Crítica | The Gifted – 1X02: rX

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

Ao mesmo tempo lidando com aspectos mundanos do dia-a-dia dos mutantes nesse mundo em que basicamente qualquer manifestação de poderes coloca os detentores do gene X na mira do Sentinel Services e com uma baita expansão da mitologia desse universo – que pode ou não ser o mesmo dos X-Men que conhecemos dos filmes, mas isso, na verdade, pouco importa – The Gifted mantém o pé no acelerador e continua mostrando a que veio. É raro uma série desse sub-gênero começar de forma tão segura e instigante.

Com Blink exaurida pelo uso de seus poderes ao final do episódio piloto, ela perde o controle sobre os portais que abre, ameaçando o movimento clandestino mutante. Se por um momento esquecermos as “luzinhas” roxas que saem da mão dela e que são irritantemente parecidas com a luz branca que sai da mão de Eclipse, foi uma ótima sacada trabalhar a materialização enlouquecida de portais, o que permitiu ao mesmo tempo a criação de um mistério que é bem detectador pelo Pássaro Trovejante – porque sempre para o mesmo local? – e, também, a inclusão orgânica de Caitlin, Lauren e também Andy na história.

Se Lauren fica como a mutante que contrabalança os poderes de Blink (podemos chamá-la de Garota Plástico Bolha?) e Andy como o cara que age quando tudo mais dá errado, Caitlin, mesmo sem poderes, mostra-se extremamente útil como enfermeira, além de um belo jogo de cintura para se adaptar à desesperadora situação. Sua parceria com Marcos no hospital aprofunda a visão dos detalhes desse mundo em que os mutantes são realmente tratados como cidadãos de segunda categoria.

Arriscaria a dizer que a forma como o roteiro do showrunner Matt Nix apresenta essa panorama bem humano, realista e prático da segregação genética é o melhor tratamento que o assunto já teve até hoje, levando-se em consideração os longas da Fox e também Legion, da FX. Claro que os diálogos acabam descambando discretamente para um lado expositivo que pode incomodar, mas considero importante que isso seja feito assim logo, para colocar todos os espectadores no mesmo nível de conhecimento dessas premissas, algo que nem todo mundo necessariamente acompanha. Além disso, a direção de Len Wiseman, que não se perde e evita transições bruscas entre núcleos, mantém a coesão narrativa, só perdendo força com a presença perdida e didática da mutante ruiva que tem diversas altercações breves com John Proudstar, apenas para nos explicar o que está acontecendo, mas que não é nada assim tão sério a ponto de realmente prejudicar o aproveitamento do episódio.

Claro que os paralelos com o nosso próprio mundo – esse sempre foi o objetivo por trás da criação dos X-Men –  ficam automaticamente escancarados, mais contundentemente no que se refere à inação de Caitlin por toda sua vida, mesmo testemunhando a forma como os mutantes são tratados, algo que é também abordado no preâmbulo-flashback em que somos apresentados à vovó Strucker (mais sobre isso adiante). Portanto, o jogo fica perfeitamente nivelado com esses artifícios do roteiro.

Paralelamente a isso e ratificando a existência do profundo preconceito anti-mutante nessa sociedade, vemos Polaris na prisão. A escolha de tirar a personagem da cela de acrílico e inseri-la em meio a prisioneiros comuns por meio de um colar inibidor foi ótima, pois permite a interação dela com as demais detentas e, ato contínuo, a demonstração de que ela não é bem vinda ali. Convenientemente, claro, o colar inibidor permite que os poderes dela sejam usados levemente, o que abre possibilidades futuras de resgate e que funcionam aqui para dar um jeito na chefe das valentonas, personagem particularmente má ao citar a gravidez de Lorna e chutá-la na barriga em seguida.

Outro belo momento na prisão é a desde já icônica sequência em que, no chuveiro, vemos a tinta preta do cabelo de Polaris escorrer, revelando seu marcante cabelo verde retirado diretamente dos quadrinhos. A última barreira que a mutante tinha e que a permitia se misturar aos humanos comuns desaparece, deixando-a ainda mais nua e completamente desprotegida. Não sei quanto tempo o suplício de Lorna durará, mas confesso que essa linha narrativa tipo Prison Break com mutantes me agrada bastante e não ficaria nada triste se ela continuasse por toda a temporada.

O terceiro vértice narrativo fica com o jogo mental de xadrez entre Reed Strucker, capturado ao final de eXposed, e o agente Turner. Já vimos esse tipo de trocas de farpas e ameças muitas vezes em séries procedimentais de TV e, também, em um sem-número de filmes, mas, mais uma vez, Matt Nix mostra que talvez seu poder mutante seja saber manipular com maestria os clichês e os personagens arquetípicos para gerar sequências que são reempacotadas e apresentadas como novas, perfeitamente inseridas dentro do contexto de seu trabalho, ao mesmo tempo em que ajudam a expandir os conceitos de seu universo. A menção a um “incidente” ocorrido no dia 15 de julho que matou a filha de Turner parece muito com o evento catalisador da saga Guerra Civil e também com o que levou ao fim de quase todos os mutantes conforme vemos em Logan. Não quero com isso dizer que o novo incidente seja uma coisa ou outra, mas sim que o roteiro procura fazer paralelos já conhecidos tanto do público de quadrinhos quanto dos filmes, o que ajuda na compreensão.

Aliás, falando em paralelos, é muito suspeito – no bom sentido – como Nix faz malabarismos para abrir espaço para a já citada vovó Ellen Strucker (Sharon Gless), com direito até mesmo à menção a seu (ex?)marido. Seria ele o mítico Barão von Strucker? E seriam os gêmeos que, no epílogo, Roderick Campbell (ou Ahab, personagem relacionado com Moira MacTaggart nos quadrinhos e vivido por Garret Dillahunt), diz que atuaram no Rio de Janeiro em 1962 e que em tese teriam ligação com os Strucker os filhos do Barão conforme os quadrinhos, ou seja, dois mutantes que atuam sempre em conjunto, meio que se complementando? Será que haverá um mistério dessa ordem no seio da família Strucker? Só o tempo dirá, mas fica aquela suspeita de coçar o queixo e que não deve demorar para ser desenvolvida ou soterrada de vez.

rX não só é um episódio unificador de narrativas, como é um expansor de mitologia. E isso sem perder o ritmo em momento algum, seja focando em Reed e Turner, Lorna e seu cárcere, Blink e Lauren ou Marcos e Caitlin. A habilidade do roteiro de manter todas essas peças em movimento merece toda a nossa atenção.

The Gifted – 1X02: rX (EUA, 09 de outubro de 2017)
Criação e showrunner: Matt Nix
Direção: Len Wiseman
Roteiro: Matt Nix
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Jamie Chung, Coby Bell, Emma Dumont, Blair Redford, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Garret Dillahunt, Jermaine Rivers, Sharon Gless, Garret Dillahunt
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.