Crítica | The Gifted – 1X07: eXtreme measures

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

eXtreme measures é um episódio de pausa e rearrumação do baralho de possibilidades da série. E, para isso, o roteiro de Michael Horowitz desenvolve – ou tenta desenvolver – quatro histórias razoavelmente separadas que, porém, não são exatamente harmônicas, ainda que, em seu conjunto, resultem em mais um sólido trabalho do showrunner.

Em uma das histórias, talvez a melhor, temos a revelação do porquê Clarice, quando estava tendo convulsões descontroladas em rX, abria portais sempre para o mesmo lugar. John vai atrás dela e, quando a encontra, ajuda-a a rastrear o local, encontrando uma espécie de orfanato para mutantes que não podiam passar por humanos que a acolhera. Trata-se de um momento forte, revelando que, de certa forma, suas lembranças felizes do local, que a fizeram inadvertidamente focar seu poder ali, levou à morte do casal que comandava o local, agora trancado e crivado de balas, com sangue ainda no chão. Jamie Chung, mesmo com aquela irritante lente de contato verde (já disse e repito: a produção tinha que arrumar uma solução melhor para isso, talvez um leve CGI), consegue nos entregar uma bela e potente atuação que  realmente passa o choque e a tristeza de ver seu passado ser estilhaçado. Blair Redford, que, apesar de sempre receber atenção das câmeras, nunca realmente havia mostrado grande latitude interpretativa, tem uma ótima oportunidade para mostrar seu trabalho e, aqui, sua química com Chung torna-se evidente, em um claro começo de um efetivo relacionamento entre seus personagens.

Essa volta ao passado também é o que move o núcleo dos Strucker, mais especificamente o de Lauren e seu crush Wes, codinome Garoto National Geographic. Reed, pai ciumento (com quem simpatizo 100%, só para ficar claro), ao examinar a documentação que roubaram no episódio anterior, encontra as fichas criminais de diversos mutantes, um deles sendo Wes e sai para confrontar sua filha e, depois, o rapaz. O problema dessa linha narrativa é que ela simplesmente não convence. Em nenhum momento ficou sequer  subentendido que o garoto havia escondido essa informação de Sage e, quando ele é confrontado por Lauren, a exigência que ela faz não tem cabimento. Em que circunstâncias, afinal de contas, um começo de um hesitante relacionamento ditaria que as partes devem ser livros completamente abertos sobre todo o seu respectivo passado mesmo quando o assunto não foi objeto de conversas? Seria como começar a namorar alguém listando todos os seus casos anteriores, com nome, telefone e endereço de cada pessoa. Aqui, o roteiro força um drama que simplesmente não existe e, ainda por cima, ao final, elimina Wes da equação ao defenestrá-lo, do nada, para outro abrigo mutante.

O mesmo pano de fundo é que assombra Marcos, que não só fora amante de Carmen, a filha do traficante de drogas local, como, também, seu capanga-mor. A moça, agora chefona do crime, começa a cobrar o preço pelo favor que fez a Eclipse em eXit stragegy, arregimentando-o para incinerar um carregamento rival. A questão que me incomodou nesse núcleo foi a missão dada ao mutante. Afinal, o mesmo fim poderia ser alcançado de várias outas maneiras, sem que fosse necessário se dar ao trabalho de chamá-lo. De toda forma, quer parecer que o que Carmen quer mesmo é criar fricção entre seu ex-amante e a Garota Magneto, como ela chama Polaris, o que claramente funcionou, considerando a fúria incontida da jovem de cabelos verdes ao final. Esse conflito, portanto, diferente da bobagem que foi o de Reed, Lauren e Wes, mostra não só uma boa construção, como um bom potencial futuro de fragmentação da Resistência, especialmente considerando o sorrisinho de prazer que vemos Eclipse dar quando faz sua pirotecnia, sem nem mesmo se afastar do beijo que ganha de Carmen em seguida.

A quarta linha narrativa é a única que não lida diretamente com a temática do passado, ainda que ouçamos a voz da filha de Jace Turner atormentá-lo no corredor do Sentinel Services. Teria sido muito simples se o roteiro embarcasse direto no pareamento de Turner com o vilanesco Dr. Roderick Campbell a partir dos trágicos acontecimentos de boXed in, pelo que é alvissareiro notar que houve um esforço para cadenciar as coisas, evitando que Turner se virasse radicalmente para o “mal” de uma hora para outra. Com a tentativa de se segurar o plano de Campbell de colocar mutantes controlados por ele em campo, ganhamos um exato panorama do que ele está disposto a fazer para alcançar seus objetivos ainda escusos, com um final – naquela sala cheia de mutantes-zumbis – que promete uma batalha explosiva em algum momento da temporada.

E, claro, foi muito interessante como outro grande nome da mitologia mutante foi jogado na série. Agora foi a vez de Bolivar Trask (vivido por Peter Dinklage em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido) que é indiretamente mencionado quando Sage finalmente decodifica a informação no pendrive e descobre que a Trask Industries é a empresa terceirizada pelo governo para lidar com a ameaça mutante. Será que veremos o próprio Trask na série? Mesmo que não o vejamos, será particularmente interessante ver como isso será encaixado com a outra revelação do episódio: que o pai de Reed trabalhou lá por 35 anos. Essa é a deixa, possivelmente, para o aprofundamento no passado da família, talvez chegando no famigerado Barão von Strucker e nos já anunciados gêmeos originais dos quadrinhos.

Apesar das oscilações de qualidade dos núcleos trabalhados aqui, a direção de Stephen Surjik preza pela compartimentalização, evitando saltos de um lado ao outro, o que de certa forma pode ser visto como uma abordagem mais burocrática das histórias. Tenho para mim, porém, que foi a escolha acertada para permitir o desenvolvimento mais fluido de cada uma das narrativas, mesmo com seus defeitos pontuais. Como não é um episódio que foca na ação e sim em histórias pessoais que armam desenvolvimentos futuros, o vai-e-vem entre cada núcleo tenderia a desnortear o espectador.

eXtreme measures é mais um bom episódio de The Gifted, que vem mostrando que Matt Nix parece ser realmente incapaz de errar feio. Espero não morder a língua, mas a segunda série mutante do grupo Fox parece ter vindo para ficar, fincando seus alicerces no que pode ser um grande futuro para os portadores do gene X nas telinhas.

The Gifted – 1X07: eXtreme measures (EUA, 13 de novembro de 2017)
Criação e showrunner: Matt Nix
Direção: Stephen Surjik
Roteiro: Michael Horowitz
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Jamie Chung, Coby Bell, Emma Dumont, Blair Redford, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Garret Dillahunt, Jermaine Rivers, Sharon Gless, Garret Dillahunt, Elena Satine, Jeff Daniel Phillips, Hayley Lovitt, Zach Roerig, Michelle Veintimilla, Danny Ramirez
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.