Crítica | The Gifted – 2X02: unMoored

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

Depois de tentar começar de forma explosiva e só conseguir um episódio inaugural bastante aguado e morno, ainda que longe de ruim, The Gifted traz unMoored que, mesmo sem ter quase ação, se vale de uma narrativa muito mais honesta e voltada para o lado psicológico e sentimental dos personagens. É, diria, o verdadeiro início da temporada.

Começando com um flashback que nos faz lembrar de Wolverine no primeiro X-Men, vemos Pássaro Trovejante ser recrutado para o Mutant Underground pela advogada mutante e mãe dos dragões Evangeline (Erinn Ruth), que já havia sido apresentada com a mesma função em relação a Polaris, o roteiro de Rashad Raisani é muito hábil em trafegar por todos os núcleos que maneira substancial e equânime, com a direção de Steven DePaul tornando essa navegação fácil e fluida, sem solavancos. Se o drama passado de John Proudstar dá mais tempero ao seu presente e à sua relação com Blink e também com Evangeline, abrindo a porta para a introdução de Erg (nos quadrinhos, membro dos Morlocks, grupo de mutantes rejeitados que se esconde nos esgotos), vemos o seio da família Von Strucker despedaçar-se, com Caitlin obcecada em ter seu filho de volta, Reed desconcertado ao ser acusado de “preferir” sua filha, Lauren dividida entre querer e temer seu irmão ao seu lado e, finalmente, Andy tendo que lidar com as dúvidas sobre sua lealdade ao Inner Circle, que impede o uso eficiente de seus poderes. E isso sem falar de Eclipse, que luta para manter sua compostura diante da falta de notícias de Lorna e de sua filha Dawn, o que resulta em um bonito – ainda que levemente brega – momento final em que sua luz filtrada pela garrafa da Champagne que bebera com Caitlin, sirva de “bat-sinal” para Polaris.

É perceptível o equilíbrio dramático dado a todos, com Reeva também lutando contra seu impulso de eliminar Andy diante de sua percebida traição, mas sabendo do valor do garoto para seu plano seja lá qual ele seja. Confesso que fiquei curioso para saber exatamente como ela mataria Andy ali no quarto dele, mas creio que esse embate – que certamente virá – só será visto mais para o final. Houve tempo até mesmo para lidar com dúvidas vindas de ninguém menos do que Esme, a irmã Stepford que se infiltrara no grupo de John e Marcos na temporada anterior. Ver Skyler Samuels triplicada é sempre uma diversão e, aqui, o uso do poder telepático das três, com a comunicação silenciosa entre elas, foi particularmente inspirado, assim como a sequência em câmera lenta em que elas aparecem no aeroporto para livrarem-se de uma nada discreta ponta solta do parto que vimos em eMergence.

E como eu poderia me esquecer de Jace Turner, ex-Sentinel Services, mas ainda incapaz de livrar-se de sua vontade de caçar mutantes. Mesmo ensaiando um retorno à ação no próprio episódio, ao final vemos que sua tentativa de reconstruir a família ainda fala mais alto, o que, arrisco dizer, prenuncia algum tipo de nova desgraça para trazê-lo ou como vilão mais uma vez ou, talvez, que sabe, como aliado do grupo rebelde contra a ameaça maior do spin-off do Clube do Inferno.

Com isso, o elenco tem espaço para brilhar, o que gera resultados naturalmente desequilibrados, já que nem todos têm a latitude dramática necessária para cumprir bem seus papeis. Se Stephen Moyer se segura bem como um Reed dividido entre liderar o grupo e cuidar de sua família, com seus poderes latentes manifestando-se fortemente (quero ver ele explicar o que ele fez com o arquivo e com a parede, em um bom momento de CGI, aliás), o mesmo não pode ser dito de Natalie Alyn Lind, que continua parecendo o estereótipo da loira burra, e de Amy Acker, que parece não conseguir separar bem intensidade de histeria. Ainda na ala feminina, por outro lado há Grace Byers que está muito bem ao dosar o que parece ser genuína preocupação com sua causa e com seus peões e uma frieza capaz de qualquer coisa e a já citada Skyler Samuels praticamente perfeita como vilã(s) sinistra(s) ao mesmo tempo que leve alívio cômico. Está faltando a temporada abrir mais espaço para Emma Dumont, mas tenho certeza de que ele virá em breve.

Percy Hynes White vem aos poucos ficando razoavelmente melhor como Andy, mais encaixado em seu papel, mas, aqui, o ator é prejudicado pela versão completamente sem tecnologia da Sala do Perigo. Se o pouco CGI que vimos com Reed funciona, é uma surpresa notar com os efeitos práticos das destruições das barreiras são tenebrosos, dignos de Ed Wood. E isso sem contar com a ridícula necessidade de Andy sair correndo na direção das paredes, algo que faz tanto sentido como ser arremessado do topo de um prédio para ver se o poder de voo funciona. O mais surreal é que vemos essa sequência constrangedora não uma, não duas, mas três vezes no intervalo de 45 minutos…

unMoored estabelece o que espero seja o tom da temporada, com foco em desenvolvimento de personagens e com abertura de espaço para a ampliação da mitologia com a chegada dos Morlocks, sem tentar esgarçar o orçamento com efeitos especiais que fatalmente desapontarão. O caminho parece estar bem pavimentado. Agora é executar o plano.

The Gifted – 2X02: unMoored (EUA, 02 de outubro de 2018)
Criação e Showrunner: Matt Nix
Direção: Steven DePaul
Roteiro: Rashad Raisani
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Coby Bell, Jamie Chung, Blair Redford, Emma Dumont, Skyler Samuels, Grace Byers, Hayley Lovitt, Jeff Daniel Phillips, Erinn Ruth
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.