Crítica | The Flash – 3X20: I Know Who You Are

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spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Após uma sequência de relativos acertos, chegamos ao vigésimo episódio da terceira temporada de The Flash com a promessa de resolução de um mistério já decididamente prolongado da trama: a identidade de Savitar. Depois de seguidos teasers e alusões ao mistério no decorrer dos episódios anteriores, I Know Who You Are promete já com seu título prover finalmente uma resposta à pergunta, e o espectador não estaria errado em esperar se tratar de uma revelação de peso, uma vez que merece um episódio inteiro em torno do tema. O fato de que se trata de um episódio fraco e com execução arrastada diz muito sobre o arco de Savitar e o real valor dramático da revelação.

São várias as escolhas disparatadas de roteiro que compõem o resultado final abaixo do esperado para o episódio, mas poderiamos sintetizar todas elas da seguinte forma: tratam-se de aproximadamente 40 minutos da mais terrível enrolação, visando acochambrar emoldurar um momento final de revelação que não convence e que decididamente não ressoa uma fração da grandiosidade que a direção tenta garantir. O episódio gira em torno da busca de Barry (Grant Gustin) pela cientista Tracy Brand (Anne Dudek),  após receber a dica de sua versão emo-futurística de que teria sido ela a responsável por desenvolver a armadilha que possibilitara a ele prender Savitar de forma definitiva na Força de Aceleração. Além de ter que pedir para a pesquisadora adiantar sua pesquisa de forma a criar uma solução tecnofantástica para o auto-intitulado deus da velocidade, o Team Flash tem que lidar com Savitar e sua mais nova lacaia, Nevasca (Danielle Panabaker), que por sua vez visam eliminar a cientista. A premissa não convence por completo. Se Barry do futuro realmente estava disposto a ignorar o conselho de Jay Garrick e mexer novamente com a linha do tempo, por que não ser de mais ajuda e fornecer ao Barry do passado a tecnologia em questão? Ou o contato direto com a versão futura de Tracy? Caso isso não fosse possível, o que impediria o Barry do presente de viajar para o futuro mais próximo em busca de uma Tracy que tenha sua pesquisa em fase já mais avançada e esteja assim mais capacitada a ajudar, ao invés de jogar a responsabilidade nos ombros de sua versão mais jovem?

No entanto, deixando os inconvenientes da viagem no tempo à parte, é ironicamente benéfico para o episódio que o Barry do futuro não tenha feito nada disso, já que uma das únicas coisas aproveitáveis aqui é o drama de Tracy, que em meio a uma crise de seu trabalho de pesquisa se vê com o peso de salvar uma vida em suas costas, sob a sombra de sua suposta grandiosidade futura, situação que se prova para ela ao mesmo tempo estimulante e assustadora. E por que diabos isso seria o ponto alto de um episódio que supostamente nos leva até o desenrolar definitivo de uma temporada de The Flash? Porque trata-se de um tema novo, interessante e que tem ressonância  temática com a trama principal da série (já que estamos tratando da relação com um futuro prenunciado, em mais de uma maneira). Três requisitos que as demais tramas do episódio ignoram, ao nos ocupar exatamente do oposto: temas batidos, desinteressantes (em grande parte devido à própria repetição desmotivada) e sem ligação revelante com a trama principal da série. A menos pior delas talvez seja a de Julian (Tom Felton) confrontando Cisco (Carlos Valdes) a respeito do fato de que ele aparentemente hesita em atacar sua melhor amiga, Caitlin. Embora seja interessante e relevante explorar a reação de Cisco à transformação de uma pessoa tão significativa, essa dificilmente é a forma mais interessante de fazê-lo, ao pintar Julian novamente como um grosseiro sem noção, e um Cisco chato e mal explorado, que não convence em seu sofrimento – em um grave contraste com a exploração fantástica do personagem no episódio anterior. O embate entre os colegas transpira monotonia e soa como um cuprimento de tabela, como muitos dos dramas interpessoais forçados de The Flash tem a tendência de fazer.

Por outro lado os encontros com Nevasca rendem boas cenas de ação, a perseguição de Flash à vilã, que desliza em um escorregador de gelo aéreo (à la Homem de Gelo dos X-Men) se destacando como a melhor delas. Porém, sem um bom contexto, mesmo a ação não empolga tanto, e Nevasca recebe uma caracterização monotônica, atuando como porta voz robótica de Savitar, sem as nuances de sua perturbada versão da Terra-2 ou mesmo a agressividade de suas manifestações iniciais, no começo da atual temporada (alguém se lembra da fuga da delegacia?).

Quanto ao restante dos pontos, basta uma enumeração, sem entrar em detalhes, já que o que se pode dizer a respeito do desgaste desse tipo de trama já foi mais do que comentado. Vamos lá: Joe (Jesse L. Martin) experimenta sérias dúvidas sobre levar a frente seu relacionamento com Cecile (Danielle Nicolet), já que ela ainda não sabe de sua colaboração com o Team Flash e entrar nesse mundo pode colocá-la em perigo. Então ele decide repentinamente romper o relacionamento, escondendo que o motivo real é que ele deseja protegê-la, mas no fim das contas tudo dá certo e ela aceita tudo numa boa, depois de muitas conversas de canto sobre o assunto. Não que a trama seja impossível de funcionar, mas ela é executada de forma totalmente desinspirada e forçada aqui, se arrastando de forma desinteressante pelo episódio e desaparecendo de forma tão repentina quanto surgiu.

Certamente que o personagem de Joe merecia mais. Se bem que pelo menos ele foi lembrado como parte do elenco, ao contrário de Wally (Keiynan Lonsdale) que simplesmente foi embora para a Terra-3, só aparecendo no finalzinho do episódio. Após tanto tempo gasto em estabelecer o Kid Flash, aparentemente os produtores se arrependeram do feito ou perceberam que não tinham ideias do que fazer com o personagem, que agora divide o tempo entre estar desaparecido ou em coma…  Não tenho nada a dizer a respeito do subplot de H.R. (Tom Cavanagh) demonstrando interesse romântico por Tracy. Depois do bom uso do personagem na semana passada, ele volta a aparecer aqui como enchedor de linguiça, em mais uma letárgica trama romântica que provavelmente não levará a nada.

Após quarenta minutos preenchidos pelos desinspirados clichês da série, temos a cena final onde Barry soma dois com dois e descobre que Savitar é ninguém menos do que um Barry Allen do futuro. A revelação provavelmente não surpreende, sendo uma das principais especulações dos fãs desde o surgimento do personagem. Difícil evitar a impressão de que, sendo esse o caso, a revelação tardia fora definitivamente uma escolha errada, motivada mais em manter cativa a audiência via um truque barato do que servir ao desenvolvimento dramático interno da série. Se Savitar é realmente Barry, esta revelação caberia muito mais como agravante ao arco da morte de Iris, e seria mais impactante se tivesse sido feita 5 episódios atrás. Porém esse não é o ponto principal. O que era necessário não era que fossemos absolutamente surpreendidos (embora o hype forçado dentro da própria narrativa da série influencie nessa direção), mas que a revelação aparecesse como um momento significativo para a temporada. Em relação a isso, permanecemos na espera, o que é especialmente frustrante após assistir ao precioso tempo de tela ser desperdiçado em filler. Ainda não sabemos exatamente a história de como Barry se tornou Savitar – se o vilão é uma versão futura de Emo_Barry ou uma terceira versão (um remanescente do futuro de Flashpoint, provavelmente?). Porém o fato é que a cena final acaba por representar um desapontamento, em forte contraste com a grandiloquência da direção que, com uma montagem frenética de cenas e falas passadas tenta fazer parecer se tratar do maior plot twist já presenciado na série. O resultado é uma cena de revelação fraquíssima, que faz transparecer mais o cansaço da fórmula a qual a série inexplicavelmente insistiu em se apegar do que efetivamente um passo significativo na trajetória de nosso protagonista.

A revelação de que Savitar é Barry Allen não convence, não é sentida como “ganha” através de nenhum desenvolvimento do personagem, que se limitou a correr em círculos e choramingar pontos batidos ao longo da temporada. Independente de quaisquer desenvolvimentos nos episódios restantes (e torcendo para que eles venham para salvar o que for possível dessa conturbada jornada), o fato é que I Know Who You Are rompe com a recente sequência de acertos da série, recaindo nos conhecidos vícios da série e dando pista de que o arco de Savitar não encaminha para uma redenção das falhas que o praguejaram.

The Flash – 3X20: I Know Who You Are — Estados Unidos, 2 de maio de 2017
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Bronwen Clark, Josh Gilbert
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Tom Felton, Anne Dudek, Danielle Nicolet
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.