Crítica | The Flash – 4X17: Null and Annoyed

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Depois de nos fazer ir do céu ao inferno em uma velocidade invejável até mesmo pelo velocista escarlate, do excelente Enter Flashtime à mediocridade completa de Run, Iris, Run, The Flash entrou em um hiato um tanto extenso. Há rumores circulando entre os espectadores de que se tratou de uma recomendação da OMS, preocupada com os efeitos nefastos que exibições como a da última aventura da Sra. West-Allen, combinada com o que o episódio seguinte da produção nos reservava, poderiam causar aos espectadores em casos de exposição prolongada. Pelo que vimos nesta semana, talvez os rumores sejam, afinal de contas, verdadeiros.

Brinco aqui com o exagero, já que no meu ponto de vista a entrada anterior foi menos uma completa e total desgraça do que uma overdose de mediocridade, justamente aquela na qual a série continua a recair tão frequentemente. Nesta semana, após a pausa, voltamos a visitar o mesmo mundo e constatamos que, infelizmente, escorregamos o fino limite do medíocre para o puro e simples ruim.

Já estamos longe da aventura divertida e energética de The Flash Reborn ou mesmo do humor descontraído e genuíno de Honey, I Shrunk Team Flash. Os produtores desceram a mão no botãozão do piloto automático, e a série parece ter entrado no modo “vamos enrolando e costurando mais algumas coisinhas pra manter o povo interessado – quantos episódios ainda temos que inventar antes de encerrar essa bagaça, mesmo?”, velho conhecido já das retas finais da e temporadas.

Eu sou um grande defensor do “vilão da semana” como proposta viável para uma série televisiva de super-heróis. Esse episódio é do tipo que me faz questionar esse posicionamento. A proposta aqui é tão uniformemente na média que a média acaba parecendo cair pra baixo – é o tipo de construção que fez com que a palavra “medíocre” se tornasse um pejorativo. Executando mal uma propostas dessas, o resultado é um dos episódios mais apáticos e descartáveis da série, que chega a parecer uma colagem de trechos não relacionados de capítulos anteriores. A vilã da semana, Null (Bethany Brown), é a adaptação de um vilão da obscura Hawkworld, mensal bastante decente do início dos anos 1990 que apresentava o novo Gavião Negro pós-crise, publicada de forma incompleta no Brasil nas revistas Gavião Negro e DC 2000, da Editora Abril.

Infelizmente, como é de praxe, trata-se de pescar um personagem obscuro, pensar em um visual mais-ou-menos que orne com o mundo da série e dai pra frente ligar o aleatorizador de cenas de luta, explicando a improvável impossibilidade do Flash poder lidar com as descargas anti-gravitacionais da vilã na forma de roteirismos preguiçosos. A bola da vez é que “Barry não confia na capacidade de Ralph improvisar”. OK, e isso lá impede ele de, em uma fração de segundo, imobilizar e capturar a vilã antes que ela possa sequer vê-lo – que dirá usar seu poder contra ele? E o que raios foi o plano de Barry “vibrar para ficar invisível” para pegá-la desprevinida? Caro Barry, quando você chega correndo a nove bilhões de caralhadas por segundo, como foi seu caso, tanto faz você vibrar pra ficar invisível ou não, já que a moça só foi te ver quando estava com as algemas já colocadas. Ou eu tô maluco?? O próprio desenrolar do encontro mostra o quão sem sentido foi esse planejamento!

A caracterização de nosso protagonista também não empolga. Falta qualquer nuançamento no personagem, que volta a bater na já surrada tecla do beicinho. Ao longo de todo episódio, o mesmo tom de voz levemente inconformado, a mesma cara de choro – tem horas que parece que o Grant Gustin está querendo mandar uma mensagem, um pedido de socorro à audiência. Não há paixão ou determinação nenhuma, e a narrativa não cria nenhum conflito entre Barry e Ralph: o conflito já está lá, desde a primeira cena. Fosse o caso de Barry se irritar após o fracasso em capturar Null no escritório de Earl (Paul McGillion), vá lá. Mas vemos que ele já está insatisfeito desde os literais primeiros segundos do episódio, entregando já ali os encaminhamentos do episódio para quem já se acostumou com essa abordagem dos produtores.

Aliás, a cena de confrontação com Earl é a única interessante envolvendo Barry e Ralph, com Jesse L. Martin se divertindo ao encarnar a interpretação que Dibny faz de seu personagem. Falando no Homem Elástico, ainda que Hartley Sawyer continue a entregar uma boa performance, a parceria com o nosso protagonista acaba puxando-o para baixo, o que é um péssimo sinal. Não que o resto da temporada necessariamente tenha retratado Barry Allen da forma que o personagem merecia, mas chama a atenção o quanto a série por vezes recai nesse piloto automático e o personagem perde qualquer resquício de nuance ou mesmo personalidade gostável. Tanto o time de roteiristas quanto Gustin já provaram serem capazes de fazer melhor do que isso – a questão é: por que é tão comum que não façam? Enquanto isso, Ralph, que é um personagem que cresceu ao longo da temporada, acaba totalmente mal servido pela subtrama que joga todo seu bom desenvolvimento conquistado a duras penas em The Elongated Knight Rises pelo ralo, resetando-o à estaca zero do “não consigo ser heroico se isso significa me colocar em risco”.

A outra subtrama do Team Flash envolve Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker) tentando ajudar o pai da Cigana, Danny Trejo (Danny Trejo), que enfrenta problemas de performance por conta da idade. Pois é, vocês trazem o cara novamente para a série, e é pra isso? Muito mais me interessaria vê-lo lutando contra o vampiro que atende pela gloriosa alcunha de Crucifer, do que a arrastação que foi a subtrama com Vibro, ainda que ao final tenha trazido uma prospectiva interessante para o personagem (leia-se: qualquer coisa para ele fazer que não seja o que ele tem feito pelos últimos 50 episódios).

Já no núcleo vilanesco temos uma boa exploração da subtrama do abuso que Marlize (Kim Engelbrecht) tem sofrido nas mãos de seu marido DeVoe (Miranda MacDougall). O jogo com a ciclicidade da tomada de consciência é surpreendentemente bem escrito, mas a direção e atuação traem um pouco o bom roteiro. O ambiente genércio, artificial e excessivamente brilhante do esconderijo de DeVoe não emprestam muito clima para as descobertas que acompanhamos sob a perspectiva de Marlize, e esta versão do Pensador carece de qualquer gravitas que o seja para vender bem a tensão exigida pelas cenas. Até mesmo a imitação estranha de Sugar Lyn Beard causava alguma impressão, nem que fosse o desconforto pelo seu porte um tanto desalinhado. O tempo desse episódio seria muito melhor investido em um estudo de personagem de Marlize, com um flashback de sua história que o fosse, e embalado pela gradativa descoberta a respeito de sua atual condição, de preferência bem dirigida e com Neil Sandilands no papel de DeVoe. Ou então 43 minutos de Danny Trejo versus CRUCIFER, eu também assistiria de bom grado.

Kevin Smith retorna para dirigir mais um episódio na série, e novamente deixa de impressionar. Depois do show de baboseira de The Runaway Dinosaur e da mediocridade de Killer Frost, o diretor volta em um episódio que, seguindo a tendência da temporada, procura explorar um humor do tipo “falso improviso” dos personagens, algo que teoricamente seria um forte do eterno diretor de O Balconista. Porém o resultado não é bom, e a maioria das piadas acaba não aterrissando bem, com insistência em “referências” que são menos inspiradas do que o normal. A montagem da ação segue os momentos menos inspirados da série, e chama a atenção o fato de que o diretor convidado, que nunca afinou-se em The Flash como em suas boas contribuições para Supergirl, ter recebido um episódio filler ao invés de algo mais substancial como fora o caso anteriormente. Quero dizer, isso foi um filler, certo? Certo…?

Null and Annoyed traz no título as pistas de como o espectador se sentirá com o episódio. O show de mediocridade se torna ainda mais claro no contraste com a cena final, onde Harry (Tom Cavanagh) visita Gideon, após tanto tempo, nos fazendo lembrar da tão saudosa primeira temporada, onde por entre todas as imperfeições da série existia, ao menos, uma coisa que tem faltado: inspiração. Vocês queriam me deixar hypado para o próximo episódio, mas eu fiquei foi triste de me lembrar do quanto a série já foi boa… Que saudades de Thawne-Wells, e de um protagonista gostável!

The Flash – 4X17: Null and Annoyed — EUA, 10 de abril de 2018
Direção: 
Kevin Smith
Roteiro: Lauren Certo, Kristen Kim
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Hartley Sawyer, Kim Engelbrecht, Miranda MacDougall, Paul McGillion, Danny Trejo, Bethany Brown, Kevin Smith, Jason Mewes
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.