Crítica | The Flash – 4X10: The Trial of The Flash

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Iniciando a segunda metade da 4ª temporada de The Flash, que até aqui teve mais acertos do que erros em sua desafiante missão de reparar o estrago deixado pela desastrosa temporada anteriorThe Trial of The Flash dá sequência aos envolventes acontecimentos de Don’t Run, com Barry caindo como um pato nas armações do insidioso Pensador (antes Neil Sandilands, agora Kendrick Sampson) e sendo acusado pela morte do professor DeVoe. O episódio trabalha com duas linhas narrativas paralelas, uma com o julgamento de nosso injustiçado herói, enquanto que a outra traz mais um novo vilão da semana, o fraquíssimo Fissão (Ryan Alexander McDonald), adição mais apática à galeria de vilões desta temporada até agora.

Como o título já sugere, o episódio se propõe também como uma adaptação da importante saga The Trial of The Flash, que correu em The Flash v1 #323 – 350, efetivamente encerrando o primeiro volume da mensal do velocista escarlate. Pouco conhecida por aqui, uma vez que ainda não recebeu nenhuma publicação no Brasil, este arco com a arte seminal de Carmine Infantino tem um valor histórico curioso para a série, uma vez que a personagem Cecile Horton (Danielle Nicolet) teve sua primeira  (e também a última) aparição nesta mesma história, como a advogada de defesa do Flash. Ou seja, pode-se dizer que o fato de que Cecile assume esta função neste episódio é, além de uma referência ao arco clássico, como que a personagem assumindo o papel que “nasceu para desempenhar”. Do outro lado do julgamento temos, também vindo direto do arco original em quadrinhos, o promotor Anton Slater (Mark Valley), que também parece ter nascido para este momento à sua própria maneira, uma vez que aparenta obter uma enorme satisfação em trabalhar para a condenação de nosso herói. Sua argumentação teatral e emotiva emprestam à coisa toda um necessário ar de descontração, o que funciona a favor de um julgamento que soa bem pouco convincente sob um olhar mais crítico.

As semelhanças com o arco original param por aqui, no entanto, uma vez que a predicativa do julgamento nos quadrinhos é a de que Barry, enquanto caracterizado como Flash, é visto em público efetivamente matando um de seus inimigos – praticamente o diametral oposto do que ocorre aqui. Ou seja, no quadrinho original, é literalmente o Flash que está sendo julgado – com a promessa apatetada de que ele pode ser preso – e ainda sim manter sua identidade secreta protegida! Outra diferença é a de que, nos quadrinhos, Cecile defende a ideia de que a identidade secreta de Barry deve ser defendida a todo custo, enquanto que aqui novamente temos o oposto. Tratam-se de escolhas obviamente bem alinhadas com a proposta da adaptação televisiva da CW, uma vez que o foco na vida pessoal de Barry pede que haja ainda um cuidado nessa frente, embora fique a curiosidade a respeito de como seria se tivéssemos sua identidade secreta revelada ao grande público – em uma história futura, quem sabe? É certo que ainda é cedo para isso, e os produtores souberam evitar este beco sem saída (que certamente envolveria novas viagens no tempo para resolver) de forma significativa aqui.

O julgamento transcorre de maneira interessante, ainda que não convença muito bem – trata-se do tipo de procedimento que veríamos em um desenho animado ou em uma história em quadrinhos antiga, mais do que em uma série de televisão contemporânea mais propensa ao realismo. Um dos baratos de The Flash é que a série frequentemente tenta ser a segunda coisa, mas acerta muito mais quando se mantém próxima da primeira! Tudo transcorre de forma extremamente acelerada, e a falta de determinação por parte de Barry e Cecile em tentarem reverter a situação chega a incomodar um pouco. O rapaz simplesmente se viu pego por DeVoe e foi efetivamente entregando os pontos. Pobre Cecile, que foi criada pra ser a defesa de um caso perdido como esse! Fica claro que a liberdade de Barry dependerá de expor a real natureza de DeVoe, e isso por sua vez requisitará que ele se associe aos feitos meta-humanos do maníaco professor. É uma premissa interessante de se acompanhar, e o espectador se encontra quase que torcendo para que Barry seja condenado apenas para não desperdiçar essa possibilidade da história, que seria inevitavelmente em favor de mais do mesmo. Como, por exemplo, quando é sugerido que analisem as gravações das falas desconexas de Barry em busca de pistas sobre acontecimentos futuros – pelo amor de Savitar, NÃO! A série já fez isso demais, e isso tende sempre a acabar em Heroes.

As investidas falhas do Team Flash em reverter a situação apresentam ao menos boas cenas para a dupla Joe (Jesse L. Martin) e Ralph (Hartley Sawyer), inclusive com um callback bacana de Dibny a respeito de seus erros e de como ele, embora não pareça, ainda se responsabiliza por eles. Tenho esperanças de crescimento para o Homem Elástico! A foto que mostra Marlize (Kim Engelbrecht) no flagra potencialmente incriminatório com seu amante é dispensada do julgamento de forma tão estranha quanto é repentinamente introduzida – a coisa toda tem um divertido ar um tanto amador, com o juiz  Hankerson (Ken Camroux-Taylor) garantindo que gosta mesmo é de ver o circo pegando fogo (“Essa corte é minha e eu faço o que eu quiser!”). A justificativa de Marlize apela para o constrangimento do júri para isentá-la de ser investigada nessa frente, mas imagino que seja compreensível dado o corpo de provas absurdo pesando contra Allen. Iris (Candice Patton) confronta Marlize mas perde a chance de gravar algum áudio comprometedor – embora a essas alturas provavelmente não adiantaria.

Por sua vez, a subtrama envolvendo o novo vilão Fissão se mostra como a parte mais fraca do episódio. A apresentação do pobre motorista de caminhão de despejo de lixo radioativo (!?) parece um roteiro saído da caneta de um Stan Lee de ressaca em uma segunda-feira particularmente desinspirada de 1962 – incluindo aí a forma um tanto boba como o episódio retrata os efeitos da radiação. Era uma vez o cara mais distraído do mundo, que ia fazendo a cidade inteira desmaiar enquanto passava, mas só percebeu isso depois de um bom tempo. Tarde demais, ele acabou transbordando em radiação, e teve que ser jogado pra explodir no deserto desolado da Terra-15. Fim. Um conto emocionante, pra entrar nos registros da galeria de vilões de The Flash… O que exatamente deveríamos tirar de proveito com essa história, ficar esperando e torcendo pra ele voltar, igual o pessoal que assiste Agents of S.H.I.E.L.D. faz com o Graviton?

Embora seja uma ameaça absolutamente descartável, o vilão ao menos serve como trampolim para termos um pouco do Team Flash em ação tentando resolver a crise sem seu membro principal, e para a cena em que Barry aniquila todo e qualquer vestígio de credibilidade que ainda poderia possuir tendo que, ironicamente, se ausentar de seu próprio julgamento para salvar Central City, enquanto seus insuspeitos cidadãos o condenam à prisão perpétua. E pensar que, alguns meses atrás, Central City tinha velocistas sobrando, com o Team Flash literalmente sem saber o que fazer com Jesse Quick e com o Kid Flash! Dando seguimento a este momento bem construído, temos a excelente cena final em que se intercalam os discursos do capitão Singh (Patrick Sabongui) e do juiz Hankerson – o primeiro condecorando o Flash pelo ato heróico em que arriscou, sem recompensa alguma, a própria vida para salvar Central City, enquanto que o segundo condena o mesmo homem à prisão perpétua, com menção ao fato de que este criminoso lhe surpreendeu como especialmente sem caráter e sem remorso.

Trata-se de uma sequência bastante interessante e bem realizada, abordando o tema do heroísmo de Barry de forma eficiente, fazendo lembrar o quanto o personagem funciona melhor quando é evocado como o herói e defensor de Central City, ao invés de um jovem choramingão envolvido com problemas egocêntricos (por exemplo, enfrentando seu futuro eu, que ficou mau – apenas um exemplo). Nesse sentido, o episódio prepara o terreno para desenvolvimentos interessantes para o restante da temporada. Temos um novo poder de Barry, desajeitadamente introduzido no tribunal, onde ele aparentemente consegue vibrar a si mesmo e a Iris de forma a se deslocarem do tempo, podendo conversar em uma fração de milésimo de segundo. Que outras habilidades e segredos ele terá trazido da Força de Aceleração? Fora isso, tivemos uma prévia neste episódio das dificuldades que o Team Flash terá em enfrentar vilões sem um velocista para correr bem rápido em torno deles (técnica infalível, desde os primórdios do personagem). É especialmente interessante o conceito de, com Nevasca (Danielle Panabaker) tornada heroína, Dibny se encaminhando para sair do estágio rumo à vaga titular e Cisco (Carlos Valdes) cada vez mais ativo na linha de frente, o Team Flash se tornar aos poucos uma espécie de mini-Liga da Justiça. Embora tenham agido por um tempo considerável com Barry ausente, agora que a variável do Pensador entrou em jogo a coisa muda de figura, e a capacidade deles em encararem a situação sem o velocista pode ser também a grande prova de fogo aos nossos heróis auxiliares.

Não deixando cair a bola levantada pelo episódio anterior, The Trial of The Flash continua a trabalhar o vilão Pensador como uma ameaça a ser levada a sério – e, mais do que isso, bastante diferente daquilo que já vimos anteriormente. A série também continua a crescer no que diz respeito ao enredo, desenvolvendo os personagens secundários para além dos dramas interpessoais excessivos que já marcaram outros de seus momentos. Por outro lado, o episódio erra a mão com um vilão da semana especialmente desinspirado, apontando para a necessidade da produção em construir uma galeria de vilões recorrentes tão consistente quanto o lado dos heróis, que parece ter encontrado um bom equilíbrio após a poda dos velocistas. Em termos de tonalidade, a produção acerta novamente ao investir em uma estrutura mais quadrinhesca, ainda que às custas da credibilidade de alguns dos movimentos do roteiro.

The Flash – 4X10: The Trial of The Flash — EUA, 16 de janeiro de 2018
Direção: 
Phil Chipera
Roteiro: Lauren Certo, Kristen Kim
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Danielle Nicolet, Hartley Sawyer, Patrick Sabongui, Kim Engelbrecht, Kendrick Sampson, Ryan Alexander McDonald, Mark Valley, Ken Camroux-Taylor
Duração: 43 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.