Crítica | The Flash – 4X19: Fury Rogue

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Com Fury Rogue, a 4ª temporada de The Flash vai se encaminhando para sua reta final, com mais cinco episódios para percorrer até a aguardada conclusão do arco do Pensador. Desenvolvida entre altos e baixos, a trama no momento se aproxima de um misto de boas ideias e execução desinspirada, com o tempo de tela restante para sua resolução parecendo-nos especialmente alongado após o capítulo anterior, que trouxe ares de desfecho. Como é que a produção vai ocupar esse tempo em excesso?

Bem, nesta semana a escolha da vez foi a combinação: participações especiais de antigas faces conhecidas + um roteiro meia-boca e totalmente sem sutileza sobre luto. De um lado, temos Leo Snart (Wentworth Miller) em sua encarnação de Cidadão Frio da Terra-X, acompanhado de mais uma versão do patrimônio tombado do Arrowverse, Laurel Lance (Katie Cassidy) em sua encarnação nazista Siren-X. Do outro, temos Barry (Grant Gustin) chorando a perda de Dibny com seu jeitão chato de sempre, enquanto que Caitlin (Danielle Panabaker) lida com o sumiço de seu aspecto Nevasca e Harry (Tom Cavanagh) com o luto pelo seu cérebro, que está se degenerando pela sobrecarga de matéria negra de seu chapéu pensador (esperto foi o Professor Pardal que usava uns passarinhos, muito menos danosos no longo prazo).

“E onde é que essas duas propostas se encontram?”, perguntaria o espectador. A resposta é: em bem menos pontos do que seria desejável. A trama central envolve uma missão de extração do metahumano do ônibus Fissão (Ryan Alexander McDonald), visto pela última vez em The Trial of The Flash. Citado como estando sob os cuidados de uma desaparecida Tracy Brand, a equipe lembra-se repentinamente do cara e decide enviá-lo para o laboratório da A.R.G.U.S., uma vez que, como sabemos, trata-se de um local que nunca foi invadido antes.

O planejamento em torno da missão é fraco e não empolga muito, mesmo descontando o fato de que o transporte via estrada simplesmente não faz sentido (por que o Cisco não vibrou o cara direto pra pertinho do laboratório de uma vez?). O Team Flash opera aqui meio que no piloto automático, sendo que nem mesmo a presença energética de Snart consegue nos salvar da atmosfera de marasmo de um roteiro desinspirado. Prova disso é que a usualmente inventiva direção de Rachel Talalay mal consegue dar as caras ao longo de todo o episódio, que se restringe em grande parte às já batidas cenas de diálogo pelos corredores do S.T.A.R. Labs.

A cena da estrada é um dos únicos momentos em que se esboça algo de interessante, apenas para ser tragada pela trama sem pé nem cabeça da vilã Siren-X. No geral, nada que justifique o trocadilho do título, que parece querer aludir a alguma ação nas estradas realmente empolgante. O desfecho, contando com um absurdo ataque da vilã aleaória à delegacia do CCPD (acho que eles perceberam que precisam usar esse cenário pra alguma coisa), não traz absolutamente nada de empolgante ou memorável, ficando muito abaixo daquilo que a série apresentou no início da temporada, quando explorou minimamente os poderes dos inimigos da semana de forma criativa. A única emoção que a coisa toda faz sentir é uma leve irritação com os berros supersônicos de Laurel…

Se na frente super-heroica a coisa não engrena muito, em termos de desenvolvimento de personagem também ficamos aguardando aquele momento bacana que não chega nunca. A presença de Snart parece cumprir aqui mais o papel de ser a (centésima) despedida de nosso querido mastigador de cenário Wentworth Miller do Arrowverse, tendo como efeito secundário aquele fanservice básico para ajudar a passar o tempo – fator dobrado aqui pela presença igualmente desmotivada de Siren. Sério, o que é que a Laurel está fazendo aí?

Repetindo um pouco do que já vimos na temporada passada em Infantino Street, porém de forma bem menos inspirada, temos Snart sendo utilizado ao mesmo tempo como paralelo de Barry e como uma figura que se aproxima de um inusitado mentor, como que se aproveitando das diferenças entre as personalidades de ambos para trazer algum desenvolvimento para nosso herói. Por falar em repetição, no entanto, o fato é que a forma como a narrativa soletra em alto e bom som e por repetidas vezes que a grande chave do episódio é que Barry está em negação em relação à perda de Dibny rouba um pouco da carga dramática do confronto com DeVoe, sem oferecer nada em troca.

Por exemplo: qual a função das cenas de Barry e Iris (Candice Patton) na terapia de casal nesse episódio? É absurdamente redundante se utilizar desse recurso narrativo sobreposto com repetidas conversas entre Barry e Snart sobre o mesmo assunto bendito da negação em relação a Dibny. É como se os produtores estivessem tão orgulhosos de ter conseguido bolar um núcleo temático para o capítulo que eles querem garantir que você saiba muito bem o que está se passando. Já ficou bem claro nas três primeiras vezes, meus caros! Isso sem contar o agravante de que, caso Barry fosse um herói com atitude positiva, boa liderança e presença inspiradora na maior parte do tempo, vê-lo em cacos por conta de mais uma grande perda surtiria muito mais efeito. Como aqui o luto é apenas o “dramalhão de Barry nº 19”, seu potencial dramático acaba um tanto minado. Ao invés disso, gasta-se o potencial dramático com picuinhas menores a um ponto em que numa perda importante (ainda que muito provavelmente reversível – I want to believe!) o peso dramático já não se faz mais presente.

As subtramas de Harry e Caitlin são interessantes, mas carecem de uma entrega mais emocionante, com cenas para além de “uma pessoa olha para uma tela cheia de dados/lousa e dispara um monte de diálogo expositivo”. A abordagem dos personagens acaba sendo explicitamente a de reduzi-los à coadjuvância, o que é uma pena, já que havia tempo o suficiente sendo gasto com repetições para explorá-los de forma mais eficiente.

Com relação à redundância, algo semelhante se aplica ao ainda interessante núcleo vilanesco. Neil Sandilands e Kim Engelbrecht novamente entregam uma boa performance como o casal DeVoe, que retomou fôlego com o retorno da forma original do vilão, após os tiros pela culatra que foram algumas das trocas de corpos. Porém, mais uma vez, a mão pesada ameaça o que poderia ser uma boa situação dramática. A boa linha de diálogo de DeVoe diminuindo Marlize, dizendo para que ela não perca seu tempo tentando pensar, acaba perdendo um pouco do peso justamente por ser repetida duas vezes e em situações muito parecidas. É um daqueles casos em que provavelmente menos seria mais. A sequência final tem uma montagem muito boa, e nos deixa empolgado a respeito dos próximos movimentos de Marlize, uma das personagens mais interessantes da trama neste ponto atual.

Por outro lado, a ideia de que o ponto cego de DeVoe sejam as emoções não convence muito. Suas previsões até agora levaram em conta fatores humanos essencialmente ligados às emoções, motivações individuais cuja probabilidade dependeria de um entendimento mínimo deste fator humano. Revertê-lo no clichê “SOU UM ROBÔ, EMOÇÕES NÃO COMPUTAM BLIP BLOP”, a essa altura do campeonato, seria um grande desserviço ao personagem, que foi apresentado de uma forma mais bem nuançada do que isso. Mas veremos. Caso seja o caso de que ele esteja progressivamente perdendo a capacidade de prever este lado mais humano da coisa, devido a sua natureza cada vez mais distante disso, acredito que possa ser interessante…

Mas é sério, o que raios a Laurel está fazendo nesse episódio??

Fury Rogue traz caras conhecidas do Arrowverse para temperar com um pouco de fanservice uma exploração desinspirada do tema do luto. As sequências decentes de ação e as subtramas dos coadjuvantes são o que se salvam do conjunto, que não consegue se animar nem com a canastrice caricata de Wentworth Miller a seu serviço. Prova de que boa direção e fanservice decente não são o suficiente para salvaguardar um roteiro fraco.

The Flash – 4X19: Fury Rogue — EUA, 24 de abril de 2018
Direção: 
Rachel Talalay
Roteiro: Jeff Hersh, Josh Gilbert
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Neil Sandilands, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Wentworth Miller, Katie Cassidy, Kim Engelbrecht, Ryan Alexander McDonald, Donna Pescow
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.