Crítica | The Flash – 4X22: Think Fast

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

A um passo do season finale, a 4ª temporada de The Flash chega ao penúltimo episódio trazendo os últimos desenvolvimentos de um arco a essas alturas já bastante arrastado. Ao contrário do que a cena de ação inspirada que abre o episódio pode sugerir a um espectador desinformado, a narrativa que começou lá no divertido e energético The Flash Reborn chega aqui apenas com os resquícios da inspiração do recomeço promissor, e com apenas uma fraçãozinha do momentum conquistado ao longo dos bons episódios da temporada.

Impossível não começar falando da cena de abertura, com o ataque de DeVoe (Neil Sandilands) à base da A.R.G.U.S., colocando em uso todos os seus múltiplos poderes em uma sequência bastante inspirada (ainda mais levando-se em conta os padrões da série). A cena chega a lembrar um pouco grandes momentos televisivos como o roubo das joias da coroa por Moriarty no episódio The Reichenbach Falls de Sherlock e a famosa “cena do corredor” do episódio Cut Man de Demolidor – porém com o resultado final carregado do jeitão desajeitado que se pode esperar de uma versão da CW dessas ideias. Todo o crédito deve ser dado a Sandilands pela boa interpretação do vilão, que recebe neste episódio um de seus melhores roteiros, fazendo percebermos por contraste o quanto perdeu-se tempo no desenrolar da trama, em especial na segunda metade da temporada, com opções bastante desinteressantes para um vilão com grande potencial. Tanto nessa sequência inicial quanto no diálogo com Barry ao final do episódio, temos aqui alguns dos melhores momentos com o vilão.

Porém, assim como não é representativa da qualidade atual da série, infelizmente a cena de abertura não simboliza bem nem mesmo a qualidade deste episódio tomado separadamente. O que se segue é mais um roteiro carente de qualquer centro dramático ou narrativo que não seja a mais pura encheção de linguiça. Fato que surpreende, já que a missão desse episódio seria a de armar as bases para o aguardado finale, e apesar disso ele não soa muito diferente do que um episódio regular desse último terço do arco.

Os velhos problemas de sempre se repetem novamente, de forma tão marcada que as poucas exceções à regra acabam um tanto sabotadas. Iris (Candice Patton) elevou o nível de suas resoluções por associação livre à mais pura tortura narrativa. O fato de que é preciso que Harry (Tom Cavanagh) entre em seu apartamento com as botas sujas de lama, para que ela comece a tagarelar reclamando sobre como aquele é o espaço seguro dela (!?) e então com isso deduzir, com supostos ares de brilhantismo, que talvez Marlize (Kim Engelbrecht) tenha ido para algum lugar significativo para ela após a separação de DeVoe (que é inicialmente apenas uma suposição e então do nada tomada como fato pelo Team Flash!) me deixa simplesmente sem palavras. Os roteiristas da série por acaso foram as primeiras cobaias do processo da Iluminação de DeVoe? Porque sinceramente, nenhuma tolice caricatural de Harry ao longo do episódio chega perto da completa idiotice desse momento!

Não ajuda em nada a forma absolutamente babaca com que a Sra. West-Allen trata Wells nessa cena e em toda a sequência em que eles vão para a Inglaterra (aparentemente vibrados por um Cisco que não estava presente para fazê-lo, ou eu perdi alguma coisa?). A ideia aqui era apresentar mais um dos clássicos conflitos pessoais de sempre (afinal de contas, desde o episódio passado não temos um desses!), com Wells defendendo a aliança com Marlize enquanto que Iris se opõe por conta de seu ressentimento pessoal com ela. Porém, essa ideia pouco interessante é explorada de forma ainda pior, e a coisa toda acaba tendo ares de um exercício enfadonho e feito com ares de obrigação. A deserção de Marlize, que poderia posicioná-la como coringa no desenrolar da trama, acaba sendo explorada aqui com a empolgação narrativa que teríamos se acompanhássemos 15 minutos de Iris discutindo na reunião dos condôminos de seu prédio. Bem, ao menos rolou uma katana eletrificada, e muitos momentos genuinamente hilários com Tom Cavanagh… É nas pequenas coisas que eu me mantenho são!

Enquanto Iris agia de forma egocêntrica e babaca com Harry, a outra metade da entidade coletiva conhecida como Flash fazia o mesmo com Caitlin (Danielle Panabaker) e Cisco (Carlos Valdes). São mesmo almas gêmeas, esses dois! O Sr. Barry Allen (Grant Gustin), que em todas as situações em que se viu aquém de um desafio não pestanejou em reagir na base do beicinho e da auto-piedade exagerada, que em toda crise do grupo é o primeiro a dar piti e sair choramingando, prova aqui que definitivamente a “autocrítica” não fez parte do seu currículo de formação para cientista forense.

A falta de paciência e compreensão dele com Cisco e Caitlin nas sequências em que tenta ensiná-los a se manter no flashtime elimina qualquer possibilidade de uma exploração divertida deste que é um dos melhores conceitos de uso de seu poder trazidos nessa temporada. Claro que ser heroico não significa ser inspirador e ter uma atitude positiva o tempo todo – mas poxa vida, Barry, nem de vez em quando? Uma vezinha só, pra variar? Se a intenção dos produtores é humanizar o personagem, o resultado é um tiro pela culatra porque não há praticamente nenhum momento do personagem que dê a essas reações “humanizantes” um impacto emocional interessante no contraste com qualquer qualidade “sobrehumana”. Reclamar, se irritar e alternar entre um show de auto-culpabilização e distribuição de culpa: isso é tudo que vemos Barry fazer. No restante do tempo, ele é um relâmpago em CG correndo pela tela – na melhor das hipóteses. A má caracterização deste que deveria ser nosso principal gancho na narrativa da série é talvez a sua falta mais imperdoável.

Isso para não citar o fato de que o imbróglio todo do treinamento de Cisco e Caitlin é apenas uma regurgitação do que já vimos em Subject 9 e Lose Yourself – apenas para citar os exemplos mais recentes. O que temos a ganhar com mais uma reciclagem dessa mesma subtrama? A ideia de não-velocistas entrando no flashtime trouxe bons momentos no melhor episódio da temporada (e da série em muito tempo), Enter Flashtime, sendo que aqui temos uma explicação mais detalhada do que ocorreu naquela ocasião. A produção usa novamente da boa pista visual dos anéis de relâmpagos, que recebe aqui uma explicação in-universe bem bacana, e a forma como o treinamento é mostrado seria até interessante, não fosse a birra do protagonista sugando toda e qualquer empolgação possível com o momento.

O ataque a DeVoe na A.R.G.U.S. é uma sequência que me dividiu. A proposta do resgate é envolvente, as complexas armadilhas envolvendo os reféns combinam com o modo de operar que se espera do Pensador e o lance todo de sincronizar o disparo de todas as minas eletrônicas e fugir da explosão no mesmo portal de DeVoe é o tipo de premissa interessante de se explorar com a nova habilidade do flashtime. Porém, a forma um tanto preguiçosa com que o roteiro constrói a situação não convence tão bem assim, deixando a coisa toda com ares de artificialidade de tal modo que a missão do trio parece mais saída diretamente de um gameIsso corta um pouco de seu impacto dramático, efeito que se comprova no fato de que a cena não traz nem de longe o mesmo peso que a sequência de abertura. Não ajuda que a coisa toda tenha ares de previsibilidade do começo ao fim. Mas que um jogo de The Flash pela Rocksteady seria do caramba, ah isso seria! (Exceto se chamassem o Grant Gustin pra dublar o personagem, é claro…)

Por fim, temos alguns momentos sem noção ao longo do capítulo que provavelmente estão aí para começar a montar a trama da 5ª temporada (yay…). Cecile (Danielle Nicolet) com poderes ultra-empáticos: ideia boa, execução de dar gastura. Algumas das imitações chegam a ser divertidinhas, mas tudo muito caricato e descolado de qualquer narrativa para que possamos nos envolver mais. Essa gravidez de Cecile vai ter que papel no rumo da história toda? A essas alturas o bom senso indica que se trata mesmo da garota misteriosa do futuro… Ou não! Já em termos de Caitlin, temos a revelação de que ela, quando era criança, caiu da bicicleta e se transformou em Killer Frost, já desde então. Não sei nem o que comentar em relação a isso, mas tem ares de um retcon desnecessário e que provavelmente não vai dar em nada que salvará a personagem da coadjuvância eterna. Veremos! Alguns fãs já apontaram que talvez seja uma dica de que na próxima temporada teremos o pai de Caitlin, citado aqui pela primeira vez – provavelmente como supervilão?

Think Fast chega com a missão de preparar-nos para o season finale, mas não empolga mais do que os episódios fracos que o antecederam. A repetição de enredos e a má caracterização do casal protagonista, combinada com a falta de uma narrativa mais consistente para os coadjuvantes, continuam a arrastar a série para baixo. Não é a toa que Ralph Dibny fez tanta falta, já que o personagem quebrava um pouco essa dinâmica viciada do Team Flash e, vez ou outra, trazia algo de novo. Desde que voltou do último hiato, a série trouxe as entradas mais medíocres de toda a temporada, e o fato de que esse episódio pouco faz para se destacar de outros teoricamente menos importantes não sugere um cenário otimista para o nosso finale.

The Flash – 4X22: Think Fast — EUA, 15 de maio de 2018
Direção: 
Viet Nguyen
Roteiro: Sam Chalsen, Kristen Kim
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Neil Sandilands, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, David Ramsey, Danielle Nicolet, Kim Engelbrecht, Donna Pescow
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.