Crítica | The Flash – 5X01: Nora

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Se The Flash tem sofrido, desde a sua 2ª temporada, com o desafio de superar seu próprio ano de estreia, parte do problema se deve à resistência do seriado em relação à exploração de novos territórios. Repetindo-se o tempo todo e não dando espaço suficiente para as novidades crescerem, a série inicia sua 5ª temporada lutando contra inegáveis ares de marasmo. No ano anterior, tivemos uma cota razoável de mudanças positivas: um bem-vindo tom mais humorístico e leve, a introdução de uma boa versão de Ralph Dibny (Hartley Sawyer) e o exercício mais do que saudável de desenvolver uma trama de temporada sem recorrer ao modelo irresistível e cada vez mais bem testado ao qual a série se apegou.

A guerra contra o Pensador se alongou por um pouco mais do que devia, mas ainda sim trouxe um novo fôlego para a produção, com bons episódicos e diversificando a ainda árida galeria de vilões desta versão do velocista escarlate. Em grande parte, o que funcionou de forma tão bacana ali me parece ter sido justamente a possibilidade de ver o Team Flash lidar com um grande supervilão sem ligação direta com a Força de Aceleração e com os paradoxos temporais de um distante (e sempre convenientemente mal definido) futuro.

Trapalhadas temporais e futuros distópicos são divertidos — mas perdem definitivamente algo de seu brilho quando viram rotina. Porém, como a tentativa de contar uma história na série sem recorrer a nenhum elemento do tipo provavelmente romperia uma barreira espaço-temporal na nossa Terra Prime, tivemos a presença marcada de uma viajante temporal misteriosa pontuando o conflito contra DeVoe com seus teasers ambíguos para eventos futuros. Trata-se da jovem West-Allen, que recebe o título do episódio de estreia da nova temporada.

Nora se inicia diretamente após os eventos finais de We Are The Flash, resgatando com precisão o ar anti-climático do desfecho da temporada anterior. Em termos de roteiro e direção, o episódio carrega alguns dos principais problemas de seu antecessor e os estende ao longo de toda sua duração. De forma um tanto desinspirada, a trama vai colocando as peças para o próximo arco de temporada, ao mesmo tempo em que se prepara para responder a pergunta: poderia a filha velocista de Barry (Grant Gustin) e Iris (Candice Patton) vinda diretamente do futuro ajudar a redimir a falta de sal inexorável que atinge o núcleo de protagonistas da produção?

Comparada com o episódio de abertura da temporada anterior, The Flash Reborn, a entrada desta semana claramente carece da boa ritmação e construção de entusiasmo que um bom season opener deve trazer (ainda mais quando envolve fisgar nosso interesse por mais de 20 episódios por vir!). Apoiando-se desconfortavelmente sobre diálogos expositivos, o desenvolvimento da trama traz poucos momentos orgânicos e faz a chegada de Nora parecer forçosa e um tanto arrastada.

No papel, o enredo não parece ter nada de errado em si, sendo que a única reserva que eu teria seria em relação a novamente recorrermos a um desencontro temporal — após a absoluta saturação do conceito promovida pela fraca 3ª temporada. Porém, em termos de execução, a falta generalizada de empolgação e compasso e o trabalho diretorial burocrático sabotam os momentos de desenvolvimento de personagem, que se tornam breves flashes (hãn? hãn?) em meio a uma onda de monotonia. Os personagens com quem mais me identifiquei ao longo do episódio foram Cisco (Carlos Valdes) e Joe (Jesse L. Martin) — que estavam de ressaca e dormindo ao longo da coisa toda, respectivamente. Isso certamente deve ser significativo!

Brincadeiras à parte, não podemos colocar na conta de Jessica Parker Kennedy a estreia menos do que triunfal de XS. A atriz consegue a façanha de fazer lembrar os personagens de Gustin e Patton com precisão o suficiente para que acreditemos se tratar da filha de Barry e Iris. Desde a semelhança física até traços de personalidade, trata-se de um esforço bastante válido. Infelizmente, o roteiro não ajuda que tenhamos qualquer identificação com ela que não seja “Ah, essa é a novidade que teremos para essa temporada então!”.

A troca da narrativa de início e encerramento de episódio para a perspectiva de Nora indica uma coisa que poderia ter funcionado melhor: acompanharmos o ponto de vista de Nora, como se a série agora fosse mesmo sobre uma velocista que procura pelo pai, um lendário heroi desaparecido em uma crise. Trazida para a perspectiva de nosso Team Flash de ressaca, os mistérios envolvendo a personagem são óbvios demais. A revelação de que ela teve pouco contato com Barry é telegrafado a quilômetros de distância, assim como o fato de que isso tem a ver com a notícia do desaparecimento de Barry em uma convenientemente mal definida “crise”, no artigo de jornal favorito de Gideon, que nos é exibido desde os momentos iniciais da série. Se a perspectiva de uma adaptação da Crise nas Infinitas Terras era extremamente empolgante diante de um Flash novato e de todo uma versão do Universo DC para se construir, hoje em dia a inconsistência generalizada do arrowverse faz com que a promessa pareça decididamente menos grandiosa.

Os acertos do episódio ocorrem principalmente nos momentos pontuais de personagem. A relação conturbada entre Nora e Iris é trabalhada com sutileza o suficiente para convencer e despertar curiosidade. Aliás, Nora tem uma ótima presença dramática tanto com Iris quanto com Barry — é justamente quando o casal se reúne que a coisa perde em termos de convencibilidade. As piadas com Dibny perdidaço em sua nova vida de Team Flash também são boas (e trazem uma dose de fanservice aos guerreiros que permaneceram com a série até esse ponto) — o clássico questionamento a respeito da vasectomia de Eddie foi uma das melhores auto-referências que a série já fez.

O melhor momento, no entanto, é o do clímax: a montagem de Barry ensinando Nora a atingir a intangibilidade através da vibração e do contato com a Força de Aceleração, resgatando um momento épico do distante Tricksters, mostra que a série teria muito a ganhar em investir na consistência e desenvolvimento sólido de personagens do que em construir super-tramas mirabolantes com pouco efeito duradouro. Para os mais pessimistas, o discurso do Dr. Wells deve lembrar uma época em que a série trazia maior consistência narrativa e sentido de progressão.

Apesar do desfecho climático, o combate contra o vilão Gridlock/Impulso não é bem construído o suficiente para ficar à altura da cena. Gastando tempo demais com exposições, a trama acaba recaindo no vício de “falar sobre, ao invés de mostrar acontecer”, que sabota a adrenalina dos momentos super-heróicos.

Há inegáveis ares de quadrinho na forma blasé com que os personagens reagem às situações mais estapafúrdias, e mesmo na progressão apressada da trama, mas a produção tem mais dificuldades de dosar esse lado aqui do que tivera nos bons momentos iniciais da temporada anterior (que, na minha opinião, ao menos construiu vilões com personalidade e características individuais mais envolventes). O fato de que o big bad da temporada seja novamente um ser envolto em sombras com um belo distorcedor de voz acrescenta à lista de déjà vus, e ficamos na expectativa em ver como essas tramas serão costuradas em torno do grande arco da vez.

Com estrutura e trama dignos de episódio fillerNora não consegue reinjetar o ânimo necessário para começar com força a nova temporada de The Flash. Confiando demais na exposição e de menos no desenvolvimento orgânico dos personagens e temas, a velocista novata tem uma introdução aquém do que merecia. Ainda sabemos muito pouco sobre as temáticas e encaminhamentos possíveis da temporada — o que por si só já é um mau sinal, já que o propósito deste episódio seria ao menos nos fisgar com alguma novidade interessante. Desaparecimento de Barry e vilão com voz distorcida sob a máscara nos já tivemos para além da conta! Tomara que nas próximas semanas tenhamos a introdução de elementos o suficiente para carregar a coisa à frente…

The Flash – 5×01: Nora — EUA, 9 de outubro de 2018
Direção: 
David McWhirter
Roteiro: Todd Helbing, Sam Chalsen
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Hartley Sawyer, Danielle Nicolet, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Jessica Parker Kennedy, Keiynan Lonsdale, Danielle Nicolet, Patrick Sabongui
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.