Crítica | The Good Fight – 1ª Temporada

Diante do anúncio do resultado das eleições presidenciais de 2016, uma mulher muito bem vestida assiste com desgosto a notificação dos resultados. Trump, isto mesmo, o representante da extrema direita estadunidense venceu Hilary Clinton nas eleições e será o mais novo e polêmico presidente dos Estados Unidos. Indignada, a elegante personagem, num contido rompante de raiva esbraveja: “merda”. E assim, começamos a primeira temporada de The Good Fight, spin-off da premiada e bem sucedida The Good Wife, série em sete temporadas que nos ofertou o drama de uma esposa que precisou reconstruir a vida depois dos escândalos políticos envolvendo o marido.

The Good Fight é uma série da Era Trump. Mas, afinal, do que se trata essa era que tantos falam? Com posse em 20 de janeiro de 2017, Donald Trump, 45º presidente dos Estados Unidos adentrou o terreno da política para colocar em prática os anseios da extrema direita em todo continente americano. Seus comentários sobre o Haiti, El Salvador e os países africanos, a desnecessária necessidade de comprovação de poder nos embates com a Coreia do Norte, bem como a saída do Acordo de Paris, a questão da imigração e os posicionamentos machistas e racistas são apenas a ponta da cauda longa que o “garoto problema estadunidense” representa.

Com ego inflado e seu discurso que ecoa os interesses das classes dominantes, Trump é a reminiscência de Reagan, Bush e George W. Bush. Não há nada de novo em seu discurso e posicionamento, representado por uma única figura humana que não esqueçam, é o arauto de um grupo de pessoas interessadas na redistribuição de riqueza do fundo para o topo, no falso conservadorismo e na perpetuação de valores unicamente patriarcais, demarcados pela constante violência simbólica. The Good Fight critica todos os aspectos mencionados, de maneira nada discreta, mas também se apelar aos histerismos do panfleto.

A personagem atarantada com o resultado das eleições, para os que conhecem o universo da série ponto de partida, é Diane Lockhart (Christine Baranski), uma das figuras centrais do programa. Ela está decidida a se aposentar, mas um golpe vai fazê-la mudar de planos. Depois de descobrir que foi golpeada por um esquema corrupto que a fez perder todas as economias, a advogada precisa se reinventar. Os danos e estresses de The Good Wife estão de volta, pelo menos inicialmente, o que não temos é apenas a presença de Alicia Florick (Julianne Margulies), personagem que é citada rapidamente.

Diante da situação exposta, Lockhart segue para a Reddick e Boseman, empresa que será seu novo lar. Majoritariamente erguida por profissionais afroamericanos, o local é uma representação das discussões contemporâneas sobre a necessidade de se questionar a supremacia branca no mercado de trabalho. Outra questão é a presença feminina. A mulher negra. A mulher lésbica. No geral, um programa que adentra na seara das discussões raciais e de gênero, sem perder vigor estético e qualidade narrativa, pois infelizmente, muitas produções que focam nas discussões políticas e sociológicas acabam deixando de lado os elementos estéticos, preocupadas cegamente com a denúncia, isto é, puramente focadas no panfleto.

Em seu papel de mentora, Lockhart vai ter que agir com muita paciência com Maia Rindell (Rosie Leslie), garota recém-formada em Direito, cheia de esperança para brilhar na carreira, mas que infelizmente terá de lidar com o esquema de corrupção do seu pai, um homem que colocou tudo a perder para si e para muitos outros. Perseguida nas ruas, no trabalho e nas infâmias que chegam por e-mails e aplicativos, a jovem terá a sua vida colocada em risco constantemente, além de ter que responder aos questionamentos intrusivos e implacáveis da polícia federal. O fio narrativo condutor da primeira temporada, por sinal, está centralizado no drama de Maia e em seu reestabelecimento social. Ela vai contar com Diane e Mr. Boseman para conseguir se reajustar.

Adrian Boseman (Delroy Lindo) é um dos sócios mais centrais do escritório. Ele recebe Diane Lockhart e permite que a competente advogada caminhe pelo terreno ainda pantanoso, espaço que também resgata outras duas personagens de The Good Wife: Lucca Quinn (Cush Jumbo) e Marissa Gold (Sarah Steele). Enquanto a primeira precisa manter-se equilibrada e firme diante dos problemas que refletem a sua condição de mulher negra numa área predominantemente machista, isto é, o campo do Direito, a segunda, no lugar de coadjuvante, cresce num ritmo vertiginoso e alcança o merecido patamar nos episódios finais, ao ocupar o lugar de investigadora e secretária de Diane, sempre com boas ideias quando o lance é pesquisa, inovação e métodos de análise de provas para julgamentos.

Como a maioria das séries contemporâneas, situadas em grandes centros urbanos, há diversos personagens que ocupam locais importantes no mapa narrativo, mas que aparecem com menor frequência. O promotor Colin Morello (Justin Bartha), o indeciso advogado Julius Cain (Michael Boatman) e o investigador Jay Dispersia (Nyambi Nyambi) estão dentro deste segmento.  Eles são alguns dos homens que habitam esse universo com figuras femininas donas de seus próprios discursos.

Criada por Michelle King, Robert King e Phil Alden Robinson, The Good Fight possui um exército de bons roteiristas, dentre eles, Joey Martstone, Tegan Shohet, Marcus Dalzine, Ryan Pedersen, Aurin Squire, escritores que entregaram seus textos ao time de diretores da temporada, formado por Jim Mckay, Broke Kennedy, Ron Underwood, Allan Arkush, Marta Cunnigham, So Yong Kim.  Alguns vícios da era Alicia Florick não foram superados, mas a série aos poucos vai de encontro ao bom tom, reverberado nos dez episódios da primeira temporada.

Por meio dos escritórios erguidos pela equipe de Stephen Hendrickson, designer de produção da série, os personagens circulam diante dos seus conflitos que gravitam em torno de assédios, problemas de segregação racial, violência urbana, problemas do ser humano diante do lado negativo da cibercultura, dentre outros problemas que fornecem os casos que os advogados precisam defender ou atacar, a depender do momento. Beth Kushnick, responsável pela cenografia, oferta espaços realistas e equilibrados para cada cena, trabalho em parceria com o eficiente departamento de Frank White III, profissional que assina a direção de arte. Os figurinos são um dos pontos mais altos, pois Daniel Lawson emula o campo do Direito através das representações simbólicas de cada peça vestida, bem como adereço associado ao corpo de seus personagens. Poder, imponência, sensualidade são alguns dos atributos reforçados pelos anéis, colares, relógios e sapatos altos que indicam a força e o poder de um elenco protagonista em sua maioria, feminino e feminista.

Guiados por um bom ritmo, a série oferta o espectador episódios com a média de 50 minutos de duração, mas nunca monótonos ou preenchido por informações desnecessárias, afinal, uma das qualidades do spin-off é ser direto, sem firulas, enrolações ou coisas do tipo. Richard Lowe, Allyson C. Johnson, Erica Freed Marker e Jake Cohen compõem a equipe de editores que sabe o momento certo de usar a montagem alternada, além de aplicar, sem burocracia e didatismo, a montagem paralela, recurso pouco comum no audiovisual contemporâneo.

Primeira série original da CBS All Acess, The Good Fight conta também com uma formidável direção de fotografia, assinada pela dupla formada por Fred Murphy e Tim Guinness, responsáveis por nos fazer adentrar na medida certa em cada ambiente fechado, sem deixar de contemplar com quadros mais abertos quando a narrativa carece de oxigenação para os personagens seguirem adiante com suas jornadas. Ainda no que tange aos elementos estéticos, a música de David Buckley funciona bem, tal como a abertura, discreta, sagaz e feroz, uma das melhores dos últimos produtos audiovisuais televisivos.

Ainda mais ousada na segunda temporada, The Good Fight continua a saga tendo a nova era política dos Estados Unidos como material para fermentação dramatúrgica. O escandaloso livro de James Comey, ex-diretor do FBI, a baixaria das prostitutas russas, o polêmico visto Einstein para Melaine Trump e as discussões sobre cultura do estupro, segregação racial e ódios aos imigrantes são os principais temas desta série que conseguiu se tornar independente do produto que lhe serviu como ponto de partida, tornando-se dona de si e instrumento de valor ético e estético para debates necessários diante do cenário político, econômico e social que demarcam o contemporâneo.

The Good Fight – 1ª Temporada – EUA, 2017.
Showrunners:  Michelle King, Robert King, Phil Alden Robinson.
Direção: Jim Mckay, Broke Kennedy, Ron Underwood, Allan Arkush, Marta Cunnigham, So Yong Kim
Roteiro: Joey Martstone, Tegan Shohet, Marcus Dalzine, Ryan Pedersen, Aurin Squire
Elenco: Connie Britton, Angela Bassett, Peter Krause, Oliver Stark, Aisha Hinds, Kenneth Choi, Rockmond Dunbar
Duração:  50 min (cada episódio – 10 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.