Crítica | The Flash – 3X23: Finish Line

Episódio:

Temporada:

estrelas 3

spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

E eis que, após um caminho tortuoso, o velocista escarlate cruza finalmente a linha de chegada de sua terceira temporada, sem dúvida a mais fraca até aqui. Finish Line recebe a complicada missão de realizar o fechamento das três subtramas que orientaram o desenrolar do terceiro ano de The Flash: o lidar com a criação da linha do tempo Flashpoint, a morte prenunciada de Iris West (Candice Patton) e o enfrentamento do terrível Savitar como uma versão distorcida do próprio Barry Allen (Grant Gustin). Três subtramas interligadas de maneira intrínseca, mas que não deixam de apresentar-se como tematicamente distintas, cada uma com suas potencialidades narrativas próprias. Como era de se esperar a partir dos rumos que a série tomou na reta final, a rota adotada pela produção é a de simplesmente ignorar e dar por encerrado o arco Flashpoint (afinal de contas, qual era o plano de Savitar com o Doutor Alquimia reativando os poderes dos metahumanos de Flashpoint?), colocar todo o foco na morte de Iris – porém sem dar destaque algum para a personagem – e, por fim, lidar com a transformação de Barry em Savitar da forma mais rasa e desinteressante possível.

O episódio se inicia resolvendo o cliffhanger de Infantino Street da forma como muitos dos espectadores previram: quem recebeu o golpe fatal de Savitar, ao invés de Iris, foi um forçosamente culpado H.R. (Tom Cavanagh), disfarçado com o transmogrifador holográfico que trouxe de sua realidade. O conveniente ressurgimento da bugiganga no episódio anterior, a pisada na bola homérica do personagem, sua trama romântica apressada e destacada, bem como sua localização única como potencialmente o mais descartável da equipe; tudo isso parecia conspirar para garantir que o atrapalhado Harrison Wells da Terra-19 teria um sacrifício heroico como ponto final de seu arco, que era justamente o de alguém que buscava encontrar protagonismo e significação para a própria vida. Tirando de lado a previsibilidade, nada de errado com a ideia até aqui. O problema na verdade é a forma como tal sacrifício se dá.

Me refiro a dois pontos. Primeiro, a forçação de barra barata em culpabilizar o personagem no episódio anterior, a qual eu confesso que eu esperava ser justificada aqui como parte de algum tipo de plano – não foi o caso. Da forma como ficou, a revelação involuntária da localização de Iris soa como má caracterização do personagem (o que é péssimo em se tratando do ato que o leva a sacrificar a própria vida), e não beneficiou em nada o arco geral do personagem – fazendo-o ao contrário o favor de soar como um idiota entre idiotas ao agir como o fez, o heroísmo de seu sacrifício final dissolvido em uma culpa que o personagem dificilmente mereceria mais do que seus companheiros pouco eficientes, Iris inclusa. Segundo, e mais grave, o fato de que o sacrifício dele não faz tanto sentido assim. Tendo tido tempo de sobra para estabelecer e explorar a subtrama da morte de Iris, a série simplesmente não articulou bem um sentido para aquele momento presenciado por Barry. O roteiro do episódio parece querer vendê-lo como uma espécie do que em Doctor Who costumeiramente se chama de “ponto fixo no tempo”, o conceito de um evento inescapável que garante o próprio acontecimento, como vemos em diversas histórias de ficção científica. No entanto nada do que foi mostrado ao longo do arco justifica que seja esse o caso. O que impediria Savitar de, uma vez tendo constatado, via memória, que a verdadeira Iris continuava viva, ir atrás dela novamente e assassiná-la em questão de segundos? Nem o vilão nem os heróis parecem sequer conceber a possibilidade – ela estava NA CASA DELA, horas depois do fato!

A total incompetência do Team Flash em desenvolver formas convincentes de tentar proteger Iris ao longo do arco tem como efeito fatal fazer com que a morte de H.R. pareça completamente gratuita aqui. Caso tivéssemos visto tentativas frustradas de fugir com a personagem para outras terras ou de isolá-la em locais seguros (como a instalação da ARGUS que vimos no episódio passado, como os espectadores mais atentos não puderam deixar de apontar), sucessivamente frustradas por sequências inescapáveis de eventos fortuitos ou mesmo pela ação dos Espectros do Tempo ou de um Flash Negro sendo coagido pela Força de Aceleração, poderíamos comprar a ideia de que um plano desesperado como o de H.R. pudesse ser a única solução para o fato. Mas nada disso ocorreu: todos apenas aguardaram a chegada do dia, com pouco ou nada sendo feito a respeito exceto desenvolver uma arma maluca, tomando como dado que Iris West deveria estar disponível para ser sequestrada na Central City da Terra-1 naquele dia e hora exatos. Isso enfraquece demais a resolução dada por H.R., que com isso acaba diminuída ao não convencer como deveria.

Ligado a esse problema, temos a postura de Barry e de todo o Team Flash, que definitivamente incomoda no que tange ao sacrifício do integrante da equipe. Um dos bons momentos do episódio anterior é quando Cisco (Carlos Valdes) informa Barry de que “vibrou” Nevasca (Danielle Panabaker) na floresta, pressentindo que deveria encontrá-la. Barry age ali como um verdadeiro herói, não colocando a vida de Iris à frente da necessidade vista por Cisco em confrontar a amiga e salvá-la de sua situação (por mais injustificada que essa necessidade fosse, e era). Ambas fazem parte da mesma equipe e da mesma família, e Barry assegura Cisco de que ele deve ir fazer o que considera melhor para Caitlin, mesmo nesse momento crítico. Aqui, no entanto, fica claro que para os membros do Team Flash a vida de Iris vale centenas de vezes mais do que a vida de Harrison “H.R.” Wells. Afinal de contas se ele morre a gente arruma outro, certo? A forma como a morte dele é facilmente aceita como dada apenas intensifica o quanto seu sacrifício é sem sentido e parte de um roteiro sem noção, consistindo em um daqueles momentos em que o espectador simplesmente se vê jogado para fora do desenrolar da trama.

Completando a maneira passiva com que Iris lida com a própria morte anunciada, que foi contra a caracterização anterior da personagem e a apresentou mais como uma “coisa” que Barry corre o risco de perder, do que de uma pessoa (com a experiência de vida de Iris!) que tem a vida posta em risco, temos a forma apática como ela reage ao próprio salvamento via “alguém se matou pra que eu pudesse viver”. Após o sequestro de Cisco, partimos para a sequência mais patética da série. Barry deturpa o ótimo conselho dado por Snart no episódio anterior, compreendendo que ser heroico significa oferecer um abraço ao inimigo que acaba de assassinar um companheiro, levando-o em seguida para sua base de operações para uma sessão de chororô. Sinceramente me faltam palavras para descrever a ridiculeza de toda a sequência de “vamos tentar reabilitar o Barry/Savitar”. Confesso que permaneci sem entender se a intenção de Barry era a de ganhar tempo até que a linha temporal alcançasse o vilão e ele desaparecesse ou se ele realmente estava a fim de trazer o cara pra morar junto com ele e Iris – no fim das contas foi tão ruim que pouco importa. Uma sequência de cenas simplesmente ridícula em sua falta de senso, emblematizada pelo momento em que Iris se dirige ao Barry/Savitar e toca seu rosto de forma carinhosa. O momento, excessivamente creepy, deixa sentimentos de autêntica vergonha alheia ao espectador que pensa o que raios se passa na cabeça da personagem que horas antes quase fora assassinada pelo vilão, e só não o fora porque outra pessoa deu a vida gratuitamente em seu lugar – um insulto à memória do pobre H.R. e à inteligência do espectador que persistiu em acompanhar a série até este ponto.

Após a sequência de “vamos tentar fazer amizade com Barry/Savitar”, temos uma reviravolta anêmica e um combate final que já soa totalmente fora de lugar e sem propósito. Após o episódio interromper criminosamente o esperado embate entre Cisco e Nevasca, temos a retomada da luta aqui, agora com a participação de Cigana (Jessica Camacho). Savitar prossegue com seu plano – sem sentido, sem explicação e inventado de última hora – de utilizar a bazuca de Tracy (Anne Dudek), modificada por Cisco, como forma de se fragmentar por todo tempo e espaço ou algo do tipo. É claro que Cisco se utiliza de sua compreensão aprofundada de como a Força de Aceleração funciona e é capaz de, com uns apertos aqui e umas parafusadas ali, fazer com que a bazuca especificamente se comporte de forma a libertar Jay Garrick (John Wesley Shipp) de seu aprisionamento.

Nesse ponto já se torna mais fácil simplesmente aceitar e seguir em frente. Pelo menos Shipp entrega um ótimo Jay Garrick, que no entanto é, como sempre, mal aproveitado. Com a chegada de Wally (Keiynan Lonsdale) (ué, esse cara não tinha arrebentado violentamnete a perna no final do episódio anterior?), temos vários relâmpagos passando por entre as árvores, em uma sequência de ação curta e repetitiva. No fim das contas, Barry vibra através da armadura de Savitar e toma seu lugar nela, destruindo-a em seguida – uma ótima ideia para ter feito 10 episódios atrás e nos poupado de tudo isso. Recusando-se a matar Savitar, o serviço sujo fica para Iris, numa tentativa barata e descarada de dar algum protagonismo para a personagem que falha miseravelmente. A sequência decepciona em todos os níveis: a ação é desinspirada (a direção de David McWhirter, que funcionou bem nas situações cômicas de Cause and Effect, definitivamente não se provou uma boa escolha para o final de temporada, em especial nas cenas de ação) e o significado dos embates é sublinhado de forma superficial e apressada, no maior clima de “precisamos acabar logo com isso”. O fato de que Barry consegue derrotar Savitar trocando de lugar com ele na armadura é interessante e até inventivo, porém surge como uma solução milagrosa saída do nada e que, em consonância com toda a sequência de desenvolvimentos absurdos do roteiro, faz com que o momento perca muito de seu valor dramático. A narrativa tenta vender a ideia de que Barry age de forma extremamente heroica ao não assassinar o remanescente temporal – cuja destruição já estava anunciada e era inevitável – na tentativa talvez de lhe oferecer algum mérito na coisa toda, mas falha em convencer o espectador que espera um Flash realmente super-heroico, inspirador e minimamente autossuficiente. É o velho clichê do “seja melhor do que ele”, que tematicamente funciona em determinadas situações mas que no geral é utilizado sem se lembrar que deixar de fazer algo vilanesco não deve ser tido em equivalência com efetivamente fazer algo heroico.

Sem explorar o potencial que havia em Savitar ser uma versão distorcida de nosso próprio protagonista, deixando pontas soltas e se concentrando superficialmente em pontos arbitrários da trama, forçando dramalhões que vão da ineficiência (sacrifício de H.R.) ao estapafúrdio (“Vamos tentar fazer amizade com o Savitar, que tal?”), metralhando o espectador com subtramas e soluções milagrosas surgidas do nada, Finish Line decepciona em dar fechamento à fraca terceira temporada. Após o desajeitado desfecho, a necessária partida de Barry para a Força de Aceleração, aos 47 do segundo tempo, soa fora de lugar e forçosa. Embora a cena em si seja bem construída, ela é mal aproveitada aqui – minutos após o momento de Barry e Iris gargalhando após a resolução da ameaça que os atormentou por tanto tempo, a necessidade de sua partida acabaria soando como um passo além no precipício da superdramatização, caso o episódio (e a série como um todo) já não estivesse com a cara atolada no chão.

A impressão geral que fica é a de que, uma vez passado o suposto “valor de choque” da revelação a respeito da identidade de Savitar, ao invés de explorar a mesma de forma dramática significativa, os produtores correram para resolver a questão rapidamente para então nos direcionar para a especulação do que vem pela frente. “Barry foi preso na Força de Aceleração, como assim? E agora? Wally irá assumir o manto? Meu Deus a 4ª temporada é a mais épica da série até agora!!” são algumas das reações que eu imagino que tenham sido semeadas cuidadosamente pela equipe de marketing da série e que já dão frutos entre os fãs mais tolerantes. Nada de errado a princípio – quem não curte uma divertida especulação e um plot-twist de final de temporada? O problema é que, ao contrário das reviravoltas instigantes dos dois finales anteriores,  o que temos ao final de Finish Line é um epílogo que sobretudo mostra que a série dificilmente seguirá em frente para além da rígida estrutura de lugares-comuns na qual se instalou – o que, se não é surpreendente a essa altura do campeonato, é sempre uma pena de se constatar.

The Flash – 3X23: Finish Line — Estados Unidos, 23 de maio de 2017
Direção:
David McWhirter
Roteiro: Aaron Helbing, Todd Helbing
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Tom Felton, Jessica Camacho, Anne Dudek, John Wesley Shipp, Michelle Harrison
Duração: 43 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.