Crítica | The Gifted – 2X05: afterMath

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

Depois do ótimo outMatched, The Gifted esfria novamente com afterMath, que, como o título deixa evidente, lida com as consequências do ataque ao hospital psiquiátrico empreendido pelo Inner Circle. Com isso, o roteiro de Melissa R. Byer e Treena Hancock divide o episódio em quatro núcleos distintos: a mutante abduzida do sanatório por Polaris e Andy no quartel general de Reeva, Blink e Eclipse nos esgotos tentando convencer Erg, líder dos Morlocks, a receber os sobreviventes do ataque, Pássaro Trovejante e Caitlin lidando com os mutantes feridos no hospital e, finalmente, Jace reunindo-se com os Purificadores. Apenas os dois últimos núcleos ganham aproximação narrativa, mas nenhum deles realmente empolga ou avança a trama de maneira significativa.

Se o lado negro de Caitlin despontou brilhantemente no episódio anterior, fazendo a série caminhar para uma interessante direção muito pouco explorada em séries de super-herói, agora ele é quase que literalmente esquecido, como se a manipulação, tortura e consequente sacrifício de Graph nunca tivesse acontecido. É bem verdade que a confusão que se instala no hospital impede momentos reflexivos, mas o roteiro parece fazer todo o esforço possível para varrer o que ocorreu para debaixo do tapete o mais rápido possível, trocando um belíssimo momento traumático pelo caos mutante.

Por outro lado, a forma como o mutante que secreta ácido é utilizado dentro da narrativa funciona bem até certo ponto. O drama criado pela situação inusitada coloca uma questão muito interessante que também é pouco vista até mesmo nos quadrinhos: e os mutantes ou super-seres em geral com poderes absolutamente inúteis? O Anjo, que é um humano comum que só voa com asas de passarinho, é o exemplo quase que único nessa categoria. Para ele tornar-se relevante e ter sua presença possível em linhas narrativas cada vez mais repletas de seres realmente superpoderosos, ele teve que passar por transformações radicais, normalmente relacionadas com suas asas. O caso do mutante que sua ácido, o prolema vem muito bem à tona, criando enorme dificuldade no seu tratamento, já que ele derrete as camas e equipamentos e queima quem tocá-lo. John Proudstar é o único que, a um alto custo pessoal, consegue ajudá-lo, ainda que isso só atrase o inevitável a tempo de ele falar um pouco sobre Rebecca, a mutante cobiçada pelo Inner Circle.

A chegada de Jace e dos Purificadores ao hospital foi francamente o ponto mais baixo do episódio, pela aleatoriedade como a coisa acontece. Bastou Jace ir para a primeira reunião dos Caipiras Anônimos e soltar umas três palavras de ordem que pronto, todos passaram a ficar sob seu comando e a acertar de cara o local onde os mutantes estavam escondidos, como se andar armado em Washington D.C. fosse a coisa mais tranquila do mundo. Confesso que me senti vendo um filme amador nesse momento e senti pena de Coby Bell nesse papel, até porque tinha grandes esperanças para a queda completa do personagem. Se os Purificadores serão esse bando de mané batendo cabeça (não que eles não sejam manés nos quadrinhos, que fique claro!) pela série, talvez seja o caso de fazer Jace voltar ao Sentinel Services.

Falando em Sentinel Services, onde é que eles estão? Quer dizer que, com Jace fora, eles deixaram de existir? E o que foram esses protestos pró-mutante pelo mundo catalisados instantaneamente pelo ataque ao hospital? Tudo ficou jogado no ar e fácil demais. Mesmo que o Inner Circle tenha manipulado as informações, achei um exagero imenso essa abordagem que ficou no pano de fundo do episódio.

As sequências no esgoto, por outro lado, foram bem mais interessantes do que as do hospital. O conceito de uma comunidade orgulhosa do que é vivendo à margem da sociedade é algo atual e importante de ser comentado em uma série marginalmente sobre os X-Men. Por outro lado, o fanatismo de Erg levanta sobrancelhas e causa repulsa. Quer dizer que, para ser abraçado pela comunidade – que, notem bem, é a única salvação para os foragidos do hospício – os mutantes que não demonstrem ser mutantes fisicamente precisam marcar seus rostos? A correlação imediata que fiz foi com a obrigação, na Alemanha nazista de os judeus usarem a estrela de Davi costurada nas mangas de suas roupas. Essa é, definitivamente, uma maneira muito estranha de mostrar o orgulho de uma raça. No entanto, a abordagem sombria das sequências com Erg e sua conexão com Blink (finalmente batizada com esse nome!) funcionaram muito bem e tem potencial para serem exploradas em futuro próximo em que sinceramente espero ver os Morlocks lado-a-lado com a resistência mutante.

Finalmente, do lado do Inner Circle, descobrimos que a nova mutante, Rebecca, depois que Andy se esforça para tratá-la como gente, tem o poder de “inverter” as coisas, ou seja, de colocar o que está dentro para fora e o que está fora para dentro. Apesar de original o poder (confesso que não me lembro de qualquer correlação com os quadrinhos), achei-o desapontador e espero que o plano misterioso de Reeva realmente justifique toda a importância que Rebecca parece ter. Aliás, a personagem, vivida muito bem por Anjelica Bette Fellini, que empresta uma aparência frágil à jovem, com certeza esconde algum tipo de sociopatia que pode ter sido causada pela sua permanência no sanatório, mas que me parece ser inata. Afinal, sua alegria em “inverter” o carro de polícia e, depois, fazer Andy explodi-lo, não pode ser normal e provavelmente é a ponta do iceberg para futuros conflitos, inclusive – e meu lado sádico torce por isso – o uso dos poderes em um humano…

AfterMath é, no final das contas, burocrático demais ao tentar abordar todos os núcleos ao mesmo tempo, não dando espaço para maiores desenvolvimentos que seriam necessários em todos eles, especialmente no que se relaciona com Caitlin e Jace. A série dá um passo atrás e, espero, que seja para respirar um pouco e engatar de vez na linha narrativa que esboçou no episódio anterior. Ainda é uma série que permanece acima da média, mas que precisa ser mais do que isso para ser realmente memorável.

The Gifted – 2X05: afterMath (EUA, 30 de outubro de 2018)
Criação e Showrunner: Matt Nix
Direção: Scott Peters
Roteiro: Melissa R. Byer, Treena Hancock
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Coby Bell, Jamie Chung, Blair Redford, Emma Dumont, Skyler Samuels, Grace Byers, Hayley Lovitt, Jeff Daniel Phillips, Erinn Ruth, Michael Luwoye, Adam David Thompson, Tom O’Keefe, Anjelica Bette Fellini
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.