Crítica | The Good Place – 1ª Temporada

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estrelas 5,0

Alguém precisa estudar a cabeça do Michael Schur para, quem sabe, encontrar a fonte secreta de tantas boas ideias. Analisemos brevemente os pontos altos sua carreira até o momento: após escrever para o Saturday Night Live por seis anos, em 2004 ele se tornou co-produtor da versão americana de The Office, além fazer algumas pontas no seriado como o estranho primo do Dwight, o Mose. Em 2008 ele co-criou Parks and Recreation, considerada pela crítica uma das grandes comédias dos últimos tempos, na qual permaneceu como produtor e roteirista por sete temporadas. Em 2013, Schur deu à luz mais uma comédia de sucesso, a ótima Brooklyn Nine-Nine. Em 2015 passou a atuar também como co-produtor da premiada Master of None. Baita currículo, não? Como se isso tudo já não fosse o bastante, no ano seguinte o produtor nos presenteou com sua primeira criação solo, uma das mais criativas e originais séries de comédia dos últimos anos: The Good Place.

A série conta a história de Eleanor (Kristen Bell) que, após morrer em um bizarro acidente envolvendo um carrinho de supermercado, vai parar no “lugar bom”, um local para onde todas as pessoas que foram boas e fizeram o bem durante suas vidas (uma porcentagem bem pequena da população mundial) se dirigem quando morrem. Lá ela é recepcionada por Michael (Ted Danson), o arquiteto desse lugar bom em específico (há vários espalhados pelo Universo). Após receber algumas explicações sobre as regras do local, Eleanor é levada até sua casa dos sonhos, onde morará pela eternidade com sua alma gêmea, Chidi (William Jackson Harper), um professor de filosofia com especialização em ética. Ela também encontra seus vizinhos: Tahani (Jameela Jamil), uma filantropa, e Jianyu Li (Manny Jacinto), um monge budista cujo voto de silêncio se estende para além da morte.

Só há um problema: Eleanor está no lugar errado. Por algum motivo desconhecido, a verdadeira Eleanor “boa”, uma advogada que dedicou sua exemplar vida para causas humanitárias, foi parar no “lugar ruim”, enquanto a nossa Eleanor “falsa”, uma atendente de telemarketing egoísta que vendia remédios ineficientes para idosos doentes e passava a maior parte do seu tempo enchendo a cara em festas e sendo detestável, acabou parando no lugar “bom”. Esse engano começa a causar desequilíbrios no até então perfeito lugar bom e coisas estranhas começam a acontecer, como o surgimento de uma enorme cratera e camarões gigantes voadores (sim!). Ao invés de admitir seu erro e informar Michael do engano, Eleanor pede a ajuda de sua alma gêmea falsa, na forma de aulas sobre filosofia ética, na esperança de se tornar na morte aquilo que não conseguiu ser durante a vida, uma boa pessoa.

Há muito o que se elogiar aqui, mas vamos começar falando do time de atores. Kristen Bell está na sua melhor fase como Eleanor, entregando uma personagem daquele tipo que amamos odiar. É impressionante perceber como ela cresce ao longo da temporada, lentamente se tornando uma pessoa menos detestável ao reconhecer suas muitas falhas de caráter e, dessa forma, gerando identificação com o público. Ted Danson como Michael dá um show, em seu papel mais engraçado desde Bored to Death (uma pérola da comédia subvalorizada da HBO). Além disso, temos um dos elencos mais racialmente diversos da TV atual que está na série não simplesmente como isca para agradar e ser politicamente correto, mas porque funciona organicamente dentro da trama (ou você acha mesmo que no céu só tem gente branca?).

Nada disso valeria coisa alguma se o roteiro fosse ruim, e felizmente somos presenteados com alguns dos melhores textos de comédia da década. Quem é fã das outras séries de Michael Schur vai se sentir em casa logo de cara. O tipo de humor que a série oferece vai desde momentos mais “bobos” até piadas internas que tem o seu pay-off apenas episódios à frente. A série também tem um tom alegre e leve, mesmo ao tratar de assuntos teoricamente espinhosos, como o inferno, por exemplo. Aliás, a caracterização do lugar ruim e dos seus funcionários é uma das coisas mais engraçadas da série, especialmente quando Adam Scott (o Ben, de Parks and Rec) está em cena.

Outro ponto alto da série é o seu maravilhoso design de produção e direção de arte, os quais geram uma construção de mundo impressionante que concretiza todo o brilhantismo do roteiro e torna esse universo doido em algo visualmente coerente e muito agradável aos olhos. Há muita cor e personalidade aqui. Se o céu for desse jeito mesmo, é pra lá que eu quero ir quando morrer.

The Good Place é uma série como quase nenhuma antes dela. Afinal, quando foi a última vez que você assistiu um sitcom que tratasse de filosofia, pós-morte, céu e inferno e te fizesse morrer de rir no processo? Dizer mais do que já descrito acima, é entrar no território de spoilers. A última coisa que direi é: ao terminar o último episódio, você implorará pelo próximo de joelhos e com as mãos para o céu.

The Good Place – 1ª Temporada (EUA – 19 de setembro de 2016 a 19 de janeiro de 2017)
Criação: Michael Schur
Direção: Drew Goddard, Michael McDonald, Beth McCarthy-Miller, Payman Benz, Morgan Sackett, Tucker Gates, Trent O’Donnell, Tristram Shapeero, Dean Holland, Linda Mendoza, Lynn Shelton
Roteiro: Michael Schur, Alan Yang, Aisha Muharrar, Joe Mande, Matt Murray, Dylan Morgan, Josh Siegal, Megan Amram, Daniel Schofield, Jen Statsky, Demi Adejuyigbe, Andrew Law
Elenco: Kristen Bell , William Jackson Harper , Jameela Jamil , D’Arcy Carden , Manny Jacinto , Ted Danson, Tiya Sircar, Josh Siegal, Bambadjan Bamba, Adam Scott, Steve Berg, Marc Evan Jackson, Seth Morris, Amy Okuda, Ruman Kazi, Jama Williamson
Duração: 22 min. por episódio (treze episódios)

ANDRÉ DESCROVI . . . Professor de inglês formado pela Greendale Community College. Mestre em Língua Suméria pela Miskatonic University. Doutor em Psiquiatria pelo Lecter Institute of Mind Studies. Membro do conselho de diversas corporações, entre elas: Bluth Company, Dunder Mifflin, Kramerica Industries e Vandelay Industries. Atualmente reside em Carcosa, onde trabalha como consultor de crimes ritualísticos para a empresa Cohle & Hart. (93 é o sentido da vida.)