Crítica | The Gifted – 1X01: eXposed

  • Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

A segunda série da Fox no Universo Cinematográfico Mutante não tem nem de longe a originalidade e a qualidade de roteiro, a beleza da direção de arte e a precisão da fotografia que Noah Hawley esbanja em Legion, mas isso não faz de The Gifted uma série que pode ser simplesmente descartada como apenas mais uma dentre tantas outras de super-heróis que existem por aí. Justamente ao não reinventar a roda e ao trabalhar bem os clichês do sub-gênero é que a série comandada por Matt Nix, que também escreveu o episódio, deslancha imediatamente.

Mergulhando de cabeça e sem vergonha no que poderia ser chamado de estrutura convencional, o roteiro não perde tempo em primeiro nos apresentar a um movimento clandestino mutante que tem como objetivo recolher pessoas com o gene X, impedindo seu aprisionamento pela polícia, ou, pior ainda, pelo Sentinel Services, em um mundo em que manifestar poderes dessa natureza é muito perigoso. Já na ação inicial, que coloca Marcos Dias ou Eclipse (Sean Teale), Lorna Dane ou Polaris (Emma Dumont) e John Proudstar, o Pássaro Trovejante (Blair Redford) resgatando Clarice Fong, conhecida como Blink (Jamie Chung), ganhamos uma visão clara de como a lógica da série funcionará, além de uma bela demonstração de CGI e outros efeitos para retratar os poderes do pequeno grupo, o que deixa evidente os esforços da produção em realmente fazer de The Gifted uma parte relevante do universo mutante da Fox, com direito a menções explícitas aos X-Men, que estão sumidos, e à Irmandade de Mutantes. E isso sem contar com o programa Sentinela materializando-se na citada agência governamental, que caça os “mutunas”, a música-tema da animação noventista dos X-Men e, claro, a ponta (sem graça, aliás) de Stan Lee.

No outro lado do espectro, somos apresentados à família Strucker: os pais Caitlin (Amy Acker) e Reed (Stephen Moyer, o eterno Bill, de True Blood), e os filhos adolescentes Lauren (Natalie Alyn Lind) e Andy (Percy Hynes White). Novamente, o roteiro distribui os clichês que esperamos, fazendo de Reed um promotor público especializado em colocar mutantes infratores atrás das grades e das crianças exatos opostos, com Lauren, bela e bem encaixada na sociedade e na escola, e Andy, tímido, desajustado e alvo preferido de valentões. Mas as peças são, todas elas, muito bem encaixadas e, apesar da velocidade vertiginosa do episódio piloto, nada parece efetivamente corrido ou fora do lugar justamente porque o bom aproveitamento do “padrão” estrutural de filmes e séries do sub-gênero a que nos acostumamos permite uma límpida e precisa compreensão do que se passa, ainda que isso apague qualquer semblante de surpresa ou reviravolta imprevisível. Se muito, há a manifestação dos poderes de Andy como se fosse um “negativo” do que acontece na icônica cena da formatura de Carrie, a Estranha e a revelação de que Lauren é uma “mutante no armário” há três anos.

A escolha da família Strucker como protagonista da série (ou pelo menos catalisadora da história) é ao mesmo tempo estranha e acertada. Estranha, pois o Barão Wolfgang von Strucker é um dos mais icônicos vilões do Capitão América nos quadrinhos, com uma versão de carne e osso tendo aparecido em Vingadores: Era de Ultron e um de seus filhos em Agents of S.H.I.E.L.D., o que pode trazer alguma confusão aos não iniciados. Aliás, vale lembrar que, nos quadrinhos, Strucker tem dois filhos gêmeos mutantes, a óbvia inspiração da série que – e aí vem o que reputo acertado – partiu para o uso de personagens das paginas das HQs, evitando invencionices. Mas fica claro, pelo menos até segunda ordem, que os Strucker de The Gifted não têm relação com os do Universo Cinematográfico Marvel.

Mas o importante mesmo é que o episódio inaugural vende muito bem o material, quase que emulando o que de melhor X-Men 2 tem. O muitas vezes odiado Bryan Singer usa sua experiência dando vida aos primeiros mutantes live-action e, no comando do episódio, carrega-o de um sem-número de eficientes sequências de ação que em momento algum permitem que o ritmo caia ou que o espectador desprenda-se do que está assistindo, por mais “comum” que a história possa ser.

É particularmente alvissareiro notar que a Fox não economizou nos efeitos especiais e que Singer soube empregá-los cirurgicamente, tendo até tempo para trabalhar uma sequência com “aranhas-sentinelas” que parece ter sido inspirada em Minority Report. Vê-se o capricho e a variedade das manifestações dos poderes mutantes e, para a alegria dos fãs, a fidelidade dos personagens retirados diretamente dos quadrinhos.

Ainda é cedo para julgar com clareza, mas The Gifted parece ser um presente para os fãs dos X-Men e de séries de super-heróis em geral. Ela e Legion mostram como o mesmo tipo de material pode ser trabalhado de maneiras completamente diferentes, gerando resultados muito positivos, cada um à sua maneira. Que venham mais mutantes perseguidos!

The Gifted – 1X01: eXposed (EUA, 02 de outubro de 2017)
Criação e showrunner: Matt Nix
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Matt Nix
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Jamie Chung, Coby Bell, Emma Dumont, Blair Redford, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Garret Dillahunt, Jermaine Rivers
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.