Crítica | The Flash – 4X12: Honey, I Shrunk Team Flash

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

O episódio desta semana de The Flash, explorando a temática já entregue pelo título, tem tudo para se encaixar na definição de episódio “filler“: excetuando-se as sequências iniciais e finais, que dão encaminhamento para as subtramas de alguns personagens, o restante do episódio consiste em uma digressão despreocupada cuja ligação com o enredo central da temporada é apenas indireta. No entanto – e não é a primeira vez que defendo essa opinião – acredito que a série se sai muito bem no formato episódico e constrói ótimos fillers, que por vezes inclusive são melhores do que os episódios principais.

Muito disso se deve ao fato de que a série apresenta seu maior charme quando aborda o universo do Flash de forma despreocupadamente campy, trazendo aventuras extravagantes com os metahumanos de Central City – desde que de uma forma minimamente inteligente, é claro. A temporada atual tem conseguido recuperar essas características com sucesso, e se Honey, I Shrunk Team Flash dificilmente pode ser chamado de algo mais do que “bom”, também é uma aventura divertida e despreocupada que usa bem de seu tempo e premissa para continuar a trabalhar com o Team (Sem-)Flash, dando um merecido destaque a dois personagens que não costumam receber muito: Harry Wells (Tom Cavanagh) e Cecile Horton (Danielle Nicolet).

A subtrama com a nova habilidade de Cecile de ler mentes é construída de forma simples, apresentada em uma ótima cena inicial com Joe (Jesse L. Martin) e possibilitando boas situações de comédia ao longo do episódio. Além disso, ela nos mostra um lado que até então não conhecíamos na personagem, menos sisuda e se inserindo mais nas doideiras da vida dos agregados do Team Flash. Assim, após sua recente atuação como advogada de nosso protagonista Barry Allen (Grant Gustin), Horton recebe mais um episódio interessante. É bem legal ver a produção conseguindo fazer dela mais do que simplesmente a “namorada do Joe”, o que nos deixa ainda mais perplexos pelo fato de que Iris (Candice Patton) continue a carecer de momentos que injetem mais personalidade em seu papel teoricamente central, que se mantém monotônico como sempre.

Mais do que simplesmente uma subtrama humorística, a impressão que temos é que a produção semeia algo aqui, muito provavelmente tendo ligação com a misteriosa moça, interpretada por Jessica Parker Kennedy, que pagou os cafés para Cisco (Carlos Valdes) e Ralph (Hartley Sawyer) no final do episódio anterior (tendo feito anteriormente um cameo no início de Crisis on Earth-X). Especulou-se que seria a filha futura de Barry e Iris, mas e se for na verdade a filha de Cecile, vinda do futuro? E que papel a telepatia de Cecile pode ter no enfrentamento do agora também telepata DeVoe?

Por falar no demônio, vale acentuar o quanto a temporada felizmente tem evitado a fórmula já batida da série em construir toda trama principal em torno de evitar um determinado acontecimento futuro. A ausência total de DeVoe nos últimos dois episódios tem deixado o arco tomar seu tempo e se desenvolver organicamente, além de ter como resultado um aumento na tangibilidade da ameaça que o supervilão representa. É interessante ver Harry e Iris se questionando a respeito das coincidências com que se vêem envolvidos (ainda que isso seja apenas uma forma de tentar se auto-eximir da culpa de um roteiro preguiçoso – mais sobre isso a seguir), a sensação de paranoia vendendo bem a imprevisibilidade dos planos intrínsecos de DeVoe, que subiu o jogo de forma radical com sua armação para Barry. Ao mesmo tempo, vemos a equipe tentando suprir a ausência do velocista escarlate nas ruas, fazendo tudo que está ao alcance para reagir às ameaças metahumanas que não param de pipocar.

A ameaça da vez é um misterioso crime que ocorre em Central City: um prédio de pesquisas de segurança máxima da Kord Industries foi alvo de um roubo. Leia-se: um cidadão levou o prédio inteiro embora. Essa é a trama de nosso vilão da semana, o glorioso Estrela-Anã (Derek Mears), vilão emprestado dos Jovens Titãs com o poder de encolher as coisas, o qual ele utiliza para praticar assaltos e também de maneira ofensiva. Dentre as coisas encolhidas pelo cara, temos a dupla não-tão-dinâmica Cisco e Ralph, que acabam de castigo em uma cidadezinha de LEGO… Junto a um LEGO Savitar®! Há coisas piores que a morte, e meus pobres heróis secundários não mereciam isso! A realização dos efeitos especiais para representar os poderes de encolhimento e crescimento é louvável, com sequências visualmente fantásticas que fazem lembrar Homem-Formigaguardadas as devidas proporções (hãn?? hãn??), com carros flamejantes e trabucos laser sendo sacados do bolso de nosso supervilão e utilizados para tocar o terror pra cima de Vibro e Homem-Elástico.

É interessante que The Flash parece sofrer algum tipo de maldição no que tange aos efeitos especiais, já que não é raro que se desperdicem suas melhores realizações visuais em histórias péssimas (como por exemplo é o caso de King Shark e Attack on Gorilla City). Por sorte temos aqui um aproveitamento decente desse potencial, em boas cenas de ação. As sequências com Cisco e Ralph na cidade de LEGO são também muito bem-feitas visualmente, misturando computação gráfica com efeitos práticos bem acertados. Também são ocasião para boas trocas comédicas (entre Cisco, Ralph e Harry temos um trio sólido de humor como em nenhum outro núcleo da série) e para um mini-arco de Harry, lidando com sua já conhecida severidade em relação a si mesmo, num resgate interessante para o personagem que até então tem sobrado pelos cantos do laboratório. A forma como ele acaba sendo chave na derrota de Estrela-Anã traz um fechamento bacana para sua subtrama, e fortalece os laços entre a dupla e o debutante Ralph, em mais um belo team-up.

Nosso herói encarcerado tem também um bom episódio, explorando de uma forma mais leve do que no episódio anterior o seu cotidiano em Iron Heights. Reencontramos o ex-prefeito Bellows (Vito D’Ambrosio), pagando pelos crimes cometidos em Elongated Journey Into the Night, e perdendo para um Barry que usa de seus poderes para fazer maço no truco (deixa a Força de Aceleração ficar sabendo disso!). Descobrimos mais sobre a misteriosa figura do Big Sir (Bill Goldberg), o presidiário que salvou Barry de alguns rolos na semana passada, revelando ter uma dívida com o falecido Henry Allen, que teria salvo sua pele na mesma prisão. A subtrama segue muito bem até o momento em que ela é forçosamente cruzada com a trama do Team Flash, o verdadeiro responsável pelo crime pelo qual Big Sir foi preso sendo, por infinita coincidência, ninguém menos que o próprio Estrela-Anã.

O fato de que a série tenta equilibrar isso com os membros do Team Flash dizendo em alto e bom som “Mas isso não é possível, é incrível, não existem coincidências assim! Deve ser um plano de DeVoe!” não alivia muito para o lado do roteiro preguiçoso. Claro que tudo se trata do plano do Pensador, que envolve esse tipo de rede causal aparentemente imprevisível, mas ainda assim a forma como o roteiro costura as duas tramas é bastante forçado e simplesmente não convence, subtraindo de uma subtrama até então bem interessante.

O golpe de misericórdia vem na sequência em que, após não conseguirem uma confissão da parte do Estrela, Barry acaba usando de seus poderes para, em uma fração de segundo, levar Big Sir de Iron Heights até a China. Pô, assim fica difícil! A cena é absolutamente hilária, e o espectador fica se perguntando se o grandalhão não se arrependeu de ter comentado com Barry que desejava ir para lá – o que ele vai fazer da vida sem passaporte, documento, sem falar chinês? Fora que a patetada custa ao Barry não apenas potencialmente ter entregado sua identidade ao cara, mas efetivamente revelá-la ao policial Wolfe (Richard Brooks), que por sua vez se revela um belo de um sacana, pretendendo vender Barry para a asquerosa Amunet (Katee Sackhoff). Qual o interesse de DeVoe nisso? Veremos!

No final das contas, Honey, I Shrunk Team Flash é sim um belo de um episódio filler, algo que é inevitável enquanto se insistir em se prolongar a temporada por mais de 20 episódios. Mesmo com um roteiro fraco, o episódio consegue tirar leite de pedra e divertir com uma comédia bem acertada (que tem surpreendido bastante nesta temporada), boas cenas de ação e um uso interessante dos ótimos personagens de que a série dispõe. Dosando bem um clima despreocupado e uma aventura um tanto estapafúrdia com desenvolvimentos discretos – e por isso mesmo instigantes – do arco de temporada, temos uma progressão sutil do plano-mestre de DeVoe que faz valer bem seu tempo de duração.

The Flash – 4X12: Honey, I Shrunk Team Flash — EUA, 30 de janeiro de 2018
Direção: 
Chris Peppe
Roteiro: Judalina Neira, Sam Chalsen
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Hartley Sawyer, Bill Goldberg, Richard Brooks, Derek Mears, Donna Pescow, Vito D’Ambrosio, Katee Sackhoff
Duração: 43 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.