Crítica | The Get Down – 1ª Temporada, Parte 1

estrelas 5,0

The Get Down, a menina dos olhos de Baz Luhrmann, que vem desenvolvendo esse projeto há 10 anos, é, em primeiro e mais importante lugar, uma montanha-russa de sentimentos positivos e excitantes que é capaz de facilmente gerar sorrisos e aplausos genuínos do espectador e até mesmo, digo sem qualquer vergonha, aquela lágrima furtiva de felicidade e euforia que poucas obras conseguem arrancar, apesar de pontualmente mostrar violência e sangue. Não, não é um trabalho sem problemas, mas é uma série (ou uma metade de uma temporada, tecnicamente) que já merece figurar entre os mais ousados trabalhos do ano e, só por isso, precisa da atenção de todos.

Combinando fatos históricos – a corrida eleitoral para a prefeitura de Nova Iorque em 1977 e o famoso blecaute da cidade por 36 horas naquele mesmo ano – com uma história fictícia de amor e de amizade e de descoberta profissional, com alguns personagens reais como plano de fundo, Luhrmann cria um misto de Romeu e Julieta (que ele próprio já adaptara, aqui) com musicais modernos que ele próprio ajudou a criar com sua Trilogia da Cortina Vermelha e com uma história urbana centrada no surgimento do hip hop em suas quatro manifestações: o DJing, o rapping, o break dancing e a arte de rua, além de uma pitada do mundo da disco music em um envelopamento de fábula que só mesmo esse energético diretor e produtor poderia criar.

Sei que um crítico precisa tentar ao máximo ser objetivo, mas uma crítica é, no fundo, uma opinião e uma opinião carrega necessariamente sentimentos pessoais. E devo dizer que há muito não reagia tão bem a uma série. Sim, há exemplos recentes de criações magníficas para a TV, como Mad Men e Breaking Bad, além da recentíssima e incrível Preacher, mas The Get Down fica naquela fronteira entre o mesmerizante e o inexplicável, entre o sentimento puro e a vontade de se libertar (tema, aliás, batido constantemente nos seis episódios disponibilizados), que é impossível trabalhar de maneira puramente objetiva, o que justificam esses meus parágrafos até aqui e adiante.

Marcada por problemas ao longo de sua gestação, com dois showrunners pulando fora e o próprio Luhrmann sendo obrigado a fazer as vezes de controlador da série, The Get Down acabou custando uma fortuna absurda por episódio (10 milhões segundo foi reportado), tornando-se a série mais cara a ser exclusiva do Netflix (com produção da Bazmark Films e Sony Pictures Television), algo que não está exatamente na tela – poucos atores conhecidos, filmagens em locações simples e muito uso de trechos de filmagens antigas da cidade, especialmente do South Bronx -, mas que é explicado pelas complicações, mudanças de rumo, trocas de executivos até finalmente achar seu caminho via streaming em uma escolha acertada – e inédita – em se dividir a primeira temporada de 12 episódios em duas ofertas de seis cada uma, com a segunda prometida para 2017.

Acertada, pois The Get Down é, sem papas na língua, um bombardeio sensorial impressionante. Lembram-se de Moulin Rouge? É como aquele número musical em que Satine é apresentada repetido em loop de frente para trás e de trás para frente o tempo todo. Mas calma, pois a série não é musical no estilo “sair cantando do nada”, que muitos não gostam (particularmente, tenho uma enorme queda por esse tipo de musical, mas não vem ao caso aqui). Todas as inserções musicais por parte de seus personagens são diegéticas e fazem sentido completo dentro da trama que é duas partes música e uma parte política, religião, questões sociais e desafio a valores familiares. Com isso, Luhrmann é capaz de criar algo com enorme força cinética e intensidade que não é o ideal para o binge watching de muitos episódios. Cada capítulo – especialmente o primeiro, de 93 minutos, mas falarei sobre ele mais para frente – cansa o espectador, mas é um cansaço bom, daqueles que se sente depois de alcançar algum objetivo perseguido há algum tempo. É um cansaço que deixa um sorriso no rosto e que faz qualquer um que tenha coração batendo dentro do peito desencostar do sofá e debruçar-se sobre a tela em antecipação ao que vai acontecer.

Portanto, a dose homeopática de seis episódios está na medida exata, que satisfaz sem extrapolar, sem criar uma overdose que poderia ser mortal para a experiência. E o melhor é que houve o cuidado de se fazer um arco completo que, apesar de deixar o gosto de “quero mais”, é suficientemente completo, contando uma história – mais de uma na verdade – com começo, meio e fim.

O primeiro episódio, do tamanho de um longa-metragem, é o único dirigido por Baz Luhrmann e é perfeitamente possível sentir que é mesmo o diretor por trás da câmera. Mas cuidado: o que ele entrega não é exatamente o que a série é. E não, não estou falando isso como algo negativo como foi o caso da outra série musical setentista de 2016, Vinyl, da HBO. Lá, o primeiro e magnífico episódio introduziu uma história que prometia muito, mas que os episódios subsequentes, repetitivos e caricatos, derrubaram. Aqui, a questão é mesmo de estilo. Luhrmann nos introduz a esse mundo underground estruturando sua narrativa descaradamente como um conto de fadas, com a clássica Jornada do Herói como foco principal e com uma mística quase sobrenatural de música, marginalidade, religiosidade e cores, muitas e explosivas cores, seja nos figurinos embasbacantes, seja nas artes de rua, seja na tonalidade ocre do Bronx que ressalta ainda mais sua pegada fabulesca.

Além disso, ele estabelece o trio principal de maneira muito inteligente, focando em Ezekiel “Zeke” Figuero (Justice Smith), um rapaz que sente vergonha de ser mais culto e mais inteligente que seus pares e que é um poeta por natureza; em sua paixão de infância Mylene Cruz (Herizen F. Guardiola), uma jovem com voz e rosto de anjo que vive em um seio familiar extremamente religioso e cujo sonho é tornar-se cantora de disco e, finalmente, no misterioso artista de rua que deseja ser DJ Shaolin Fantastic (Shameik Moore). Zeke e Mylene formam o casal à la Romeu e Julieta e Shaolin (ou Shao, para os íntimos) é uma figura quase mística que é visto apenas fazendo sua arte, pulando de um lado para o outro e usando impecáveis – e lendários – tênis vermelhos. O universo fantástico, mas galgado na realidade historicamente correta, que Luhrmann cria em pouco mais de 1h30′ é fascinante e fisga o espectador instantaneamente.

E, então, temos os demais episódios. Todos eles, sem exceção, têm muito mais pé no chão e, portanto, estrutura narrativa mais familiar e, talvez, comum. Mas nem por isso eles são menos engajantes. É que a intensidade e ineditismo do primeiro episódio vem com um preço: a pouca caracterização de cada personagem que, por serem tratados mais como arquétipos do que qualquer outra coisa, perdem um pouco da identidade. Somente com os cinco episódios seguintes é que vemos que eles são mais do que aparentaram no começo. Todos têm histórias interessantes – ainda que de certa forma clichê – e há outros personagens coadjuvantes que também ganham destaque e bom desenvolvimento, como o político corrupto local  Francisco “Papa Fuerte” Cruz (Jimmy Smits), tio de Mylene.

Falando nos personagens, há que se abrir um parênteses para a criatividade e o cuidado de Luhrmann com cada um deles. A dupla Zeke e Mylene ganha os holofotes, mas sua história só é o que é pelo que eles têm à sua volta. Zeke tem Shao e seus fieis amigos Boo-Boo (astuto e versátil – vivido por Tremaine Brown Jr.), Ra-Ra (a voz da razão – vivido por Skylan Brooks) e Dizzee (grafiteiro e pensador rebelde – vivido por Jaden Smith), além dos tios com que vive. Mylene tem seu pai, o quase fanático Pastor Ramon Cruz (Giancarlo Esposito) e sua mãe Lydia (Zabryna Guevara), dividida entre a igreja/família e desejos proibidos, além de suas inseparáveis amigas Regina (Shyrley Rodriguez) e Yolanda (Stefanée Martin). Em órbita ao redor desse grupo, há ainda o produtor de discos falido Jackie Moreno (Kevin Corrigan) que vê em Mylene sua chance de redenção, a professora Sra. Green (Yolonda Ross) que faz de tudo para dar um futuro para Zeke e, claro, a figura mítica, mas essa sim verdadeira, de Grandmaster Flash (Mamoudou Athie), um dos pais do hip hop e que também é produtor da série.

Tenho certeza que, olhando a lista de atores citados acima – com exceção de Kevin Corrigan, que fez, dentre outros, Os Bons Companheiros, Giancarlo Esposito, alçado à fama em Breaking Bad, Jimmy Smits, conhecido por NYPD Blue (Nova Iorque contra o Crime) e por ter vivido Bail Organa na Trilogia Prelúdio de Star Wars e, finalmente, Jaden Smith, filho de Will Smith -, todos os demais levantarão sobrancelhas e gerarão aquele ponto de interrogação na cabeça de muitos espectadores. E não é mesmo para menos, pois eles são, em grande parte, ilustres desconhecidos tirados do anonimato pela incrível escalação de Luhrmann e sua equipe.

Acreditem em mim quando digo que todos – até mesmo Jaden Smith – encarnaram seus papeis à perfeição. Justice Smith, egressos de papeis pequenos em séries e no longa Cidades de Papel, faz o papel chave do jovem angustiado por não saber o que é e o que pode ser. Ele sabe, lá no fundo, que é diferente dos demais, mas não tem coragem de suplantar seus receios e os estigmas sociais que pré-estabelecem sua posição no mundo. Quando ele recita seus poemas, é um espetáculo à parte, tamanha é sua tranquilidade e os sentimentos que consegue imprimir em cada verso. Herizen F. Guardiola, praticamente uma estreante, faz a jovem sonhadora que equilibra o pessimismo quase nihilista de Zeke. Sua voz (e ela mesmo que faz seus vocais) é magnífica e sua imagem de rainha do disco em formação é estruturada desde que a vemos pela primeira vez no coral da igreja de seu pai. Mas o personagem que realmente fascina é Shaolin Fantastic, vivido por um dos grandes atores jovens dos últimos anos: Shameik Moore. Tendo brilhado no longa tematicamente semelhante Um Deslize Perigoso (Dope), o ator mostra toda sua versatilidade aqui, fazendo um delinquente cujo maior desejo na vida é aprender com Grandmaster Flash a ser um DJ, o melhor de todos. Mas, para sobreviver, ele tem que jogar em todas as posições, satisfazendo Fat Annie (Lillias White), a mafiosa local que se parece muito com Úrsula, a bruxa de A Pequena Sereia, das mais diversas formas e cumprindo as tarefas mais bizarras para revelar-se para seu mestre. Shameik Moore é, definitivamente, um nome a se ter em mente como possível grande ator a despontar por aí.

Aliás, a relação de Shao com Flash é algo que vale nota pela originalidade do tratamento dispensado por Luhrmann. A relação mestre-aprendiz, aqui, ganha ares de filmes de kung-fu dos anos 70, com direito à trilha sonora típica, além de uma aura realmente mística dada a Flash, como os sênseis de filmes de Bruce Lee ou, mais modernamente, Pai Mei, de Kill Bill. E a escolha é esteticamente muito adequada dada a reverência que Shao sente por Flash e, claro, pela época em que a série se passa, durante o boom de filmes desse tipo.

Já que mencionei estética, o design de produção da série é algo de se tirar o chapéu. Sem esfregar na cara do espectador o estilo de uma década, o trabalho de figurino impressiona pelos detalhes e pelo quanto cada roupa caracteriza seus personagens. O vermelho de Shao – energia pura – contrastado com as cores em tons pasteis de Zeke – dúvida e uma certa linearidade – pulam ao olhos em figurinos que são levemente caricatos, mas cheios de personalidade. O mesmo vale para a reconstrução de época, com o uso de filmagens de arquivo, um leve e bem utilizado CGI e talvez algumas pinturas matte de complementação em tomadas em planos gerais. O Bronx destruído e falido de 1977 salta na tela e empresta o lado lúgubre em que a narrativa mais positiva acertadamente não mergulha, mantendo seu lado positivo mesmo nas situações mais sombrias.

No entanto, o desenrolar das diversas narrativas paralelas da série ganham ares repetitivos. Temos Zeke tentando descobrir quem é e Mylene e Shao tentando realizar seus respectivos sonhos. A congruência das histórias é ótima, mas suas progressões às vezes soam como se estivéssemos assistindo a uma corrida de obstáculos ou como uma gincana. Cria-se uma situação e logo aparece um obstáculo que, então, é ultrapassado, somente para que tudo seja repetido mais uma vez. E outra. E outra. Em apenas seis episódios, Luhrmann consegue abusar do artifício narrativo quase ao ponto de fragilizar sua obra irremediavelmente. Talvez esta seja mais uma razão para sustentar que a divisão em duas partes seja mesmo uma escolha acertada. É de se esperar que o caminho a ser seguido doravante seja diferente, mais desafiador e orgânico, mesmo considerando o tom de fábula que permeia todos os episódios.

Há, também, um certo didatismo exacerbado na narrativa. Cada episódio começa com cenas monocromáticas de um show de rap de um Zeke adulto (Daveed Diggs), em 1996. Nós o ouvimos cantar a situação a que então somos jogados em flashback. Se o artifício funciona perfeitamente bem no episódio de abertura, ele perde sua função nos seguintes, justamente por explicar demais e em minúcias o que aconteceu com nossos heróis no capítulo anterior e como está a situação sócio-política na cidade naquele momento. É que os roteiros trabalham muito bem suas explicações e essa reiteração é desnecessária e cansativa, ainda que leve apenas alguns segundos.

Finalmente, a velocidade da progressão narrativa e a pluralidade de personagens impede a total realização de seus respectivos potenciais. Há pouco espaço para um efetivo desenvolvimento das personalidades principais, o que reflete em uma espécie de freio para o desabrochar de toda a latitude do elenco. Com sub-tramas interessantes, mas em última análise desnecessárias (como a que envolve Papa Fuerte e Lydia), os focos no hip hop e na disco music não ganham o espaço que poderia realmente ganhar, por serem as linhas mestras da série. Talvez seja um problema sensível somente porque não há uma temporada completa para julgar adequadamente, pelo que só o tempo dirá.

Os leitores mais atentos provavelmente indagarão o porquê da nota máxima diante dos problemas que detectei e a pergunta realmente faz sentido. No entanto, The Get Down é um daqueles casos raros em que a emoção atropela a razão, em que os sentimentos falam mais alto e o coração batendo forte abafa as maquinações binárias do cérebro (e olha, isso vem de alguém que simplesmente não gosta de hip hop…). Sim, talvez se um robô estivesse escrevendo a presente crítica, a avaliação final fosse mais baixa (quatro estrelas, talvez?), mas não é – ainda – um robô que escreve aqui e, por isso, foi impossível avaliar com menos do que o máximo. Isso poderá mudar quando os demais episódios forem liberados, mas, agora, neste momento, é isso que me permiti fazer. Nem todo mundo é de ferro, não é mesmo?

The Get Down é série obrigatória. É daquelas que o espectador precisa parar e, muito mais do que apenas assistir, precisa sentir e deixar o bombardeio sensorial tomá-lo por completo. A experiência é realmente incrível e o sorriso no rosto é garantido.

The Get Down – 1ª Temporada, Parte 1 (EUA, 12 de agosto de 2016)
Criação: Baz Luhrmann, Stephen Adly Guirgis
Showrunner: Baz Luhrmann
Direção: Baz Luhrmann, Ed Bianchi, Andrew Bernstein, Michael Dinner
Roteiro: Baz Luhrman, Sam Bromell, Sinead Daly, Jacqui Rivera, T. Cooper, Allison Glock-Cooper, Stephen Adly Guirgis, Aaron Rahsaan Thomas, Seth Zvi Rosenfeld
Elenco: Justice Smith, Shameik Moore, Herizen F. Guardiola, Skylan Brooks, T.J. Brown Jr., Yahya Abdul-Mateen II, Jimmy Smits, Jaden Smith, Giancarlo Esposito, Mamoudou Athie, Yolonda Ross, Kevin Corrigan, Zabryna Guevara, Daveed Diggs, Lillias White, Barrington Walters Jr.
Disponibilização no Brasil na data de publicação da crítica: Netflix
Duração: 390 min. aprox. (6 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.