Crítica | “The Getaway” – Red Hot Chili Peppers

estrelas 1,5

É normal uma banda tentar traçar um caminho diferente. Na verdade, isso é o que sempre se espera, afinal, viver na zona comum é erro fatal pra grande parte das bandas dentro da indústria musical. No entanto, existe uma linha tênue onde o grupo deve ficar muito atento pra não perder sua principal identidade, não perder sua essência, aquele diferencial marcante que conquistou o fã/ouvinte. Essa pequena introdução se faz necessária pra explicar o doloroso resultado que é The Getaway, o novo e décimo primeiro álbum de estúdio do Red Hot Chili Peppers. Pouquíssimo inspirado, monótono e isento do funk clássico e marcante dos californianos, o novo trabalho deixa muito a desejar.

Convenhamos que o Red Hot Chili Peppers sempre foi uma banda de excelência maior em singles do que em álbuns, mesmo em sua melhor época, a era dos bons Blood Sugar Sex Magik e Californication. E temos novamente um ótimo single, carro-chefe de The Getaway: Dark Necessities. Notoriamente a melhor faixa do álbum, ela sabe inserir o funk da banda de um jeito leve, na mesma medida que constroi um refrão que fisga o ouvinte e gruda nele logo na primeira audição. O problema é que quase nada funciona no resto do trabalho. Se o disco até soa bem em seu início, chega sem fôlego já na sua metade, com pouca inspiração. E grande parte disso se deve a tentativa do RHCP de “padronizar” seu som para o cenário do rock alternativo atual. É nesse processo que o grupo se perde, deixando um vácuo em relação ao groove característico de seu som e soando bem abaixo da média de bandas do gênero.

O vocalista Anthony Kiedis se torna um problema enorme a medida que o disco avança, já que a impressão que ele nos passa é de entregar a mesma interpretação, mesma métrica e tom cantados em cada faixa. Veja como sua execução em Go Robots, por exemplo, nos faz desistir da canção antes mesmo da inserção dos vibrantes sintetizadores. Já Chad Smith parece virar uma grande piada em The Getaway. Rebaixado a terceiro plano, não há sequer uma performance deste que chame atenção, parece que seu papel é fazer as bases de bateria mais padronizadas possíveis. Talvez seu maior destaque fique com This Ticonderoga, faixa que banca a “pesada sem causa”, fazendo riffs distorcidos e bateria acelerada apenas por fazer, já que claramente não consegue tirar o ouvinte da zona de conforto. Ao invés disso, acaba soando a faixa mais deslocada do álbum.

Já na primeira audição e partindo do conhecimento que o produtor por trás de The Getaway é Danger Mouse, fica bem claro a busca do grupo por algo mais “comercial”. Entretanto, se o produtor obteve sucesso nessa empreitada por trás de bandas como The Black Keys e U2, aqui definitivamente não dá certo, rumando por baladas monótonas, pouco dinâmicas e repetitivas. As duas últimas faixas exemplificam isso – The Hunter e Dreams of a Samurai. O ouvinte chega cansado ao fim do disco só para se deparar com o pior momento deste. Duas baladas leves, de arranjo barato, sem atitude ou qualquer fator instrumental que prenda atenção. A construção de ambas até sugere um momento onde tudo desaguará em um refrão bom e explosivo. Pena que isso não acontece.

Com uma presença mínima de funk, linhas de baixo fracas e arranjos tediosos, The Getaway decepciona bastante. Se o Red Hot Chili Peppers havia sido criticado pela sua abordagem excessivamente pop/comercial no também fraco I’m With You, ao menos lá eles fizeram de forma sincera e coesa. Já nesse novo trabalho, não há muito o que salvar além de alguns pares de canções razoáveis. Se o título “The Getaway” é traduzido como “fuga, rápido abandono”, muita coisa diz sobre o grupo atualmente e sua fidelidade a seu som.

Aumenta!: Dark Necessities
Diminui!: The Hunter

The Getaway
Artista: Red Hot Chili Peppers
País: Estados Unidos
Lançamento: 12 de junho de 2016
Gravadora: Warnes Bros
Estilo: Rock Alternativo, Funk Rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.