Crítica | The Flash – 4X09: Don’t Run

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Um dos principais elogios direcionados à The Flash (nas raras vezes em que esse tipo de coisa acontece) é que a série consegue se assemelhar realmente a uma história em quadrinhos traduzida para a TV. Se isso é verdade para o bem, também o é nos detalhes menos gloriosos. Assim é que, ao melhor estilo da nona arte, na semana anterior vimos serem colocados completamente em suspenso os arcos narrativos da temporada em favor de um super-crossover completamente tangencial, com pequenos enxertos das subtramas correntes na série para tentar dar uma impressão de fluência. Don’t Run retoma de forma praticamente direta as linhas deixadas ao final de Therefore I Am, trazendo finalmente ao seu desfecho o primeiro face-a-face entre o velocista escarlate e seu novo nêmese, o Pensador.

A primeira metade do episódio joga com lugares-comuns realizados de forma competente, sua maior força residindo na caracterização. Mais uma vez se faz marcada a consistência dos personagens na temporada, que se beneficia da tonalidade mais leve, embora o elenco já não tão enxuto faça sentir o desbalanço característico de foco entre os personagens. Pode-se notar inclusive um “excesso de piadas”, mais uma vez nos fazendo lembrar dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel, ao qual a presente temporada deveria ser dedicada, tamanha a inspiração! No entanto, ao contrário do que ocorre em alguns dos exageros da Casa das Idéias, de maneira geral o humor entrega bem e não arrasta tempo de tela o suficiente para se tornar um incômodo. Destaque para o timing comédico da dupla Cisco (Carlos Valdes) e Harry (Tom Cavanagh), que de quebra expande a transformação na relação dos personagens iniciada em When Harry Met Harry, realçando as diferenças entre a versão atual do personagem de Tom Cavanagh e o atrapalhado e já saudoso H. R. Wells.

Se de cara os sequestros simultâneos de Barry (Grant Gustin) e Caitlin (Danielle Panabaker) dificilmente se assemelham a um roteiro empolgante, o desenvolvimento do capítulo tem sucesso em subverter expectativas de forma inteligente e, o mais importante, divertida. Ao final do episódio fica claro ao espectador mais implicante exigente que o plano do Pensador dificilmente caracteriza algo de explodir a cabeça, mesmo que ainda nos falte alguns detalhes a respeito dele. Por outro lado, a forma como nos inteiramos dele é bem realizada de tal forma que a cena climática, onde Barry se vê capturado perfeitamente pela armadilha de DeVoe (Neil Sandilands), consegue entregar bem a sensação de urgência e perigo que usualmente se faz rara na série.

O investimento em uma tonalidade mais leve e humorística, definida já na competente estréia The Flash Reborn, dá um de seus principais frutos aqui – justamente no capítulo com menos cenas cômicas da temporada até então. Apesar de abrir com uma bravataria entre Cisco, Ralph (Hartley Sawyer) e Harry típica de sitcom (só faltou a laugh track), temos uma mudança de foco eficiente com os embates entre Caitlin e Amunet (Katee Sackhoff) e entre Barry e DeVoe, nos quais um senso de urgência se faz presente como em nenhum outro momento da temporada até aqui. Acompanhamos a forma como o Team Flash lida com a crise sob o prisma da liderança de Iris (Candice Patton), que tem dificuldades em organizar a equipe em meio a um desentendimento entre Cisco e Dibny. Território mais do que percorrido pela série, o fato é que os conflitos interpessoais funcionam muito melhor quando surgem de forma orgânica em um momento convicente de crise. O drama encontra seu lugar certo, deixando de predominar sobre a trama e servindo, ao invés disso, para caracterizar “pelas bordas” os personagens, como um bom quadrinho de super-herói costuma fazer.

Além disso, o roteiro faz um bom uso do ocorrido para engatar outras duas subtramas da personagem: a amizade recém-fortalecida com Caitlin e suas dificuldades em lidar com seu posto de liderança após o retorno de seu amado das garras da Força de Aceleração. O dilema de Iris, escolher entre priorizar o resgate de Barry ou de Caitlin, oferece um twist interessante à trama batida dos raptos e resgates pelos quais a série (o gênero, convenhamos) tem uma incrível fixação. A escolha se torna ainda mais interessante na medida em que, sob o ponto de vista de Iris, permanecemos na dúvida a respeito dos desfechos das duas situações, construindo um bom suspense em torno do sucesso ou não de sua decisão. Ao racionalizar que Barry tem mais recursos do que Caitlin para se safar por conta própria, Iris segue o exemplo altruístico do Flash e mostra coerência com seu cargo. Por outro lado, o encaminhamento da situação brinca com as expectativas e mostra gradualmente uma Caitlin em vias de escapar, enquanto que Barry se encontra definitivamente em maus lençóis, na ponta de um plano muito mais intrincado do Pensador.

Mesmo em seus roteiros mais bem construídos, The Flash é uma série cujas surpresas normalmente gravitam em torno da identidade secreta do grande vilão, normalmente ligada ao prenúncio, via viagem no tempo e adjacências, de um desastre anunciado – o qual nossos heróis lutam para evitar. Fugindo desse modelo já bastante reutilizado, o roteiro aqui coloca o espectador em um lugar raro de não saber os rumos do desfecho ou mesmo a ligação possível entre as subtramas apresentadas (se bem que por vezes não há ligação nenhuma – felizmente não é o caso essa semana!). Conforme Caitlin consegue habilmente se desvencilhar do cativeiro de Amunet, enquanto Barry permaneece com cara de choro na jaulinha invisível de DeVoe, somos levados a realmente nos questionar se a decisão de Iris não sairá pela culatra.

Que os planos do Pensador se encaminhavam para uma troca de corpos, isso já se anunciava desde Therefore I Am, quando soubemos dos contra-efeitos degenerativos dos poderes de DeVoe. Um diálogo dele com Marlize (Kim Engelbrecht) no início do episódio confirma essas teorias, ao dar a entender que ela terá que se acostumar com a nova forma que o marido irá receber. As suspeitas naturalmente recaem sobre Barry, uma vez que seu metabolismo metahumano provavelmente serviria como uma bateria perfeita para o poder mental ilimitado de DeVoe. Pode até ser que este se revele como seu plano final (permanecemos sem saber exatamente o motivo do sequestro de Barry), mas por hora somos despistados o suficiente para que as cenas finais tenham seu impacto necessário. A introdução de Dominic Lanse (Kendrick Sampson) como o metahumano ferido por Amunet e que necessita do socorro de Cailtin consegue ser sorrateira o suficiente para que, ao final do episódio nos sintamos devidamente enganados e um tantinho ingênuos em não ter adivinhado para onde a história toda se encaminhava, com DeVoe assumindo o corpo do rapaz.

Um vilão sem grande expressividade no Universo DC, o Brainstorm apresentado aqui referencia a encarnação mais recente, dos Novos 52, do vilão clássico (mas igualmente esquecido) Brain Storm, cuja estreia acontecera em Justice League of America v1 #32. Ao invés do supercientista Axel Storm, temos aqui o agente da TSA Dominic Lanse, um dos metahumanos do ônibus de DeVoe – na verdade o que parece ser o fruto final e motivo por trás da experiência, que era justamente a de criar um metahumano telepático capaz de receber a mente do moribundo professor. O personagem é apresentado de forma que o registremos inicialmente como mais um interesse romântico de Caitlin (zZz), apenas para seu lugar no esquema das coisas se revelar nas cenas finais, trazendo um desfecho satisfatório para essa primeira parte da temporada.

Vale ressaltar, no entanto, que a força do roteiro não é traduzida sem falhas para a tela. A direção de Stefan Pleszczynski é um tanto atrapalhada, em especial no que diz respeito aos cortes entre as diferentes subtramas, intercalando de forma um tanto aleatória as sequências de Caitlin e Barry (em uma das vezes somos levados da operação de Caitlin à sala de DeVoe apenas pra ver a cara de sofrimento do Grant Gustin, voltando em segundos para onde a cena anterior acabou!). Enquanto que Gustin entrega, no geral, uma boa atuação, Candice Patton não convence mesmo com um roteiro tão interessante para sua personagem (coisa raríssima de se acontecer). A cena em que o Pensador captura o Flash e ela grita por seu nome é absurdamente risível, e existem sequêncais no S.T.A.R. Labs em que Iris parece inexplicavelmente pronta a explodir em risada. Por outro lado, o restante do elenco encontra-se em boa forma (em especial Tom Cavanagh, matando-nos a saudade do fantástico Harry “Trabuco” Wells), e a computação gráfica é suficientemente boa, com destaque para a luta aérea entre Flash e o Pensador, onde vemos novamente um uso criativo e bem executado dos poderes vibratórios do herói.

Fundindo os conceitos do Pensador com o do vilão Brainstorm e apoiando-se em uma história de origem bastante interessante para o personagem, o desenvolvimento do nêmese da vez nos sugere finalmente um adversário quase tão interessante quanto o Eobard Thawne da 1ª temporada, após um inconstante Zoom e o desastre que foi Savitar. Após uma necessária retomada de fôlego, a série mostra disposição em não se assentar no modelo atual e se desenvolver em novas direções a partir do retorno do hiato de inverno. Neste sentido, vale notar que o frame-up de Barry Allen, incriminado astutamente pelo assassinato de DeVoe, remete à clássica história O Julgamento do Flash (The Flash v1 #323 – 350), onde o herói precisa se defender do aparente assassinato do Professor Zoom. Inédita no Brasil (se não muito me engano), o arco desenhado por Carmine Infantino tem valor histórico importante, marcando o fim do volume inicial da mensal de The Flash, sendo a última aventura de Barry Allen antes de encontrar seu destino derradeiro em Crise nas Infinitas Terras.

Resta torcer para que essa costura entre diferentes elementos da mitologia do personagem dê certo o suficiente para que a série siga em frente sem recair nas tramas envolvendo apenas velocistas e viagens no tempo – inclusive renovando as esperanças de uma temporada destinada à Galeria de Vilões (ainda que, lamentavelmente, sem o Capitão Frio de Wentworth Miller). Com um bom uso das subtramas trabalhadas até aqui, Don’t Run conclui bem a primeira parte do arco do Pensador, remetendo aos bons momentos da série em seu melhor estilo quadrinesco. Resta torcer para que não ocorra o que aconteceu na temporada anterior, que tomou uma virada definitivamente negativa no segundo ato da ameaça de Savitar. Dedos cruzados!

Obs: The Flash entrará em hiato, voltando apenas em 2018.

The Flash – 4X09: Don’t Run — EUA, 05 de dezembro de 2017
Direção:
Stefan Pleszczynski
Roteiro: Sam Chalsen, Judalina Nera
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Neil Sandilands, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Katte Sackhoff, Hartley Sawyer, Patrick Sabongui, Kim Engelbrecht, Kendrick Sampson, Jessica Camacho
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.