Crítica | The Ghost in the Shell (Mangá)

estrelas 3,5

Ao longo da história das animações japonesas tivemos alguns exemplos de obras que conseguiram sair do nicho dos fãs de anime, alcançando um lugar de destaque na cultura pop. Os filmes do Studio GhibliAkiraPaprika são alguns desses exemplos, marcados por técnicas de animação e narrativas marcantes e universais. Ghost in the Shell, mais especificamente sua adaptação de 1995, O Fantasma do Futuro faz parte dessas produções agraciadas pelo público ocidental, chegando, inclusive, a inspirar as irmãs Wachowski a realizarem Matrix. O mangá que originou o longa-metragem, porém, não ficou tão conhecido por aqui, sendo objeto de leitura mais pelos fãs de sua adaptação.

Escrito e ilustrado por Masamune Shirow, o mangá acompanha a Major Motoko Kusanagi, uma andróide líder de um grupo de contra-terrorismo cibernético. Ambientado em um cenário tipicamente cyberpunk, dominado por grandes corporações e habitado por pessoas que se conectam ao ciberespaço através de  cabos inseridos na nuca, a obra certamente é uma das mais marcantes desse subgênero da ficção científica, que fora popularizado através dos livros de William Gibson (principalmente Neuromancer) e outros autores. Ao longo das 352 páginas do mangá, acompanhamos essa equipe combatendo casos de terrorismo cibernético, muitos dos quais parecem estar ligados a uma figura conhecida como o Puppet Master.

O motivo pelo qual o mangá de Shirow jamais alcançou a popularidade de sua adaptação cinematográfica é bastante evidente desde as primeiras páginas. De imediato o leitor é arrebatado por uma quantidade imensa de informações, com balões de fala que preenchem os quadros de tal forma que essa se torna uma leitura mais lenta. O problema disso é que a trama rapidamente se torna muito confusa, a tal ponto que precisamos filtrar o que realmente impacta o desenvolvimento da trama. The Ghost in the Shell certamente não é uma leitura fácil e requer do leitor muita concentração.

Isso não quer dizer, contudo, que estamos diante de uma péssima história ou algo assim. O roteiro do mangaka explora a fundo esse fascinante universo cyberpunk, claramente se apoiando em conceitos de autores como William Gibson e Philip K. Dick, além de imprimir sua própria visão filosófica e sociológica em cada página. De início os grandes vilões são as corporações que se infiltraram na sociedade de tal forma que o governo se tornara uma marionete dessas, algo que é deixado claro pelas primeiras páginas. A Major Kusanagi funciona como o retrato da liberdade, a figura punk do cyberpunko elemento que não é regrado nesse futuro distópico e que, muitas vezes, age de forma espontânea, se destacando de tudo à sua volta.

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A arte, também de Shirow, perfeitamente simboliza isso através das expressões faciais da protagonista. Apesar de ser uma andróide, ela pode ser definida claramente pelas emoções que tão claramente demonstra em seu rosto. Da simples risada até um soco na cara de um político nos identificamos com sua postura mais rebelde, que, por si só, traz “cor” à história. Infelizmente, Masamune acaba perdendo nossa imersão inúmeras vezes ao nos trazer páginas repletas de informações visuais, que, junto dos conceitos introduzidos nas falas, tornam a leitura ainda mais confusa, a tal ponto que somos forçados a reler determinadas páginas para entender o que está acontecendo.

Curiosamente, algumas dessas páginas confusas se configuram como as belas, em geral quando retratam uma ação contínua. Nesse ponto automaticamente retemos a leitura somente para apreciar o traço, que dispensa a pasteurização com a qual estamos acostumados nos quadrinhos atuais (sejam os orientais ou ocidentais). Dito isso, cada personagem pode ser facilmente reconhecido pela sua aparência, que muito se diferencia do outro. Estamos falando de uma arte bastante característica dos anos 1990 quando se tratá de mangás e não há como não enxergar as similaridades com outras obras, como o clássico Evangelion.

As cores, que em geral se fazem presentes nos inícios de cada capítulo, ao menos na edição lida por mim, reforçam a identidade visual desse mundo, muitas vezes se apoiando em tons de azul e cinza, além do uso do vermelho para denotar a violência presente em determinados quadros. Por vezes, o excesso de cores também prejudica nossa leitura, garantindo um elemento a mais para nossos olhos se acostumarem – a leitura das páginas em preto e branco é consideravelmente mais fluida. Felizmente não é algo que atrapalhe muito a leitura, especialmente quando já nos acostumamos com os conceitos introduzidos lá pela metade do mangá.

Por mais que não seja uma leitura nada fácil e que esteja aquém da adaptação para anime de 1995, a obra de Masamune Shirow certamente merece ser lida pelos apreciadores do bom e velho cyberpunk. Com seu evidente valor marcado pela visão filosófica e sociológica de seu autor, com menções claras a outras obras do gênero, The Ghost in the Shell consegue captar a atenção de seu leitor rapidamente e, mesmo com as constantes quebras de imersão, proporcionadas pela narrativa confusa, conseguimos nos sentir próximos de sua protagonista, que se destaca nesse futuro distópico, que não está tão longe assim de nossa própria realidade.

The Ghost in the Shell — Japão, 1989
Roteiro:
Masamune Shirow
Arte:
Masamune Shirow
Editora (no Japão): 
Kodansha
Editora (no Brasil): 
JBC Mangás
Páginas: 
352

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.