Crítica | The Flash – 3X22: Infantino Street

spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

E eis que chegamos à reta final da terceira temporada de The Flash. À apenas uma semana da aguardada Finish Line, acompanhamos nossos heróis na fatídica passagem pela Infantino Street, local da profetizada morte de Iris West (Candice Patton). Sem necessariamente buscar retratar os ângulos mais aventureiros e heroicos das tramas desenhadas por Carmine Infantino, mestre homenageado aqui com o nome da importante locação, temos mais um episódio em que a série aposta principalmente no drama – e a essa alturas é óbvio que não poderia ser diferente (embora o episódio da semana passada tenha inusitadamente questionado essa ideia). A diferença é que aqui vemos a série mergulhar com mais sucesso em sua identidade própria, trazendo boas e significativas cenas de drama sem no entanto deixar de reservar um tempo para acompanharmos Barry Allen (Grant Gustin) em um rápido heist envolvendo Capitão Frio (Wentworth Miller) e Tubarão-Rei.

Comecemos pelo assalto. Nosso McGuffin da vez é o artefato alienígena capaz de energizar a bazuca anti-Savitar criada por Tracy (Anne Dudek), que se encontra atualmente na posse bem-protegida da ARGUS. Depois de ter seu empréstimo negado por Lyla (Audrey Marie Anderson), Barry decide recorrer a quaisquer meios necessários para parar sua versão distorcida. Seu plano para obtê-lo e acabar com o pesadelo de Savitar, criado pela interferências mesquinha de Barry com a linha do tempo? Retirar da linha do tempo a pessoa responsável por um evento cataclismático que destronou os corruptos Mestres do Tempo de seu reinado sobre a Eternidade… Mas foi por uma boa causa! Claro que me refiro aqui à divertida interação entre os personagens e ao assalto à ARGUS, já que o salvamento de Iris mesmo ficou a ver navios, no final das contas (ou pelo menos não se deu devido à bazuca anti-Savitar).

Assim como ocorreu com o encontro com Supergirl, a boa dinâmica de Barry com Leo Snart nos mostra um lado mais positivo e heroico de nosso protagonista, provando novamente que a salvação do personagem passará por essa necessária diversidade de relações e situações para além do desgastado eixo de dramas familiares com Joe, amorosos com Iris e crises de amizade com Cisco. São ótimas as cenas que envolvem o assalto à ARGUS – ainda que curtas e com ação apenas moderada, temos uma dinâmica boa e fluída entre os personagens. A escolha de um Snart já amadurecido e devidamente “heroizado” através das experiências com as Lendas do Amanhã cai muito bem aqui, não apenas como contraste com a versão vilanesca do personagem recentemente apresentada em Legends, mas principalmente por contrapor ao desacreditado Barry a figura redimida de Snart.

A relação do herói com o (ex-)vilão/anti-herói não apenas se apoia bem sobre a longa história dos dois personagens, como trabalha na dose certa o paralelo entre suas duas trajetórias – a do herói que se torna vilão e a do vilão que se torna herói. Se os team-ups entre os dois não são novidade, datando do longínquo Rogue Time, este certamente ganha pontos pela significação que tem para os grandes arcos de ambos os personagens, um deles inclusive já falecido. É o tipo de coisa que o setting de The Flash torna capaz e deveria explorar mais, sem dúvida. Aqui vemos a série se beneficiar do arrowverse e utilizá-lo de maneira produtiva, como aconteceu em Duet e falhou miseravelmente no crossover Invasion. A cena da invasão à câmara onde Tubarão-Rei protege o dispositivo energizador é especialmente divertida, com um uso imaginativo dos clichês de filmes de tubarão (em terra firme!), pontuado de forma ácida por um Snart que quebra a quarta parede sem cerimônias, com um comentário que apenas ele conseguiria entregar sem soar pedante.

O episódio não deixa a desejar com os outros núcleos, provando que é capaz de apresentar cenas genuinamente dramáticas sem cair no novelesco. Com a fuga de Iris para a Terra-2, somos brindados não apenas com o retorno de Harry (Tom Cavanagh) e seu fiel trabuco laser, mas para uma excelente cena entre Joe e Iris, onde os personagens compartilham seus sentimentos e tentam lidar com a situação terrível em que se encontram. Tudo na cena – do início com Joe polindo a arma até o cantar e dançar como forma de enfrentar a angústia do momento, passando pelas trocas de diálogo que, ainda que flertando com lugares-comuns, não deixam de ser entregues com o devido impacto – todo o conjunto serve de exemplo para como a série deveria abordar esses momentos de forma mais eficiente. Existe uma grande diferença entre as infames “conversas de canto” e o que vemos aqui, onde o drama é realmente apresentado de forma orgânica e se sente como conquistado, e não apenas jogado na tela para preencher o tempo.

Além de ser uma cena bem roteirizada, dirigida e atuada, ajuda o fato de que vem ao encontro de algo que tenho esperado desde o início do arco, que é uma reação humanizada de Iris frente à própria morte iminente. Não que a cena resolva milagrosamente a forma como a personagem foi pessimamente trabalhada na trama em questão, em que foi relegada a ser literalmente coadjuvante em sua própria morte, mas pelo menos temos uma pequena redimida aqui, o que é melhor do que nada. A forma como acompanhamos o ponto de Iris sobre a situação até aqui simplesmente não foi consistente com a forma como a personagem obteve destaque e foi trabalhada nas duas primeiras temporadas (na primeira, principalmente). Relegada a segundo plano em um acontecimento que a impacta de forma tão direta (direta como um potencial ferrolho de um metro atravessando-lhe o tórax, poder-se-ia dizer), a personagem deixou de ser um ponto de vista possível, como era quando acompanhávamos sua vida própria, e passou a ser a “namorada em perigo” do super-herói, transformação que foi sem dúvida em seu detrimento. Caso ela venha a sobreviver ao que aparentemente lhe aconteceu ao final do episódio, espero que a personagem seja resgatada desse papel, que só faz amplificar seus defeitos.

O episódio peca, no entanto, em termos de roteiro, no que diz respeito à forma como o Team Flash lida com a chegada do momento fatídico do ataque de Savitar. A fuga para a Terra-2 é pensada de última hora e jogada para segundo plano. A forma como Savitar consegue a informação sobre a localização de Iris, embora seja uma boa sacada em termos da cena (montada de forma a realmente confundir o espectador a respeito da identidade do “Flash” que acaba de chegar perguntando por Iris), não faz todo o sentido. Pode-se argumentar que H.R. (Tom Cavanagh) é desligado e atrapalhado, decididamente menos genial do que suas contrapartes das Terras 1 e 2, tudo bem. Porém, o deslize que ele comete simplesmente não convence, dado que Barry havia explicitamente pedido para que Iris fosse levada sem que ele jamais soubesse sua localização, para evitar que Savitar acabasse sabendo por tabela (quando o F5 da linha temporal o entregasse as memórias da mudança passada, o que acontece especialmente rápido para o vilão).  Ou seja, a cena seria convincente se o erro de H.R. fosse confundir Savitar com Barry, que é o que a direção realiza com sucesso. O problema é acreditar que H.R. seria burro ou desligado o suficiente para entregar essa informação crucial para o verdadeiro Barry que o fosse, já que mesmo isso estava fora de questão. Essa pequena picuinha acaba por distrair do momento, que de resto é bem montado. A impressão que fica é que há uma tentativa de se responsabilizar H.R., de forma forçada, pelo fracasso do plano.

Em meio a tantos acontecimentos, temos ainda H.R. em sua busca por significado e em seu inusitado com romance com Tracy (ao qual eu me opus veementemente duas semanas atrás, mas que agora me convenceu – malditos sejam, Tom Cavanagh e Anne Dudek, vocês são muito adoráveis!!). Todo o destaque dado para o personagem parece sinalizar para um desfecho específico (especulemos nos comentários!), mas fica a esperança de alguma surpresa no meio do caminho. Também temos bons momentos para Cisco (Carlos Valdes), para além da assistência técnica ao assalto, em especial na preparação para o confronto fatídico com Nevasca (Danielle Panabaker), contracenando com H.R. em mais um interessante desdobramento de sua relação multifacetada com os múltiplos Harrison Wells.

O episódio termina retomando a montagem inicial sob o som de Aurora – Murder Song (5, 4, 3, 2, 1), uma excelente escolha, do tipo que dificilmente vemos na série. Como poderia se esperar, a tragédia se concretiza e somos conduzidos ao finale sem saber ao certo o que esperar (irônico, não?). Trata-se de um ótimo cliffhanger, mas que é tomado aqui com toda a ressalva que os dois season finales anteriores nos incutiram. Teorizemos por uma semana, com a expectativa do encerramento do arco, que para bem ou para mal em breve estará no passado da série. No conjunto, temos um episódio excelente para os padrões da temporada, encaminhando bem para o desfecho final. Infantino Street traz a série em boa forma, mostrando que ainda é possível apresentar um drama orgânico e bem desenvolvido com o cast de personagens da série, desde que se saiba tonalizar bem as diferentes tramas e, principalmente, dosar bem o dramalhão novelesco, em favor de decepar mãos de tubarões humanoides e atirar com diferentes modelos de trabucos laser que o seja.

The Flash – 3X22: Infantino Street — Estados Unidos, 16 de maio de 2017
Direção:
Michael A. Allowitz
Roteiro: Andrew Kreisberg
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Wentworth Miller, Audrey Marie Anderson, Anne Dudek
Duração: 43 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.