Crítica | The Flash – 4X18: Lose Yourself

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Após dois capítulos medonhos, a 4ª temporada de The Flash volta um pouco aos eixos que trilhava anteriormente e entrega um bom episódio. Dizer que Lose Yourself é uma melhora em relação ao episódio precedente pode não querer dizer muita coisa, já que a mera existência de um roteiro com ideias inéditas já coloca o episódio em vantagem em relação ao antecessor. Estranhamente, no entanto, dando sequência a um episódio totalmente sem inspiração e sem substância alguma, repentinamente a série se vê ocupada com coisas demais ao mesmo tempo, o que atrapalha o resultado final do episódio e, novamente, depõe contra uma temporada marcada pela inconstância e aparente falta de planejamento.

É notável esse salto repentino, do “sem assunto” para “assuntos demais para se resolver de forma satisfatória”, e a forma pouco orgânica como as novas subtramas se inserem na narrativa denuncia não ser exatamente um problema de dividir bem os acontecimentos de forma seriada. Assim como critiquei o repentino desentendimento entre Barry (Grant Gustin) e Ralph (Hartley Sawyer) na semana passada, que surgiu de maneira forçada logo na primeira linha de diálogo do episódio, aqui temos um show de novidades repentinas que até conseguem cativar o nosso interesse, mas sem deixar de dar aquela impressão de “OK, mas de onde veio isso mesmo?”.

Os exemplos aqui são vários. O conflito entre Barry e Ralph acerca da moralidade de uma investida letal contra o Pensador surge em meio aos diálogos entre os dois, sem necessariamente enganchar em algum acontecimento da história. De repente eles estão lá, discutindo se é certo ou não matar o supervilão. Claro que eu entendo as motivações pessoais para que Ralph se sinta assim – ele é, afinal de contas, um dos personagens com mais consistência na escrita ultimamente. Porém em termos dramáticos é estranho a inserção se dar antes do surgimento da possibilidade de uma invasão ao lar de DeVoe. Ainda mais porque essa mesma discussão surge três vezes, em três cenas diferentes apenas no primeiro terço do episódio, repetição exagerada que ajuda a dar a impressão de um storytelling de mão pesada.

Caso o dilema surgisse só após essa possibilidade de ataque aparecer, mediante a investigação a respeito dos poderes de Edwin Gauss (Arturo del Puerto), a coisa soaria muito mais crível, e o que se estaria dispensando era apenas a repetição de um mesmo diálogo. Inclusive teríamos aí uma justificativa do porque, afinal de contas, a discussão acabaria restrita apenas na questão moral do “super-heroi não mata”, sem levar em conta o óbvio de que Ralph, um meta-humano do ônibus, ir ao encontro de DeVoe é uma das coisas mais burras que poderiam fazer, já que é isso o que o vilão teoricamente deseja. Agindo no impulso da possibilidade repentina de vingança e de resolução definitiva do conflito, o desejo de Ralph seria mais crível e surgiria de forma mais orgânica, assim como o sucesso da armadilha para cima do Team Flash. Ao arrastar e sinalizar desde o início os rumos do episódio, a direção acaba pintando nossos heróis como mais ineficientes e sabotando assim a própria genialidade da arapuca de DeVoe. Óbvio que a intenção era preparar o conflito de forma sutil, só que não há sutileza a ser obtida quando se repete o mesmo assunto do nada e de forma tão escrachada.

A outra subtrama que, apesar de vir de uma ideia inspirada em levar a frente o personagem e contribuir para o arco atual da série, acaba tendo esse efeito de “mão pesada” é a de Harry Wells (Tom Cavanagh) e seu caso de amor com o seu chapéu pensador. Espectadores de Arrow devem estar familiarizados com a forma como a CW gosta de pesar a mão e abusar de subtramas sobre vício em drogas como forma de fomentar seus tão queridos dramas “Plunct Plact Zum“. É a serviço disso que o episódio traz a subtrama, que resgata a cena final do episódio anterior e que consegue ainda assim a manter Harry como um dos personagens mais interessantes do Team Flash, uma vez que não temos praticamente nenhuma indicação a respeito dos encaminhamentos de seu arco pessoal (e, convenhamos, o histórico do Tom Cavanagh não depõe muito a favor da longevidade e felicidade do cara).

A cena em que ele criminalmente destrói o modelo da Enterprise do Cisco (Carlos Valdes) começa muito bem e é para mim o exemplo de como eles deveriam lidar com essas temas. A atmosfera é dramática e, fosse esse o único momento em que víssemos o quanto Harry está fora de si (intercalando com demonstrações do repentino boost de seu gênio produtivo), a mensagem estaria mais do que bem dada. Pena que a própria cena é um tanto sabotada ao se alongar com a chegada de Joe (Jesse L. Martin), que dá uma bronca em Harry e mostra que ele chateou o pobrezinho do Cisco, que sai fazendo bico de choro encerrando a coisa toda de forma involuntariamente cômica.

Reconhecidas essas limitações, é preciso dizer que a subtrama central do episódio funciona bem e não deixa de empolgar. Acredito que as duas formas mais fáceis de se criar uma conexão com a audiência, mesmo a despeito da qualidade da narrativa, sejam em primeiro lugar o humor e em segundo a ação compassada em torno de momentos badass. Não é por menos que os filmes do Universo Cinematográfico Marvel usem e abusem da combinação dos dois, com resultados normalmente bastante positivos. Essa é a formula que o episódio adota em sua segunda metade, de forma um tanto inesperada, e é uma grata quebra de ritmo em relação ao que parecia se encaminhar para mais um episódio em que “Ralph aprende mais uma lição sobre ser um herói” (e nem vamos falar muito do hiper-diapasão – é uma benção que não tenhamos tido um episódio inteiro em torno do artefato!). Infelizmente isso vem às custas de que a lição aprendida aqui pode ter sido a última de nosso querido Homem-Elástico. Bom, não se pode ganhar todas!

Depois da boa sequência de busca pelo Homem Dobrável na floresta e do prelúdio que foi o rápido combate do Flash contra o Homem-Elástico, a invasão do S.T.A.R. Labs entrega uma empolgação que tem sido rara de se ver na série, com Joe lutando contra um Samuróide, Marlize (Kim Engelbrecht) contra Iris (Candice Patton), um esqueleto de tiranossauro (!?) contra o Homem Elástico e o derradeiro Flash, Vibro e Nevasca (Danielle Panabaker) contra o Pensador. Infelizmente, a produção nos privou de ver Joe lutando com katana e pistola contra um robô, um crime imperdoável a mais para a lista (daria cinco estrelas para esse episódio, tivesse sido o caso). Demonstrando insuspeitas habilidades com uma katana energizada, Marlize parte para cima de Iris em uma cena onde ambas ganham seus devidos momentos de badassery. A perseguição do Homem-Elástico sofre com efeitos especiais um tantinho esquisitos, mas mais do que aceitáveis para os padrões da série, e é visualmente empolgante também. O rápido combate contra a encarnação final do Pensador é dramático, e a cena em que ele toma conta do corpo de Dibny é muito bem realizada, fechando muito bem essa ótima sequência da invasão.

É engraçado que Iris tenha aqui um momento mais marcante do que no próprio episódio onde fora estrela, no qual sua atuação na história se resumiu a uma resolução um tanto forçada e desinspirada, embalada por falas prontas. Após nos fazer sofrer, durante horas de nossas vidas que não voltam mais, para acompanhar os esforços para impedir que fosse empalada no peito por um vilão, eis que Iris é… empalada no peito por um vilão! Na verdade ela se usa do clichê do auto empalamento, que continua tão funcional quanto nunca, e empolga na cena de ação, embora não case muito com a personagem e acabe não tendo consequências posteriores. Aliás é curioso que tanto Caitlin quanto Iris acabem recebendo o golpe letal ao longo do mesmo episódio, apenas para se revelarem plenamente recuperadas na cena seguinte. Embora com Caitlin haja uma justificativa, com Iris a coisa já causa um levantar de sobrancelhas.

Se não é para ter muita consistência ou refinamento nas ideias de sci-fi, pelo menos esse tipo de ação quadrinhesca empolgada é uma excelente pedida para elevar os ânimos por toda a extensão da esticada temporada. No geral, embora DeVoe esteja se estabelecendo como provavelmente o melhor vilão da série desde Thawne-Wells, a construção de seu arco tem pecado pela inconsistência, que dá as caras na diferença de qualidade dos episódios e até mesmo dentro de um só episódio, como é o caso deste. Depois de muita prolixidade, temos um episódio que avança bruscamente a história principal ao mesmo tempo em que tenta já introduzir novos arcos para Harry e Caitlin, e onde a própria perda de Dibny acaba um tanto obscurecida pela insistência da produção em introduzir um último conflito contra Barry, que faz sentido em termos de roteiro mas o qual acaba soando redundante da forma como foi apresentado. Em todo caso, temos coisas acontecendo, o que é definitivamente algo para se comemorar tendo em vista os dois episódios anteriores. Para onde levará a dependência de Harry Wells em seu chapéu pensador? Teremos perdido Dibny para sempre? Qual é o futuro de Caitlin? Será que teremos Marlize como a nova Nevasca?

Indo da falta de assunto para assunto demais, Lose Yourself é uma bagunça charmosa e capaz de entreter, mesmo por entre falhas escrachadas na construção da narrativa. Se a diferença entre episódios importantes e episódios filler sempre foi bastante marcada na série, ela parece ter ficado ainda mais pronunciada nesta quarta temporada que estranhamente divide mal o enorme tempo disponível, insistindo em dramas e conflitos redundantes ao mesmo tempo em que passa correndo por ideias promissoras e interessantes. O resultado é essa montanha-russa de inconsistência, que no mínimo do mínimo nos mantém entretidos pela total imprevisibilidade da coisa!

The Flash – 4X18: Lose Yourself — EUA, 17 de abril de 2018
Direção: 
Hanelle M. Culpepper
Roteiro: Jonathan Butler, Gabriel Garza
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Neil Sandilands, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Hartley Sawyer, Kim Engelbrecht, Miranda MacDougall, Arturo del Puerto
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.