Crítica | The Flash – 4X15: Enter Flashtime

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Após o belo escorregão (ou seria recaída?) da semana passada, The Flash traz de volta os dois sumidos velocistas Jay Garrick (John Wesley Shipp) e Jesse Quick (Violett Beane) em um episódio carregado de drama. A hesitação é inevitável. Será que a fórmula é capaz de funcionar aqui, ou caímos de volta na já tradicional subutilização dos heróis das terras paralelas e em mais dramalhão arrastado?

Com um histórico de mal aproveitamento de praticamente todos os seus personagens, inclusive e notavelmente a suposta co-estrela Iris West-Allen (Candice Patton), e dado o tratamento de escanteio que Garrick e Quick receberam anteriormente na produção, é compreensível que o espectador não se anime muito com tal proposta. Felizmente, o episódio consegue ser mais uma das gratas surpresas desta 4ª temporada, fazendo um relativo bom uso de suas participações especiais, construindo bons momentos de personagem e realizando um feito que infelizmente se tornou raro para a série: construindo tensão real para além da diversão despreocupada.

Não me entenda mal. Eu sou o primeiro a elogiar a série pela abordagem leve, quadrinhesca e por vezes até mesmo humorística de narrativa. Porém isso não significa limitar a produção a uma literal monotonia. Assim como nem só de drama pode viver um bom serial do Velocista Escarlate, também não é apenas recriando tramas ao estilo e tonalidade da Era de Prata que se poderá dizer que se tem uma tradução digna do personagem e de todo seu universo para a televisão. Isso porque seu conceito envolve – mesmo nos quadrinhos clássicos – mais do que apenas a aventura despreocupada.

Queremos ver aspectos sempre diversos da supervelocidade e toda exploração da ficção científica envolvida neles. Queremos ver nosso herói posto em posições de agir que só mesmo ele poderia estar. Queremos ver um uso interessante e sempre diferenciado dos superpoderes do elenco de apoio de meta-humanos. Bem, enquanto essa série ideal do Flash ainda não chega (a gente sonha), pelo menos desta vez conseguimos ter algumas dessas coisas aqui, na versão da CW mesmo!

Nossa trama simples – e muito bem explorada – envolve a detonação repentina de uma bomba nuclear pela eco-terrorista Veronica Dale (Bernadette Saquibal), em meio ao que até então parecia “apenas” um grande assalto à ARGUS. Dale é uma vilã obscura, porém ainda assim um tanto importante na cronologia da DC, não no campo dos velocistas, mas sim no do Arqueiro Verde. Trata-se da responsável pela morte de Oliver Queen, em meados dos anos 1990, em um ato não muito diferente do apresentado aqui, perpretado pela Eden Corps na fase de Chuck Dixon à frente do título.

Se saindo melhor do que a versão quadrinística de seu rival, o Flash (Grant Gustin) consegue se antecipar ao desastre e suspender a si mesmo no flashtime no momento em que a explosão se inicia – o que, no entanto, acaba o colocando em uma situação extremamente difícil. Por sorte, ele conta com a presença oportuna de Jesse para pensar numa rota de ação para lidar com a tragédia iminente. Rapidamente nos é explicado que, caso um velocista tente levar consigo o artefato, o próprio ato de carregá-lo em alta velocidade fará com que a detonação retome seu tempo normal antes mesmo que se saia da área urbana de Central City.

Com essa explicação bem convincente colocando possíveis sacrifícios forçados fora de jogo, a situação se torna muito mais interessante. É notável a forma como o episódio consegue construir gradativamente uma situação bastante concreta de tensão e perigo iminente. O assalto à ARGUS inicialmente não parece nada mais do que um caso rotineiro para o Team Flash (ainda que o tiroteio entre o grupo de terroristas e os policiais talvez tenha sido o maior tiroteio da história do arrowverse!), mas rapidamente toma um giro dramático onde tanto roteiro quanto direção conseguem vender bem a ideia de se estar trabalhando em uma contagem regressiva. Ironicamente, ao evitar os conhecidos caminhos da previsibilidade (em um universo que coleciona mortes de personagem mal trabalhadas), o espectador passa a temer pelo destino dos personagens, não mais com a distância e descrença de quem pensa “Pois bem, vamos ver o que esses caras vão aprontar desta vez!”, mas sim cativado pela trama, algo que infelizmente é um tanto difícil de acontecer por aqui.

Ajudam a completar o cenário o uso de detalhes como a forma como Barry, Jesse e um recém convocado Jay vão ficando visivelmente cada vez mais cansados ao longo do tempo, nos lembrando que, por mais fantástica que seja, sua capacidade de vibrar numa dilatação temporal é limitada. Ponto para Gustin, que consegue convencer bem ao mostrar a gradativa exaustão física e mental de Flash ao longo dessa crise impossível. No mesmo sentido, as interações momentâneas com Cisco (Carlos Valdes), Nevasca (Danielle Panabaker) e Harry (Tom Cavanagh) não só ajudam a construir a tensão e a dinâmica da contagem regressiva (bem explorada na forma como seus organismos rapidamente se esgotam e voltam a vibrar na frequência normal), mas também servem para nos apresentar a perspectiva de cada um mediante a crise, concedendo a todos bons momentos de caracterização e desenvolvimento de personagem.

Destes, é Harry que recebe o maior destaque, com o episódio encontrando tempo em meio ao apocalipse anunciado para nos mostrar um pouco mais de sua dinâmica familiar disfuncional bem como as raízes de seu modo de ser neurótico e agressivo – e o melhor de tudo é que funciona! Ficamos sabendo sobre o quanto a morte da mãe de Jesse acabou sendo o momento determinante para afastar pai e filha, e a exploração dramática aqui, ao invés de nos fazer rolar os olhos, consegue convencer de maneira geral e cativar com belos momentos entre os dois (a cena final, por desajeitada que seja, é ainda sim bem bonita), bem interpretados como sempre por Cavanagh, bem acompanhado de Beane, que consegue nos dar a impressão concreta de uma Jesse mais madura e centrada do que em suas últimas aparições. É realmente um acontecimento cósmico único que na mesma semana tenhamos tido as versões CW de Jesse Quick e Wally West protagonizando momentos memoráveis na tela, após tanto tempo relegados ao ostracismo!

O episódio consegue convencer muito bem com seu senso de urgência e o gradativo esgotamento de opções, algo que é bem explorado no jogo com o cold opening que nos mostra um Barry esgotado e prestes a se render indo se despedir de Iris. Até mesmo o fato um tanto forçoso de que a ideia de como resolver a situação parte dela (e não de Harry ou Cisco) acaba convencendo de maneira satisfatória. A pseudociência envolvida na reversão da explosão é o ponto mal esclarecido da trama (não sou nenhum especialista no assunto, mas lançar três relâmpagos contra uma bomba nuclear já em fissão não me parece uma ideia lá muito promissora), mas nada que chegue a roubar muito de seu momentum dramático. Neste quesito o episódio lembra bastante boas entradas da série como Flash Back e Out of Time, nos raros momentos em que temos o Velocista Escarlate totalmente contra a parede mesmo levando em conta toda a dimensão de seus poderes.

No geral a direção também é bastante competente, passando suficientemente bem a sensação de estranheza e do “sufoco a céu aberto” que caracteriza a situação de nossos heróis. Por outro lado, sinto que seria interessante alguma dica visual ou sonora para indicar o flashtime para além da paralisia de todos ao redor. Por mais simples que fosse, ajudaria a dar um melhor acabamento a determinadas cenas (como o próprio cold opening), que ficam estranhas com os atores simplesmente “brincando de estátua”. Prova disso é o bom uso dramático feito aqui do efeito dos relâmpagos para indicar a saída de uma pessoa da dilatação temporal.

Enter Flashtime traz uma aventura tensa e envolvente que prova que mesmo um conceito simples, quando bem executado, é capaz de render uma boa hora de televisão com nossos velocistas – inclusive com uma boa dose de choradeira, pra cumprir a cota obrigatória da emissora! Ajudando a tirar o gosto amargo deixado pelo péssimo episódio anterior, o final do capítulo nos prepara para desenvolvimentos interessantes do arco da temporada. Teria DeVoe manipulado toda essa situação visando destruir o disfarce que mantinha a Força de Aceleração satisfeita sem a presença de seu prisioneiro? Quem é a aprendiz do velho Jay Garrick? E qual é a da moça do café, afinal de contas? Cenas dos próximos capítulos – que, tomara, tomem este aqui como inspiração e modelo! É, a gente sonha…

The Flash – 4X15: Enter Flashtime — EUA, 6 de março de 2018
Direção: 
Gregory Smith
Roteiro: Todd Helbing, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Violett Beane, John Wesley Shipp, Jessica Parker Kennedy, Bernadette Saquibal

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.