que dará sentido (ou não) a tudo que tem acontecido.

The Flash – 3X19: The Once and Future Flash — Estados Unidos, 25 de abril de 2017
Direção: Tom Cavanagh
Roteiro: Carina Adly MacKenzie
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Tom Felton, Grey Damon, Ashley Rickards
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.