Crítica | The Flash – 4X16: Run, Iris, Run

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Iris West-Allen. Para muitos espectadores de The Flash, a versão CW da personagem, interpretada por Candice Patton, não apenas se caracteriza como um belo nó cego dentre nosso elenco principal de personagens, mas de certa forma chega a condensar muito do que há de errado com a série. Tendência ao drama forçado, diálogos paupérrimos, caracterização inconsistente – todas essas coisas que praguejam a produção de maneira geral costumam se manifestar de forma especialmente inspirada na auto-proclamada segunda metade do coletivo heróico denominado Flash. Poderia um episódio que se valha da transferência da supervelocidade de Barry (Grant Gustin) para Iris, colocando-a efetivamente sob o manto do Flash, servir como forma de injetar interesse e ressalvar algo da personagem? Seria esse o início de algo interessante para a moça, para salvá-la de sua coadjuvância catatônica?

OK, você já viu a nota: não foi dessa vez. Tentemos entender o porque. É interessante que a subtrama de Iris adote contornos de meta-linguagem, com a personagem motivada sobretudo pelo desejo de provar seu valor e lugar como líder do Team Flash – mais para si mesma do que para o próprio restante da equipe, salvo talvez um apavorado Ralph Dibny (Hartley Sawyer) (que sim, agiu de forma bastante babaca com a moça aqui), que é quem contesta seu real comprometimento e sua moral em sentar na cadeira de comando. O fato é que isso reverbera um pouco da sensação que eu mesmo tive com relação ao novo status quo de Iris, e a opção aqui parece nos sugerir que não fui só eu a ver a coisa dessa forma.

O arco de Iris ao longo da 3ª temporada oscilou entre o dramalhão de reta final de novela mexicana (“E aí, caso ou não caso?”) e a dama em perigo (“Disseram que eu vou morrer, acho que só me resta ficar com cara de assustada o tempo todo então.”). A passagem para a 4ª temporada não ajudou em nada. O abandono de seu emprego em favor de sua posição na equipe não me pareceu nada orgânico, fator acentuado pela forma um tanto brusca com que foi mostrado. Sua posição de liderança acabou soando sempre como um roteirismo, como se sua posição fosse mais uma liderança “café-com-leite” ou um cargo de honra na equipe do que realmente a de alguém que se envolveria com as loucuras do Team Flash da maneira com que ela fez. Isso se deve ao menos em parte à atuação sempre apática de Patton, mas também é necessário reconhecer que o roteiro não lhe concedeu quaisquer favores no sentido de sustentar a situação de forma minimamente interessante.

Iris sonhava em ser uma grande jornalista, e se a vida de Barry como Flash e sua subsequente ausência por seis meses forçaram-na a deixar este sonho de lado, nem que temporariamente, era preciso que isso aparecesse em sua caracterização. Seria preciso que sua decisão em abraçar a vida como parte do Team Flash fosse uma mudança perceptível na personagem, mas nada disso sequer se esboçou em suas aparições seguintes. O empréstimo dos poderes de Barry não empolga nem convence por que tenta retomar os dilemas sobre uma escolha que nunca vimos a personagem fazer, e com isso a subtrama soa forçada desde o início.

Não existe sintonia nenhuma, nem no roteiro, nem na direção e muito menos na atuação, que nos aproxime da personagem de forma empática e nos faça ver as coisas de seu ponto de vista – e falo aqui já levando em conta os padrões da série para este tipo de coisa, que são bem pouco elevados. Exemplo disso é que o arco de Caitlin (Danielle Panabaker), com muito menos tempo de tela e tratado tradicionalmente na base dos acenos de mão dos roteiristas, consegue ser mais consistente e interessante do que o da suposta co-protagonista da série.

Assim, o que Run, Iris, Run consegue fazer pela personagem não fica muito longe do simples trabalhar sua relação pessoal com Dibny. A ausência total de química com Barry, ou de uma cena sequer minimamente impactante entre os dois apenas deixa mais evidente a falta de rumo da personagem e a má caracterização do casal, que frequentemente se vê simplesmente ali, na tela, sem nada para oferecer. Barry se relaciona com a situação toda com um notável distanciamento, e sua preocupação com Iris em nenhum momento passa qualquer sinal de paixão.

Para além das relações interpessoais (enfoque ao qual, erradamente, a produção teima em recorrer, mesmo sem condições de realizar de forma interessante), a exploração do ganho dos poderes pela personagem também não empolga em nenhum nível. Em termos de roteiro, parece até que estamos lendo uma fanfic sobre Iris ganhando os poderes do Flash. Se lembrarmos como foi o processo para Barry se acostumar com sua supervelocidade, vemos que Iris queima várias etapas e sai correndo e fazendo façanhas como se já tivesse nascido com essas habilidades. Claro que não é a primeira vez que algo do tipo acontece na série, mas parece uma oportunidade perdida de explorar a personagem por qualquer ângulo que não seja “a namorada do Flash com a qual não sabemos o que fazer então faz ela se emocionar com algo ali vai”.

A breve sequência em que acompanhamos, na perspectiva de primeira pessoa, a escalada do prédio em chamas nos dá uma pista do que poderia ser uma exploração interessante de Iris no papel do Flash, em uma situação de perigo sem o controle de seus poderes. Poderíamos ter tido ela queimando suas roupas, quebrando tudo por onde passava, morrendo de fome e exaustão após utilizar seus poderes. Seria inclusive uma oportunidade para aproveitar-se do setting para explorar uma dinâmica diferente do casal, com Barry “dando aulas” para Iris de como utilizar-se de seus poderes. A rota que o roteiro escolhe é a menos interessante possível: ao mesmo tempo em que ela se utiliza intuitivamente dos poderes de forma forçadamente hábil, ela acaba tendo que ser resgatada por Cisco (Carlos Valdes). Ou seja, desagrada tanto quem preferiria maior “realismo” no uso de seus poderes, quanto quem não se importaria em sacrificar essa consistência interna em favor de um protagonismo empolgante da personagem.

O mesmo podemos dizer da opção em amarrar a resolução final ao insight de um Harry Wells (Tom Cavanagh) fortalecido por seu novo capacete pensante. Embora a subtrama de Harry seja interessante (um combate de intelectos entre ele e DeVoe? Sim, por favor!), ela acaba sendo um belo deus ex machina que não apenas não convence como uma ideia tão genial assim (“Furacão de fogo? Calculo uma probabilidade de 1 em 34091874 que jogar uma tonelada de água em cima resolve!”) como acaba por roubar a cena de Iris. Claro que a série sempre enfatiza o trabalho em equipe – mas não seria legal se ela tivesse inventado por si mesma uma forma de usar os poderes que nem Barry nem qualquer outro velocista tivesse pensado até então? E depois, quem sabe, tentar ensinar a técnica para Barry? Se a ideia era ela provar o seu valor individual, fazer com que ela o faça realizando uma manobra abstratamente complicada inventada por outra pessoa não parece ser a saída mais empolgante!

Run, Iris, Run toma uma premissa que, ainda que arriscada, poderia ser divertida, e a executa com o mínimo de inspiração e inventividade possível. Oferecer um raro episódio de destaque a uma personagem tão mal escrita quanto Iris seria uma ideia interessante, caso houvesse algum plano para o futuro da mesma. Ao que tudo indica, não há – o episódio se encerra com ela decidindo que sua melhor contribuição para salvar o mundo é escrever um necropost em seu blog, falecido há 3 anos, falando sobre sua própria atividade heróica. Pô, isso é triste demais… Se isso sinaliza que ela voltará a perseguir sua carreira jornalística ou não, é praticamente indiferente. A produção continua sem encontrar a voz da personagem, e essa entrada contribuiu muito pouco nesse sentido. Enquanto isso, o arco de DeVoe continua a devoluir numa ciranda de corpos e poderes entre os meta-humanos do ônibus – fica a esperança para que ainda haja algo mais empolgante na reta final da temporada (não fosse a moça misteriosa do futuro, eu já estaria 100% desacreditado). Assim, entramos no hiato consideravelmente menos empolgados do que estaríamos se ele acontecesse após o ótimo episódio anterior… É, The Flash não é para amadores!

The Flash – 4X16: Run, Iris, Run — EUA, 13 de março de 2018
Direção: 
Harry Jierjian
Roteiro: Eric Wallace
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Hartley Sawyer, Leonardo Nam, Max Adler
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.