Crítica | A Criada

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estrelas 4,5

A Península da Coreia (na época, não havia divisão entre norte e sul, isso só ocorreu a partir do armistício de 1953) foi ocupada pelo Japão em 1905 e oficialmente anexada ao território japonês em 1910, permanecendo sob seu poder até o fim da II Guerra Mundial, em 1945. É neste período de ocupação — contando com todo o jogo social que um país ocupado sofre — que o filme The Handmaiden se passa.

O roteiro é baseado no livro Fingersmith (2002), de Sarah Waters, e tem seu cenário original da Era Vitoriana alterado para a Coreia ocupada, na qual o diretor Chan-wook Park (Oldboy) realiza o seu jogo de enganações que surpreende o espectador a cada conjunto de mais ou menos 40 minutos, onde os pontos de vista são alterados e onde descobrimos coisas que haviam sido escondidas de nós na parte anterior, ou mostradas pela metade, a fim de criar uma impressão parcialmente verdadeira (já que a primeira vez que vemos essas coisas, elas são reais, somos nós que não as entendemos como encenação) e aprofundar ainda mais no universo de personagens tão complexos como os que temos aqui. A forma como as diferentes visões vão tomando conta da obra e de como uma dá origem à outra nos lembra vagamente a estrutura narrativa de Rashomon (1950).

A grande quantidade de certezas que temos no princípio vai sendo aos poucos dissecada, triturada e transformada em diferentes cenários, até chegarmos à cena final. Em dado momento, o espectador se rende às reviravoltas e deixa de tentar adivinhar o caminho que virá a partir dali, sendo surpreendido com novos detalhes à medida que grandes doses de erotismo e violência são adicionadas, deixando tudo mais intenso.

O cuidado fotográfico da obra, assinado por Chung-hoon Chung (Oldboy, Lady Vingança, Segredos de Sangue) é de uma delicadeza ímpar, talvez o trabalho mais cuidadoso em um filme de Chan-wook Park nesse sentido. Os momentos certos de se mexer com o foco, a decupagem inteligente a cada novo bloco (reparem na posição majoritária da câmera, no tipo de planos e movimentos que ela vai tendo diante de cada novo ponto de vista), a beleza e sensibilidade ao filmar espaços naturais e todas as cenas noturas ou internas demonstram um grande esforço do fotógrafo em criar um certo sentimentalismo com mescla de macabro, alternando a aparência de liberdade com a claustrofobia de determinadas situações.

O espectador irá perceber que o destino final de duas personagens se dilui um pouco diante do peso e intensidade com que todos os outros foram mostrados na fita. É uma pequena rusga diante de um filme tão intenso e esteticamente rigoroso, mas não o bastante para fazer com que as mesmas personagens tenham sua essência alterada ou que todo o caminho percorrido até ali seja minimizado. Nada disso. Se em comparação, os poucos momentos em direção à Rússia parecem frágeis, isoladamente, eles mantém o rigor e a beleza visual de Handmaiden, especialmente porque a cena que se segue volta com força ao conhecido jogo. No mesmo âmbito, poderíamos até apontar uma queda do diretor pela breve, mas desnecessária explicação do vigarista, também no final, mas certamente a presença dessas linhas terão impacto diferente em cada espectador, pois mesmo não sendo necessárias, são colocadas no enredo de forma orgânica.

The Handmaiden é um filme que se revela e se constrói aos poucos. Chan-wook Park guia a obra como se estivesse dirigindo uma ópera erótica (sua elegância lembra um pouco a de Nagisa Oshima em O Império dos Sentidos, mas tem uma maior agilidade e controle — ajudado pela milimétrica montagem –, uma necessidade desse contexto, pois o roteiro não possui apenas uma linha textual e os personagens vão mostrar mais de uma faceta na história, de modo que precisavam alternar entre esconder e mostrar algo dependendo do momento).

A sociedade nipônico-coreana dos anos 30 e as liberdades individuais são inseridas em um jogo de gato e rato cheio de detalhes nos figurinos, com uma trilha sonora intensa e a sábia decisão do diretor em explorar silêncios, sons do ambiente ou o mínimo de música possível em situações emotivas, de dor, contemplação ou gozo. The Handmaiden é uma poesia erótica e violenta onde todos manipulam todos e onde a moral, a ética e as normais sociais são mais alguns acessórios nas mãos de quem sabe brincar com elas e, embora não pareça, usá-las a seu favor.

The Handmaiden / Ah-ga-ssi (Coreia do Sul, 2016)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-Kyung Chung, Chan-wook Park (baseado na obra de Sarah Waters)
Elenco: Min-hee Kim, Kim Tae-ri, Jung-woo Ha, Jin-woong Jo, So-ri Moon, Hae-suk Kim
Duração: 144 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.