Crítica | The Flash: Renascimento

estrelas 4,5

ATENÇÃO: Não leia esta HQ antes de Universo DC: Renascimento.

Parece que há, atualmente, um combinado na DC, um projeto de fazer suas produções de quadrinhos se tornarem um exemplo para as porcarias que a CW certas emissoras andam fazendo em Arrow e The Flash com alguns de seus heróis na TV. De maneira ainda mais curiosa, dos one-shots lançados até o momento, justamente Arqueiro Verde e The Flash são os melhores, os que mais elementos do presente são explorados e os que mais mergulhos no cânone e apontamentos para o futuro desses heróis são entregues. Também curioso é que neste The Flash, o futuro para o qual se aponta não é apenas o do herói, mas também para o próprio futuro da DC Comics. A ideia de um certo ser azul que vê o mundo em nível quântico, semeada em A Guerra Darkseid e Universo DC: Renascimento  começa a germinar. E oh, é maravilhoso presenciar isto.

A primeira coisa que o leitor precisará se acostumar aqui é com a arte de Carmine Di Giandomenico, com sua finalização rústica e desenhos do tipo ‘esboços anatômicos’. Particularmente não gostei do trabalho dele para nenhum dos quadros com closes de personagens do mundo real, mas curiosamente esse estilo artístico acabou funcionando bastante para a representações dos heróis em seus uniformes, tanto Barry quando Wally, que está voltando agora para casa, depois de uma ingrata jornada pela Força de Aceleração. A arte também funciona para a representação do espaço geográfico (cidade, casas, edifícios), e é melhorada pelo bom uso de cores por Ivan Plascencia e pela ótima diagramação das páginas. Talvez se a arte-final estivesse nas mãos de outro artista, o resultado teria sido mais interessante, porém, como é o próprio Giandomenico que dá o toque final em seus desenhos, não há muita saída.

O poder da objetividade. Ou: como ser um bom roteirista e saber relembrar o passado de forma rápida e orgânica sem precisar de 24 páginas para isso.

O poder da objetividade. Ou: como ser um bom roteirista e saber relembrar o passado, ligando-o ao presente de forma rápida e orgânica sem precisar de 24 páginas para isso.

Quero deixar claro, porém, que mesmo com uma arte menor — ou com muita cara de esboço, ou finalizada de maneira rústica demais, nomeie como quiser — Giandomenico dá conta de representar os cenários e os acontecimentos aqui, que, diferente de algumas edições de Rebirth, se sustenta exclusivamente pelo roteiro (note que a meia estrela retirada da nota teve a ver com a arte, não com o texto). No final, o leitor até se acostuma um pouco com o estilo, mas o ranço da estranheza não desaparece de todo.

O roteiro, escrito por Joshua Williamson, brinca um pouco com a nossa percepção no início da trama, fazendo-nos crer que aquilo se trata de uma repetição do assassinato da mãe de Barry, mas mudando a narrativa para um crime semelhante e fazendo com que este momento seja ligado ao encontro que vimos acontecer na primeira revista da fase Renascimento. É como se tivéssemos vendo um evento passado de um outro ponto de vista, agora pelo de Barry, não pelo de Wally. E a emoção continua lá. Ela não é tão intensa quanto a que tivemos da primeira vez em que o encontro aconteceu, mas há uma força tremenda e um grande significado nesse encontro que é difícil de ignorar. A arte nesse momento cria uma boa ambientação e diagrama bem o acontecimento, melhorando visualmente a nossa recepção do abraço e das primeiras palavras trocadas entre os velocistas.

Vejam só como um bom roteirista consegue contar uma história nova retomando elementos do passado, trazendo um grande número de informações soltas até o momento (indiretas sobre o Dr. Manhattan, explicação sobre como o broche smile ensanguentado do Comediante foi parar na Batcaverna, retomada simples e rápida de Ponto de Ignição e ponte dos Novos 52 para Renascimento…), tudo feito de maneira orgânica, interessante, contextualizando as fases em tom acertado para os leitores novos e apresentando novidades para leitores veteranos. Como bônus, temos ainda piscadelas emotivas, elementos sobre o legado do personagem e apresentação de mistérios para a fase que começa agora. Isso sim é um bom roteiro com retomada. E ainda há quem defenda o horrendo trabalho de Peter Tomasi e Patrick Gleason em Superman: Renascimento, que traz exatamente a mesma proposta que Williamson aqui em The Flash, só que de uma maneira muito ruim.

Montando um quebra-cabeça Universal: o início.

Montando um quebra-cabeça vital.

O leitor termina a edição digerindo as indicações sobre o novo uniforme de Wally (ele também é um Flash, segundo o Flash!), a futura re-união dele com os heróis desse Universo antes de tudo degringolar, a investigação de um crime hediondo, um espectro ameaçador (Eobard Thawne? Hunter Zolomon?), pistas sobre a malha do espaço-tempo que permitiu o Renascimento e pontas de vida pessoal e heroica bem escolhidas para ficarem soltas e serem ligadas no futuro.

Tudo se encaixa bem nesta edição, que é uma clara sequência da linha narrativa de Wally em DC Rebirth. Que bom que este raio caiu duas vezes no mesmo lugar!

The Flash: Renascimento (The Flash: Rebirth) — EUA, 8 de junho de 2016
Roteiro: Joshua Williamson
Arte: Carmine Di Giandomenico
Cores: Ivan Plascencia
Letras: Steve Wands
Capas: Jason Pearson, Karl Kerschl
24 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.