Crítica | The Flash – 4X01: The Flash Reborn

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Depois de perdermos o pique com uma 3ª temporada cheia de tropeços, com uma segunda metade especialmente arrastada e um final decepcionante, chegamos à 4ª temporada de The Flash com a esperança de uma salvação para a série que um dia nos entregou um serial super-heroico muito divertido e balanceado, antes de se perder em tramas cíclicas e deixar o dramalhão afogar ótimos personagens. A ponta solta que trazemos de Finish Line é, como não poderia deixar de ser, o fato de que Barry Allen (Grant Gustin) encontra-se ausente, capturado pela Força de Aceleração já há seis meses.

Entregue pelo título, a decisão de trazer Barry de volta tão cedo causa algum estranhamento e faz lamentar a chance desperdiçada de se explorar por pelo menos alguns episódios a vida do “Team Kid Flash” em Central City, em paralelo com relances de Barry perdido pela Força de Aceleração. Porém, também é fato que os maiores enroscos criativos da série se deram com a extensão exagerada de subtramas por diversos episódios, geralmente acompanhada de resoluções inevitavelmente anticlimáticas. Assim, talvez tenha sido uma boa ideia trazer Barry de volta logo de uma vez, já que o encaminhamento da história sugere que os produtores, ao menos por hora, não têm intenção de explorar um Team Flash que não dependa da figura de Barry para funcionar bem.

A sequência inicial, com o retorno da teleportadora Peek-a-Boo/Ka-Bum (Britne Oldford), de Crazy for You e Rogue Air, é uma boa cena de perseguição trazendo Iris West (Candice Patton) em um papel definitivamente protagonista, coordenando as ações da dupla heroica Kid Flash & Vibro bem como da unidade de polícia sob o comando de Joe (Jesse L. Martin). É bom ver a personagem com algum agenciamento, depois do período terrível em que ela se resumiu a um artefato de roteiro a ser protegido da ira de Savitar (o nome traz calafrios, mas não pelos motivos certos). Não significa que ela consiga escapar de soar um tiquinho antipática, como é usual, e é inegável que ela foi eleita aqui para encarnar as tramas novelescas favoritas dos produtores – sim, temos direito a um sermão com choro sobre alguém ter escondido algo dela, no caso da semana a treta é com Cisco, que desenvolveu secretamente os meios para trazer Barry de volta. No entanto, é bom notar que estes momentos são bem balanceados com outras interações de personagem, que ganha desenvolvimento aqui, sendo que a irritação de Iris encontra justificativa, safando-se de soar tão gratuita quanto costuma ser o caso.

O papel de segundo protagonista fica por conta não do Kid Flash, como poderia se imaginar, mas de Cisco (Carlos Valdes), que tem um ótimo episódio, trazendo piadas bem entregues e articulando o resgate de Barry de forma satisfatoriamente convicente. Como “último sobrevivente” do Team Flash original, temos um Cisco experiente e amadurecido que concilia bem os afazeres super-heroicos de Vibro com sua ciência louca no S.T.A.R. Labs, conseguindo completar seu projeto de trazer Barry de volta a tempo de salvar a cidade, além de buscar Caitlin (Danielle Panabaker) de volta para a equipe. Que ele continue assim e, especialmente, que suas piadas sejam tão inspiradas e bem entregues quanto as desse episódio, que conta com pelo menos dois momentos genuinamente engraçados.

Wally West (Keiynan Lonsdale) por sua vez parece evoluir fazendo dos cantos sua casa, aceitando seu destino narrativo de ser jogado para o lado e fazendo o melhor possível dentro disso. O eterno sidekick tem boas cenas no team-up com Vibro contra Peek-a-Boo, bem como no primeiro encontro com o Samuróide, onde ele surpreende Cisco falando japonês, em mais um momento divertido. Ele ainda conta no desfecho com uma ótima cena de luta contra o andróide, onde finalmente utiliza o uniforme vermelho do Flash. Infelizmente ele acaba com uma katana atravessada pela fíbula. Sério, o pobre Kid Flash precisa benzer as pernas urgentemente.

O retorno de Barry, ponto central do episódio, acaba sendo bem explorado em duas vertentes: sob o foco das relações pessoais, com Joe e Iris principalmente, e também com o destaque para seu papel no time. Na primeira, merece menção a cena em que Joe barbeia Barry e o subsequente diálogo com Iris, em mais uma boa exploração do personagem, sempre bem interpretado por Martin. Na segunda, os acontecimentos deixam claro que não se trata apenas do poder e das capacidades de Barry como indivíduo, mas também do fato de que ele é quem une todas essas pessoas e dá sentido ao trabalho delas de proteger a cidade. Este caráter de funcionamento em time, que é um ponto forte dessa encarnação do velocista escarlate, é bem explorado aqui, fazendo desejar que os produtores maneirassem nas tramas de desabamento do Team Flash, reservando-as para boas entregas como essa. Nesse sentido é que sua condição de confusão, rabiscando as paredes e com a fala desarticulada é até interessante, em especial para trazer à tona a reação de cada um mediante a situação.

Por outro lado, fica a impressão de que o surto poderia ter sido melhor realizado, tanto pelo lado interpretativo de Gustin, quanto pelo aspecto visual. Talvez avançando um pouquinho no exagero, a loucura de Barry poderia realmente convencer, livrando-se da impressão, que fica o tempo todo, de se tratar de algo apenas temporário. Que fique claro também que Gustin entrega uma interpretação superior aos outros momentos em que retratou um Barry Allen emocionalmente instável, como no episódio com sua vertente emocore revival da temporada passada. Não é sua culpa que suas falas delirantes se resumam a rimas da Vila Sésamo e seu aspecto físico quando de sua chegada na Terra seja o de um jovem que acabou de sair de uma barbearia gourmet, ao invés de uma alma torturada em uma dimensão extratemporal. O que quero dizer é que um cabelo minimamente desarrumado, uma barba realmente longa e sem forma, um aspecto visual mais abatido e umas falas retiradas de alguma entrevista do Grant Morrison dariam conta de passar a ideia de uma forma menos teatral e mais convicente do que o que recebemos.

O plano de Iris para forçar o retorno de Barry pode causar estranhamento, uma vez que o intento do roteiro era trazer protagonismo para a personagem. Afinal de contas, ela consegue seu maior protagonismo na história fazendo o oposto, justamente o que sabe fazer melhor: colocar-se irremediavelmente em perigo e depender de Barry para salvá-la. Mas também é verdade que a decisão aqui funciona narrativamente bem, sendo que podemos entender o momento como uma “repassada de tocha” da personagem, que ajudou a proteger Central City por seis meses, mas que se vê agora na situação de precisar necessariamente dar um passo atrás e invocar de volta o Flash. Ou seja, mesmo o se entregar acaba sendo uma forma de protagonismo, e tem significado para a personagem, já que ela não é apenas uma vítima da situação mas dá o direcionamento que ativamente faz com que a situação toda se resolva.

No entanto, ainda sim fica alguma sensação de que Barry recobra a consciência cedo demais, e por meios que ainda não nos ficam claros, mas que provavelmente têm ligação com o que aconteceu com ele durante sua estadia na Força. Por outro lado, a cena do retorno definitivo de nosso herói titular é muito boa, com a perseguição ao Samuróide voador no campo da usina eólica sendo visualmente bastante empolgante, trazendo uma variação interessante para as conhecidas perseguições da série, que bem necessitam de um fõlego renovado. E isso não apenas para sair do batido ambiente urbano, mas ainda pelo aspecto estratégico: sem prédios para escalar e perseguindo um inimgo voador, Flash tem que se virar com os cata-ventos derrubados pelo robô, o que resulta em uma batalha visualmente e narrativamente empolgante. É o tipo de coisa que a série necessita, sair da cansada disputa entre velocistas (que muitas vezes acaba em um tedioso duelo de relâmpagos de computação gráfica) e voltar para usos mais criativos da supervelocidade mediante situações em que ela é desfavorável. A escolha do Samuróide certamente se deu pensando no aspecto visual, e dá resultados, com efeitos práticos simples mas bastante interessantes e diferentes do que já foi visto até então na série. Quero dizer, após escalar um cata-vento gigante e saltar no ar, Barry rouba-lhe uma katana e corta uma de suas asas em meio ao vôo, em uma fração de segundos. Esse é o tipo de coisa que eu quero ver meu velocista televisivo fazer (e não socar inutilmente o escudo de um gorila em CG, para dar um exemplo). No final das contas, não surpreende tanto que se trate de um enviado do grande vilão da temporada, o já prenunciado DeVoe/Pensador (Neil Sandilands), do qual temos um rápido vislumbre ao final do episódio. Por outro lado, trata-se de um belo twist o fato de que a situação toda fora armada para ter este exato resultado.

Por fim, merece destaque a subtrama de Caitlin, que volta ao S.T.A.R. Labs mas que aparentemente anda metida com os rolos de uma tal de Amunet (Forja?) e que, como vemos ao final, ainda tem problemas com a parte mais gelada de seu coração. Imagino que seja em vão torcer para que não arrumem mais um interesse romântico forçado para ela. Trata-se de um artifício que já foi usado ao extremo para a personagem, tendo perdido praticamente toda credibilidade a essa altura. Como exemplo desse excesso temos Julian, que é citado de passagem, deportado pelos roteiristas para o Hall do Esquecimento de personagens que sobraram, como Jesse Quick e Patty Spivot Londres. Fica ao menos a esperança de que nos aprofundemos nas origens de sua persona de Nevasca de forma mais detalhada.

The Flash Reborn tem sucesso em lançar as bases narrativas nesse início de temporada, beneficiando-se de um elenco sem excessos, ótimas cenas de ação, construção de subtramas simples e da boa exploração das relações entre personagens (ainda que recaindo em alguns vícios tradicionais, conseguindo manter-se interessante). Visualmente o episódio agrada, com boas rendenizações dos super-poderes, belas cenas de ação em alta velocidade e designs bastante eficientes de personagens, como atestam o Samuróide (espero vê-lo de volta!) e o vislumbre que temos do Pensador, na vinheta final – que além de ser um visual interessante, também traz o alívio indescritível de se tratar de um vilão de temporada não-velocista. Resta esperar que a série consiga desenvolver bem as subtramas plantadas aqui e se manter tonalmente consistente, equilibrando as tramas e personagens de forma a não desperdiçar boas oportunidades, como já aconteceu antes. Por enquanto, começamos com um pé direito veloz, ainda que desconfiado.

The Flash – 4X01: The Flash Reborn — Estados Unidos, 11 de outubro de 2017
Direção: 
Glen Winter
Roteiro: Todd Helbing, Eric Wallace, Andrew Kreisberg
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Neil Sandilands, Jesse L. Martin, Danielle Nicolet, Kim Engelbrecht, Britne Oldford
Duração: 43 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.