Crítica | The Flash – 3X21: Cause and Effect

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Assistir The Flash tem se provado uma constante subversão de expectativas. Mesmo quem já está bem familiarizado com o estilo e narrativa das séries do Arrowverse, bem como com o que já se tornou uma fórmula própria desta série de estruturar suas temporadas, está sujeito a se surpreender mediante as decisões da equipe produtiva. Falamos aqui do tipo de surpresa na qual o espectador, ao fim da exibição, se pergunta “Ok, o que foi que eu acabei de assistir?”, não como força de expressão para falar de um plot twist violento ou de uma trama extraordinariamente empolgante, mas sim no sentido literal da frase – não exatamente o tipo certo de surpresa. Faltando dois episódios para a conclusão de um arrastado arco de temporada, Cause and Effect provoca este exato efeito pelo seguinte motivo: trata-se de um filler descarado, barato e em qualquer acepção descartável e, mesmo assim, consegue seguramente entreter mais do que o episódio anterior, I Know Who You Are, que se propunha justamente como um ponto central da narrativa mais ampla, o diametral oposto do filler descompromissado.

A impressão a que somos novamente conduzidos, e que acaba sendo difícil de evitar, é a de que as prioridades estão invertidas, a série forçando o peso em seus pontos fracos e divertindo mais nos momentos em que deixa transparecer, meio que contra a própria vontade, um pouco do que tem de melhor a oferecer, que constantemente se encontra soterrado sob camadas e mais camadas de dramalhão forçado e sem inspiração, encapadas por um tom inadequadamente obscuro. Cause and Effect prova este ponto de maneira cabal ao abordar a questão quase que em metalinguagem, dando sequência à anêmica revelação de Savitar como uma versão futura de Barry Allen (Grant Gustin) de um modo inusitado (para não dizer patético – no melhor sentido do termo), com a efetivação de um experimento falho de supressão de memória sobre nosso herói (visando impedir a transformação dele em Savitar) fazendo com que ele perca toda a noção de quem é, o que leva a diversas situações hilárias na qual o lado mais desajeitado e leve do protagonista e de todo o Team Flash ganha centralidade.

Um episódio simples, comédico e descompromissado para fazer a ponte entre a revelação de que Barry se encontra preso em ciclo temporal paradoxal no qual é literalmente o responsável pela própria desgraça de sua vida e de todos ao seu redor – o que inclui mas não se limita ao assassinato de sua amada esposa, e o confronto final no qual deveremos lidar não apenas com as implicações disso para o desenvolvimento de nossos personagens, mas também com o desfecho do embate épico entre nosso abatido time de heróis contra o poder inescapável de Savitar. Que “ótima” ideia! Exceto pelo fato de que sim, talvez tenha sido uma boa ideia, já que o episódio entretém e faz lembrar, através das situações inusitadas em que coloca nossos personagens e do tom assumidamente mais leve, o porque gostamos desse setting e desses personagens, o porque continuamos a assistir a série mesmo conforme as coisas foram descambando a partir da segunda temporada, numa escorregada que persiste até hoje.

É um contraste brutal: um episódio descaradamente desenhado como “filler” traz muito mais momentos aproveitáveis de interação e desenvolvimento de personagens do que o episódio da semana passada, com toda sua encheção de linguiça desinspirada maquiada com tons sóbrios de uma história que não se sabe pra onde vai e nem porque se leva tão a sério assim. Enquanto que na semana passada fomos forçados a aguentar as fraquíssimas tramas românticas de Joe (Jesse L. Martin) e H. R. (Tom Cavanagh), o que nos deu a “oportunidade” de ver os dois melhores atores de nosso elenco em performances absurdamente medíocres (já que não há talento de atuação que seja capaz de consertar um roteiro tão fraco), além, é claro, de Cisco (Carlos Valdes) e Julian (Tom Felton) se degladiando em uma competição de beicinhos a respeito da transformação de Caitlin (Danielle Panabaker), nesta semana nos vemos às voltas com boas cenas envolvendo as reações de todo o Team Flash à condição de nosso desmemoriado herói.

A versão amnésica de Barry traz alguns traços do Barry caxias e atrapalhado da Terra-2, porém mais descontraído e bem humorado. Destaque para a cena do depoimento de Barry a respeito do processo criminal de um incendiário, com Julian tentando orientá-lo através de óculos especiais. Comédia padrão e simples, e funciona justamente pelo senso de descontração com a qual os personagens lidam com a situação, interagindo entre si como conhecidos de longa data. Em continuidade com isso, mesmo no que se refere à inusitada visita e ajuda de Nevasca, os personagens lidam com a situação de forma realmente efetiva que, ainda que pouco realística, passa um senso da personalidade de ambos para além de suas versões dramalhonas caricaturais. Os personagens simplesmente funcionam melhor nessa tonalidade menos mórbida e mais galhofeira, que era justamente o que pontuava muitos dos bons momentos das primeiras temporadas da série. Como contrapartida, momentos mais “sérios”, como quando Cisco provoca a vilã com memórias de sua vida pré-transfomação, são sentidos como realmente ganhos e passam um sentimento satisfatório ao evitar a clássica dramatização exagerada.

Até mesmo Iris (Candice Patton) tem um (relativamente) bom episódio, recebendo inclusive falas, o que é um grande avanço para a personagem que se tornou, infelizmente, a definição de um dispositivo de roteiro – aquela cuja morte está profetizada (mas pouco fala ou faz a respeito disso, a não ser ficar de fundo com cara de preocupada). A tentação da personagem em manter Barry desmemoriado é boba, e funciona apenas se formos encarar a situação no nível de absurdez que ela apresenta. Trata-se de uma reação mal pensada e infantilizada, do tipo da que se veria em quadrinhos antigos, e é justamente por isso que ela tem lugar aqui. Acompanhar sob a perspectiva de Iris o quanto Barry é mais feliz sem carregar o peso de seu passado e as aflições de sua vida super-heróica em suas costas não apenas é interessante como inusitadamente ecoa a temática principal da temporada, já que toda a situação se originou justamente de um desejo de Barry em mudar o passado e reescrever toda sua história, afim de se livrar do peso que carregava em suas costas ao final da batalha contra Zoom.

O dilema de Iris também serve como comentário metalinguístico sobre a própria série. É difícil se desvencilhar da impressão de que é preferível assistir ao Barry descontraído, bem humorado e que encara a possibilidade de ser um herói como algo fantástico e divertido mais do que como um fardo terrível, do que sua versão atual, sempre amarga e rancorosa. A tentação em “resetar” Barry parece ecoar a vontade dos espectadores de voltar a um tempo anterior, em que as coisas eram mais divertidas. A diferença aqui é que a narrativa quer oferecer a interpretação de que essa fase sombria é parte da vida de Barry, e que ele deverá superá-la, e não tentar negar e fugir dela, já que é isso que o trouxe aqui. Porém, aqui é preciso discordar: o problema é justamente esse “aqui” em que estamos. A linha do tempo alternativa de Flashpoint não tendo sido explorada por tempo ou com intensidade suficientes para ter um real impacto dramático, o desenvolvimento do arco de Savitar como um todo não tendo convencido e a profetizada morte de Iris passando o senso de perigo apenas de forma distante, abstrata e mal costurada fazem com que a tragédia com que Barry se veja tendo que lidar atualmente não se sinta ganha ou conquistada organicamente como desenvolvimento da trama, mas sim empurrada à força pelo roteiro e direção como se fosse mais significativa do que de fato é.

Isso não significa que é impossível se fazer uma temporada ou quiçá uma série inteira de The Flash com uma tonalidade mais sóbria e com uma carga dramática mais acentuada. Não se trata de não aceitar uma fase mais sombria do personagem, mas sim de que essa fase foi mais prometida do que de fato bem executada. Não é por menos que o embate entre Barry e Savitar, logo no início do episódio, me lembrou muito a atuação de Hayden Christensen como Anakin Skywalker em Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith. Não é só o fato de que o embate entre as duas versões choro-raivosas de Grant Gustin canaliza diretamente os momentos risivelmente forçados de fúria adolescente do protagonista de Star Wars. É que a descida de Barry para a versão imoral e corrompida de si mesmo compartilha dos mesmos problemas que a conturbada trajetória do jovem Skywalker em direção ao lado negro da força. Ela não convence em nível de roteiro, direção e, consequentemente, atuação. É impossível fazer surgir carga dramática ex nihilo. A queda do herói tem que ser ganha, tem que se vista e presenciada, mas isso não acontece.

Sabemos e podemos com muita boa vontade nos convencer, a nível de premissa, de que há motivos de sobra para que ela aconteça – o assassinato de Henry Allen sendo o estopim de uma crise que remonta à infância de Barry, cuja vida sempre fora marcada por tragédias de seu futuro sobre os quais não tinha obviamente controle algum. Porém, nada disso é devidamente explorado em forma de plot, sempre em favor de subtramas românticas repetitivas e “inchadas” na dinâmica geral do roteiro. Não tivemos uma subtrama sequer em que vislumbramos, por exemplo, a reação de Iris sobre potencialmente ser assassinada por Savitar, nem antes de sabermos sua identidade real e nem agora que sabemos que é ninguém menos do que Barry. Saber que o noivo, mesmo que em versão futura distorcida, seria capaz de assassiná-la gratuitamente certamente seria um ponto dramático mais interessante de ser explorado do que o de que ela decidiu voltar atrás com o casamento, após pensar que ele só queria se casar para tentar mudar o futuro, ou de que Joe está bravo com Barry porque ele não pediu para ele a “benção” antes de pedi-la em casamento. É essa discrepância que faz com que a série frequentemente pareça simplesmente não fazer ideia do que fazer com seu tempo de tela.

Não adianta levantar premissas complexas e gastar o tempo com roteiros novelescos mal desenhados, atribuir o desânimo letárgico de nossos personagens que andam em círculos em seus dramas pessoais forçados a um arco fantástico envolvendo futuros distópicos paralelos, quando na verdade eles não se ocupam de fato dessas questões. O tempo e o interesse são tão poucos que dificilmente os paradoxos sequer fazem sentido a um nível básico de escrita de ficção científica. Por exemplo, o fato de que a amnésia de Barry acarreta em uma amnésia em um remanescente temporal que ainda será criado no futuro simplesmente não convence. Sendo Savitar um remanescente temporal, as mudanças que Barry fizer no presente acarretam mudanças para ele? E mesmo que acarretem, seria um efeito instantâneo, como foi? E mesmo que o fosse, não seria de se pensar que o efeito seria desaparecer com Savitar, e não que Savitar continue a existir, só que com o detalhe se ser amnésico? O aterrorizante vilão, em sua armadura exagerada, perguntando-se sobre sua própria identidade chega a ser cômico, e funciona apenas um nível descompromissado de narrativa, que não é aquele no qual a série tem tentado se instalar. Um mínimo de estabelecimento de regras a respeito dessas coisas, por mais sem sentido ou flexíveis que fossem, poderia ajudar para que a trama não soasse tão jogada como acaba acontecendo.

Cause and Effect inusitadamente entretém mais do que na semana anterior ao romper com o movimento geral da temporada e contar uma história descompromissada envolvendo o Team Flash em situações cômicas, e fazendo aquilo que fazem de melhor (arrumar soluções estapafúrdias para derrotar os supervilões que ameaçam Central City). Tudo que envolve o arco principal da temporada dificilmente empolga ou convence como deveria, e acredito que muito disso se deva justamente à escolha equivocada de tom. Os únicos momentos aproveitáveis dessa reta final da temporada tem sido esses nos quais vemos os personagens e as situações sob um prisma diferente, mais leve e que remonta ao setting original da série. Com pouca esperança em relação aos frutos do arco que está para terminar (faltando dois episódios e com o Tubarão-Rei voltando para o penúltimo episódio), fica a expectativa e a esperança de que haja no futuro um melhor balanceamento desses pontos, em especial do tom geral da série, que precisa deixar de lado a vontade mal trabalhada de ser séria e excessivamente dramática e reencontrar seu senso de diversão descompromissada.

The Flash – 3X21: Cause and Effect — Estados Unidos, 9 de maio de 2017
Direção: David McWhirter
Roteiro: Judalina Neira, Lauren Certo
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Tom Felton, Anne Dudek, Danielle Nicolet, Richard Zeman
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.