Crítica | The Gifted – 1X04: eXit strategy

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

eXit strategy (alguma hora esses títulos começarão a ficar bem estranhos, se é que já não estão…) é o primeiro episódio de The Gifted que pode ser chamado de esforço de conjunto em torno de apenas uma linha narrativa, no caso o plano para libertar Reed e Polaris da prisão. De certa forma, ele até parece o clímax da temporada, apesar de acontecer antes de sua metade, mas isso não quer dizer muita coisa e, verdade seja dita, ainda bem que não é seu ponto alto.

Ao longo de praticamente metade de sua duração, o roteiro de Meredith Lavender e Marcie Ulin monta a estrutura da grande sequência de fuga orquestrada por Eclipse e Pássaro Trovejante, com a ajuda dos poucos voluntários da resistência, levando a uma execução que tinha tudo para ser explosiva, mas que, convenhamos, foi estranha, claudicante e confusa demais, quebrando o ritmo do episódio completamente em seu final. Todavia, a culpa não foi inteiramente da dupla de escritores, mas sim muito mais de Karen Gaviola que, apesar de sua vasta experiência em inúmeras séries de TV (mais recentemente em Lucifer e Grimm) erra feio na decupagem e entrega um desfecho frustrante.

No lado do roteiro, o problema desse clímax foi sua simplicidade. Ele exige que acreditemos que o transporte de dois prisioneiros de alta periculosidade (ok, um perigoso e o outro apenas importante) pela Sentinel Services ocorreria com um mero ônibus cercado de carros com agentes armados, sem suporte aéreo algum, sem mais daquelas aranhas-sentinelas que Andy destroçou ao final de eXposed e sem equipamento mais pesado do que algumas pistolas e metralhadoras, além de passando por vielas completamente ermas no meio de nada com coisa nenhuma. Depois, a inclusão do mutante Pulse (Zach Roerig) na história, a partir de um preâmbulo dois anos antes em que ele parece morrer, parece algo pensado no último segundo para aumentar momentaneamente o nível de dificuldade, mas acontece o óbvio: ele é nocauteado por John Proudstar e os mutantes fazem picadinho de Turner e seu grupo.

Mesmo que ultrapassemos os problemas narrativos que, como disse, são os menos importantes aqui, ainda há o lado da direção e da montagem que não sabe se decidir sobre o que mostrar. Depois que Andy e Lauren usam seus poderes para estourar o eixo do ônibus, praticamente a única cena coerente da segunda metade do episódio, o restante é como ver a versão de baixo orçamento de um filme de Michael Bay. Nada se encaixa com nada, com ações acontecendo aparentemente a poucos metros umas da outras, mas sem que um grupo veja o outro ou sem que uma sequência efetivamente se encaixe com a outra. O resultado das idas e vindas entre as subdivisões do grupo de resgate formadas em razão da demora dos irmãos Strucker em incapacitar o ônibus é uma baderna visual que desnorteia o espectador sem que esse tenha sido o objetivo do trabalho de Gaviola ou mesmo do roteiro. Perde-se fluidez e coerência com isso, tornando o grande momento de reunião dos personagens algo realmente difícil de assistir.

Mas, entre mortos e feridos, algumas coisas se salvam nessa segunda metade. Primeiro, a ação breve dos irmãos em campo, com Lauren provocando Andy para fazer com que ele consiga se concentrar, é muito boa e mostra um bom grau de entrosamento entre eles, ainda que a atuação de Natalie Alyn Lind esteja muito cheia de caras e bocas, além de um figurino que jamais denota que ela tem passado dias refugiada em local precário (basta comparar com o estado geral de Caitlin ou de Andy para notar a diferença). Depois, o momento catártico em que Polaris recupera seus poderes magnéticos e, usando o pino metálico da perna de Reed, derruba os policiais no ônibus, é excelente. Aliás, mais do que isso, tudo que envolve a personagem deste ponto em diante merece comenda por representar muito bem os poderes da heroína, seu grau de raiva e ameaça e por não fugir de uma certa violência.

Rebobinando um pouco, as sequências iniciais de reunião do grupo refugiado em seu quartel general são bem trabalhadas pela conclusão que foge do clichê da busca de voluntários para uma missão complicada. No lugar de todo mundo levantar a mão e ficar feliz em ajudar, aquilo que é mais provável – mas nunca é mostrado em filmes e séries – acaba acontecendo: quase ninguém se voluntaria. São mutantes, sem dúvida, mas nem todo mundo foi talhado para ser super-herói. Um artifício simples e inteligente do roteiro que funciona para humanizar os personagens e, também, claro, economizar dólares com a manifestação dos mais variados poderes.

Ainda que a contribuição estratégica de Caitlin seja a mais óbvia possível (atacar o transporte e não a prisão), algo que é inacreditável que mais ninguém tenha pensado, é bom ver que sua inserção na narrativa é constante e sempre relevante, de forma que a única humana nesse grupo é mantida organicamente. Será interessante ver se, agora com Reed, o casal será desenvolvido da mesma forma. Ainda na família Strucker, o aprendizado dos irmão sobre como melhor usar seus poderes gera bons momentos que fazem mímica do mesmo tipo de trabalho em dupla que os irmãos Strucker dos quadrinhos executam, ainda que como poderes diferentes. Isso muito provavelmente ainda será objeto de muitos desdobramentos na série, especialmente na medida em que o misterioso Roderick Campbell começar a trabalhar com Turner, o que, deve acontecer em breve depois do fiasco do transporte de prisioneiros.

No entanto, o destaque vai mesmo para a forma como Eclipse consegue as informações que precisa para salvar Polaris, o que funciona perfeitamente para abrir para nós as portas de seu passado violento com a máfia mexicana e seu relacionamento com Carmen (Michelle Veintimilla). Ali, vemos o lado mais sombrio de Marcos que, mesmo procurando refúgio em uma justifica nobre, aceita torturar alguém para conseguir as informações que sua ex-amante quer em troca do que ele deseja. Agora que ele voltou à sua antiga função, a série poderá trabalhar também esse seu lado e seu “cargo” de capanga da máfia, o que pode e deve gerar tensão com Polaris (o que é ótimo, pois, assim, evitam-se mais auroras boreais…).

eXit strategy foi, portanto, um episódio de altos e baixos, começando muito bem, mas caindo vertiginosamente exatamente quando precisou lidar com a esperada e tão bem construída ação de resgate. A série continua levemente acima da média, mas, com dois episódios seguidos menos do que ideais, ela, talvez cedo demais, já comece a mostrar sinais de cansaço. Mas ainda há muito tempo para que ela se recupere.

The Gifted – 1X04: eXit strategy (EUA, 23 de outubro de 2017)
Criação e showrunner: Matt Nix
Direção: Karen Gaviola
Roteiro: Meredith Lavender, Marcie Ulin
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Jamie Chung, Coby Bell, Emma Dumont, Blair Redford, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Garret Dillahunt, Jermaine Rivers, Sharon Gless, Garret Dillahunt, Elena Satine, Jeff Daniel Phillips, Hayley Lovitt, Zach Roerig, Michelle Veintimilla
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.