Crítica | The Handmaid’s Tale – 1ª Temporada

Lançado em 1985, o livro O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), uma ficção especulativa de Margaret Atwood, nos apresentava a República de Gilead, lugar onde um dia fora os Estados Unidos. Nessa sociedade, ambientada em um possível futuro de nossa História, existe um nível considerável de contaminação e poluição atmosféricas; um certo desprezo por religiões e, acima de tudo isso, uma condição de infertilidade que fez com que a taxa de natalidade da população caísse a níveis próximos de zero. Após um ataque manufaturado que varreu o governo democrático americano e colocou um grupo de supostos salvadores da pátria no poder (os que, na verdade, conspiraram para que os ataques acontecessem e tivessem a oportunidade de “criar uma nova nação“), os Estados Unidos passaram a ter uma divisão em castas, uma teocracia cristã e um absoluto massacre da mulher como indivíduo, cabendo a ela, a partir deste momento, o status de servir ao Comandante e parir filhos.

É neste ambiente que se passa a série da Hulu The Handmaid’s Tale, criada por Bruce Miller. Anunciada em abril de 2016 e já com Elisabeth Moss contratada para o papel principal, a série teve suas filmagens com consultoria da própria autora do livro (ajudando na transposição do cenário para a segunda metade do anos 2010) e estreando com três episódios em 26 de abril de 2017. A excelente recepção e a futura aclamação da série na temporada de premiações não foi à toa. A temática da obra é forte, toca em elementos muito presentes em nossa sociedade — do feminismo radical ao fundamentalismo religioso — e tem um tratamento técnico aplaudível, com uma direção fortemente melodramática, mas nem por isso mergulhada em exageros estéticos, como planos desnecessários em cenas de grande emoção, apenas para chocar o público. Para mim, ficam apenas algumas ressalvas no tratamento da relação entre June/Offred e (Elisabeth Moss) e seu comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes), ficando cada vez mais macabro à medida que a temporada avançava.

É claro que a crítica imediata do show, por uma questão geopolítica e até mesmo de ligação com o tempo do espectador, é para a ala extrema do Cristianismo. Mas as mazelas vindas da mistura de religião com o poder político são cabíveis aos três monoteísmos e tem claramente representações em diversas nações do mundo, hoje em destaque por conta do fundamentalismo islâmico. Todavia, o pensamento de que esta sociedade foi simplesmente um “infeliz acidente” é o que o roteiro vai desconstruindo episódio por episódio, mostrando que foi algo fermentado ao longo de um período de tempo. O sistema narrativo se dá em dois estamentos. No primeiro, temos o dia-a-dia das aias, as poucas mulheres férteis que ainda restaram nos Estados Unidos. Capturadas, torturadas, mutiladas e tendo passado por lavagem cerebral, coação e castigos físicos, elas são atribuídas às casas de personalidades importantes de Gilead. No período fértil, os Comandantes as estupram. A chamada “Cerimônia” tem pompa e circunstância religiosa, lendo-se o início do 30º Capítulo do Gênesis e mantendo-se, nos bastidores, jargões e frases ligadas à fertilidade e devoção a Deus. Este é o presente, o status atual das mulheres neste Universo.

Já o outro estamento acontece nos flashbacks, onde o roteiro nem sempre acerta o tom, mas isso não quer dizer que faça coisas ruins aí. Não há um único momento ruim em construção narrativa, ao longo da temporada. O que temos são algumas pequenas diferenças de entre blocos e tempos onde a ação acontece. Como o foco está em June, são exibidos diversos acontecimentos de seu passado, nunca em ordem cronológica. Esta opção foi muito importante para a disposição da temporada, uma vez que cada retorno para o passado foi dado como um gatilho vindo do presente, livrando essas lembranças de parecem apenas um encaixe ou explicação aleatória. Mesmo que não existam profundas revelações, o espectador não sente falta delas a longo prazo, já que o enredo é construído de uma forma para que as poucas explicações sejam o suficiente. Na reta final, encontramos os tais “pecados do tempo da anarquia” repetidos na chamada “sociedade perfeita de Gilead“. Com tanto fervor e punições religiosas, com tanta morte em nome de Deus, com tanta repressão de liberdades, sexualidades e todo tipo de prazer em nome de uma divindade que parece cega a tantas atrocidades, esses indivíduos ainda têm tempo para altas doses de hipocrisia. Exatamente como acontece com todo o escopo religioso contemporâneo que se pauta da fé para interferir na construção do Estado ou de uma Constituição.

A escolha do figurino para esta sociedade fecha o arcabouço de símbolos, acompanhado pela plural e dicotômica trilha sonora e por uma fotografia de contrastes de paleta de cores (não de modo manipulativo). As cores frias para o momento presente e um pouco mais saturadas (não necessariamente quentes) para o passado, fazem sentido na história e não traem o desenvolvimento dos personagens ou o avanço da trama. Em Gilead, os homens com cargos oficiais vestem preto. Apenas os Comandantes usam camisas brancas ou cachecol, mas os Anjos e os Olhos estão de preto e/ou cinza ao longo da temporada. As mulheres se dividem em figurinos vermelhos, no caso das aias (com símbolo duplo, tanto pela violência que sofrem, quanto pela carne que cedem à nação — importante lembrar: nessa sociedade, as mulheres não são donas de seu próprio corpo); verde, no caso das esposas (o tom sóbrio e quase virginal, lembrando um fruto que jamais amadurecerá) e cinza, no caso das Martas, lembrando sua neutralidade de serviçal.

The Handmaid’s Tale é uma série que nos mostra o que uma sociedade pode se tornar quando uma camada extremista de uma religião (qualquer religião!) assume o controle das coisas e passa a dizer o que deve ou não deve ser feito. O alerta, porém, é muito mais para as coisas em gestação do que para coisas seu resultado final. Como dito antes, um cenário sociopolítico desses não se faz da noite para o dia. Muitas interferências, muito ódio à sexualidade alheia, muita tentativa de suprimir direitos e barrar coisas que as pessoas queiram fazer de suas próprias vidas, são visíveis antes mesmo do golpe final. E aí está o alerta. Em nosso mundo, temos inúmeras dessas coisas acontecendo, em estágios e lugares diferentes. O nosso pedido é que este tenebroso fruto jamais seja aberto pelo Senhor. Sob o seu olhar.

The Handmaid’s Tale – 1ª Temporada — EUA, 2017
Criação: Bruce Miller
Showrunner: Bruce Miller
Direção: Reed Morano, Mike Barker, Kate Dennis, Floria Sigismondi, Kari Skogland
Roteiro: Bruce Miller, Dorothy Fortenberry, Leila Gerstein, Lynn Renee Maxcy, Kira Snyder, Wendy Straker Hauser, Eric Tuchman, Ilene Chaiken (baseado no livro de Margaret Atwood)
Elenco: Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Max Minghella, Amanda Brugel, Joseph Fiennes, Madeline Brewer, O-T Fagbenle, Ann Dowd, Samira Wiley, Nina Kiri, Tattiawna Jones, Alexis Bledel
Duração: 10 episódios de aprox. 55 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.