Crítica | The Flash – 4X02: Mixed Signals

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Após iniciar a quarta temporada com o pé direito em The Flash Reborn, a série surpreende novamente o espectador desacreditado com mais um bom episódio. Seria impossível não começar falando da diferença tonal. Durante a conturbada terceira temporada da série, o problema com um humor excessivamente tenso (quando não depressivo) colocou uma lente de aumento sobre os dramas mal construídos da série. Em Mixed Signals, em continuidade com algo que começou timidamente no episódio anterior, temos um verdadeiro giro de 180º em relação ao que vinha sendo estabelecido pela série, de tal forma que se torna evidente estarmos assistindo a um correção de curso por parte dos produtores. Aqui a comédia está por toda a parte o que, como tudo que se refere ao humor, terá resultados a variar do gosto do freguês. Mesmo tendo uma frequência bastante elevada, nível Universo Cinematográfico da Marvel, o humor mais funciona do que cai por terra, e serve em especial ao propósito de trabalhar bem os personagens, resgatando eventos passados e destacando suas dinâmicas atuais no curso de um episódio que encontra tempo para tudo.

Também é certo que isso vem ao custo de um não levar-se tão a sério por parte de roteiro, elenco e direção (a trilha sonora “comédica” acaba sendo um passinho além da conta), e a galhofada pode incomodar os fãs que compraram que The Flash se pretendia como um drama mais sisudo do que uma adaptação literal e descontraída dos quadrinhos – o que não é o caso deste que vos escreve. Em termos da narrativa contínua da série, a mudança brusca de tom pode causar estranhamento e inclusive se assemelhar a uma descaracterização dos personagens e situações conforme previamente apresentados. Mas falamos aqui de uma série de super-heróis da CW, com 23 episódios por temporada. Certamente não é um serial que se mantém pela continuidade de sua narrativa, mas sim pelo valor episódico, e nesse campo a exibição desta semana se garante.

Até mesmo os conflitos interpessoais, terreno delicado para a série, encontram-se bem dosados, sabiamente dando o peso mais ao “interpessoal” do que aos “conflitos”. Ao invés do fatigoso exercício de busca por quaisquer micro-picuinhas possíveis entre o elenco de personagens, trabalham-se aqui os mesmos problemas introduzidos na semana anterior, e sob uma leveza que não se via na equipe provavelmente desde o início da segunda temporada. Os problemas entre Barry (Grant Gustin) e Iris (Candice Patton), tema central para o casal protagonista, se mantém centrados na partida de Barry para a Força de Aceleração ao final de Finish Line. Evitando reduzi-lo à famosa conversinha arrastada de canto de corredor nos S.T.A.R. Labs (que sim, faz uma aparição, mas bastante curta e comedida em relação aos padrões da série), o roteiro consegue dar consistência à subtrama ao desdobrá-la em meio ao conflito super-heroico do episódio. Aproveitando-se do fato de que Iris agora trabalha com o Team Flash, o roteiro aproveita bem o tempo da comunicação interna do time para mostrar como a ausência de Barry não apenas a impactou emocionalmente, causando agora também um estranhamento já que ele não está acostumado com a nova dinâmica do Team Flash, agindo impulsivamente, ainda que com boa intenção – e isso, meus amigos, é o puro conceito do Barry Allen dos quadrinhos.

Quando, em meio aos desencontros da dupla, surge a ideia da terapia de casal, baseado no referencial da terceira temporada, arrepiei em imaginar os torturantes rumos que essa história poderia tomar. Foi uma grata surpresa ver o roteiro aproveitar-se da ideia em boas cenas de comédia, no melhor estilo “heróis vão ao divã”, representado de forma definitiva nos quadrinhos do X-Factor de Peter David. As cenas de Barry e Iris na terapia de casal são genuinamente engraçadas, os momentos comédicos mais sólidos de um episódio que atira para todos os lados no quesito, mas que por sorte mais acerta do que erra.

Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker) atuam bem como dupla, mas as pistas de uma possível tensão romântica entre eles obviamente não empolgam, a essas alturas do campeonato. A permuta de relacionamentos deixa de interessar na medida em que fica claro que é isso que o programa tenderá a fazer até seu encerramento, recriar este ciclo novelesco que mais parece falar diretamente com a audiência, no sentido do fanservice descarado mesmo, do que realmente servir algum propósito na história. Caitlin teve três relacionamentos para três temporadas, com retornos progressivamente reduzidos. Enquanto que a relação com Ronnie era bem retratada de forma dramática, ligando suas motivações ao acidente do S.T.A.R. Labs, o rápido lance com Zolomon não fugiu muito do clichê de fazê-la vítima de sua crueldade gratuita e Julian… Bem, ficou bem claro que não havia plano algum para Julian para além da revelação de sua identidade como Doutor Alquimia.

Por sua vez, Joe (Jesse L. Martin) e Wally (Keiynan Lonsdale) trabalham bem como dupla, sugerindo potencial para o Kid Flash fazer, enfim, alguma coisa na série. Talvez se Wally entrasse para a polícia e fosse tutorado por Joe poderíamos vê-lo atuando em uma frente diferente dos casos, ajudando os cidadãos comuns e na linha de frente contra os capangas enquanto Barry desvenda as tramas e lida com os “cabeças” da situações. O problema é que, para isso, ele precisaria aprender a agir, e pobre coitado, o roteiro simplesmente não o perdoa. Apesar de até certo ponto justificável, o fiasco em proteger a vítima de Kilg%re de forma minimamente apta para um super-heroi não deixa de chamar a atenção, ainda mais se puxarmos o histórico do cara.

Falando nele, o estranhamento nomeado vilão da semana, Kilg%re, é adaptação de um vilão que nos quadrinhos é uma cópia do Warlock dos Novos Mutantes inteligência tecno-orgânica alienígena. Aqui o cara é um desenvolvedor de malware frustrado após ter sido passado para trás pelos sócios, e que por motivos ainda não esclarecidos se torna algo como um “malware vivo”. Arrepiante! Observamos um uso efetivo de seus poderes de forma variada, com momentos mais sóbrios como a violenta morte por “chacoalhamento de elevador”, na sequência de abertura, e pela sobrecarga de insulina causada em sua malgrada ex-sócia, lado a lado com momentos de pura pantomima como Barry desmontando o carro em movimento e, depois, com o robozinho levando a granada para Joe na delegacia (uma ameaça hilariamente patética!). A atuação de Dominic Burgess é suficiente para deixar uma impressão, e o vilão é uma adição bem-vinda à galeria de vilões da série, que não se expandiu com o mesmo entusiasmo nas duas últimas temporadas do que na primeira.

A grande novidade do traje tecnológico de Barry é bastante interessante e aprofunda os ares de UCM do episódio – embora a inspiração nas sequências humorísticas de Homem Aranha: De Volta ao Lar seja direta e evidente demais. Aos que possam rolar os olhos por Barry estrear o traje tecnológico justamente na semana em que enfrenta um inimigo tecnopata, vale pensar que isso é exatamente o tipo de coisa que aconteceria em um quadrinho ou serial de televisão clássicos. Afinal de contas, quantas coincidências dessas permeiam esse tipo de narrativa descompromissadamente episódica? O importante é que a escolha dá frutos aqui, embora às custas de render à Wally mais um momento de extrema pateticidade, e o grande furo de roteiro do episódio. Uma vez que Barry é “travado” no traje, Wally, o prodígio dos prodígios da velocidade e que está totalmente desprovido de tecnologia não poderia simplesmente pegar o soro e aplicá-lo em Kilg%re, acabando com a ameaça de uma vez? Ao invés disso ele acaba servindo como vítima de um absurdo raio repulsor por parte de um hackeado Barry Stark, o Flash de Ferro, nocauteado mais uma vez sem nem ao menos tentar. Por favor, alguém se solidarize com o Kid Flash. Ele já mais do que pagou pelos seus pecados (ser um mala em suas primeiras aparições), e agora a coisa simplesmente está chegando a níveis constrangedores…

Um episódio bem construído e bastante divertido, ainda que nada ambicioso, Mixed Signals entretém e traz de volta um lado do forte elenco de personagens da série que por bastante tempo se tornou bem raro. A correção tonal funciona, mesmo com algum exagero na comédia, e o formato do freak of the week é utilizado com astúcia, relacionando todas as subtramas dos personagens em torno do combate contra o vilão, que conta com boas explorações de seus poderes. As cenas de ação e uso dos poderes estão melhores do que em muito tempo, e a série demonstra um salto de qualidade em relação à temporada anterior. Por outro lado, insistindo no formato absurdamente longo de temporadas, a única forma da série manter o pique será investir solidamente na caracterização e em desenvolvimentos inovadores para os personagens, algo que dificilmente se sustentará. Jogar seguro funciona num início de temporada, e para exibições mais episódicas, mas a longo prazo corre-se o risco da estagnação cíclica bem conhecida dos espectadores das séries da CW. Pelo menos por enquanto, tivemos duas boas (quase) horas de televisão inspirada em quadrinhos, nos lembrando dos momentos de maior sucesso da série.

The Flash – 4X02: Mixed Signals — Estados Unidos, 17 de outubro de 2017
Direção: 
Alexandra La Roche
Roteiro: Jonathan Butler, Gabriel Garza
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Neil Sandilands, Jesse L. Martin, Patrick Sabongui, Kim Engelbrecht, Jessica Camacho
Duração: 43 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.