Crítica | The Handmaid’s Tale – 2X01 e 2: June / Unwomen

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Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Ataques coordenados, feitos por supostos “inimigos terroristas”, foram o último passo para que um grupo de indivíduos levassem a cabo o golpe de Estado que fez dos Estados Unidos uma ditadura teocrática, com divisão em castas e onde não há absolutamente nenhum espaço de poder, presença política e social, liberdade de expressão e controle sobre seu próprio corpo por parte das mulheres. Homens que burlam ou são contra o sistema também sofrem penas imensamente duras, mas por se tratar de uma sociedade falocrata onde a taxa de natalidade está em níveis quase nulos, as mulheres servem apenas para reproduzir ou para gerar condições e preparo comportamental (via tortura ou lavagem cerebral) para que as fêmeas férteis (as aias) possam participar da Cerimônia (em outras palavras, o estupro mensal, em seu período fértil, pelo Comandante a quem serve) e então trazer filhos para a nação. Este é o Universo de The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia).

Baseada na ficção especulativa de Margaret Atwood, a série da Hulu chega à sua 2ª Temporada exatamente a partir do ponto em que nos deixou, ao término do episódio Night. June — que também é o título da Premiere da temporada — está sendo levada pelos Anjos, após o seu ato subversivo em se recusar a apedrejar Janine (Madeline Brewer), inspirando as outras aias a fazerem o mesmo. No primeiro episódio, o roteiro dá as principais cartas dramáticas para que vejamos June (Elisabeth Moss segue arrebatadora!) passar para uma outra camada, dando a ela ferramentas mais potentes para iniciar algo parecido com uma luta contra o sistema. E junto disso também temos uma reafirmação de valores sociais, morais e éticos que são abocanhados pelo fundamentalismo (especificamente cristão, nesse caso, mas a leitura se aplica facilmente aos três monoteísmos, especialmente em nossos dias) e tidos como um padrão de salvação superior para a sociedade. O último bastião da decência. As regras que irão fazer prosperar novamente a humanidade. Lembremos que a estrutura social de Gilead é religiosa e que até mesmo o estupro conhecido como “Cerimônia” vem da “interpretação” literal de uma passagem do Livro do Gênesis:

Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja da sua irmã e disse a Jacó: Dá-me filhos, ou senão morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e perguntou: Acaso estou eu em lugar de Deus, que te há negado o fruto do ventre? Respondeu ela: Eis a minha serva Bila recebe-a por mulher; para que ela dê à luz sobre os meus joelhos, e eu também seja dela edificada. Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher, e Jacó esteve com ela.

Gênesis 30:1 a 4

Dramaticamente falando, o roteiro desses dois episódios são poderosos. Não só o novo momento de June é lançado, como também temos a primeira mostra do que acontece nas Colônias, com as Não-Mulheres, as “traidoras do gênero”, aqui, com destaque absoluto para a Emily de Alexis Bledel, em uma bárbara atuação. Inicialmente, nas entrelinhas, mas depois de maneira bastante clara, os roteiros de Bruce Miller nos convidam a pensar sobre o valor da liberdade e pelo quê estamos dispostos a abrir mão dela. Então a discussão sobre liberdades individuais vem à tona e tudo fica muitíssimo mais doloroso. Em Unwomen, por exemplo, essa sensação é elevada a um patamar de real terror, beneficiando-se da soberba direção de fotografia, da mudança de figurinos e da precisa mão de Mike Barker guiando o episódio. A grande discussão se dá para a questão da sexualidade, marcada por cenas de separação bastante emotivas e por um medo que passa a dominar todas as pessoas, fazendo pontes imediatas com o nosso mundo. E não, não estou falando de nações que já entraram no Universo de Handmaid’s Tale ao reduzir a mulher a nada mais que um útero. Falo de nações que seguem abrindo as portas para posturas fundamentalistas de supressão de liberdades em nome de uma “moral maior”, de uma “ordem divina” e para a “salvação da alma” alheia. Uma fala de June na temporada passada deve ser lembrada aqui com muito vigor: UMA COISA ASSIM NÃO ACONTECE DO DIA PARA A NOITE.

A dor, a esperança e a capacidade de resistência são fatos que acompanham as aias desde o começo da série, mas ao que tudo indica, serão os norteadores desta Segunda Temporada. Em apenas dois episódios, acompanhamos o lançamento de preciosas mudanças, passando por excelentes contextualizações sociais, políticas e ideológicas, até o estabelecimento do horror que é esta nação de Gilead. O elenco inteiro está em excelente forma, não havendo discrepâncias de atuação, mesmo nos blocos de menor impacto. Isso também nos ajuda a ver os “fiéis” a Gilead com alguns possíveis tons de cinza, não como malditos absolutos. Não porque são eventualmente “pessoas boas“. Sua cegueira religiosa e seu ideal social os impedem de ver as aias, as Martas ou as Não-Mulheres como algo além de “serventes do sistema“. Mas porque essa postura nos permite interpretar os comportamento por um viés humano também. É visível que há um orgulho imenso por parte desses fiéis, uma fé real de que todo e qualquer horror que eles cometam são plenamente justificáveis porque eles estão dando condições para que novas crianças venham ao mundo, em um cenário onde a reprodução é cada vez mais rara. Coloque esse tema em discussão em qualquer fórum ou rede social hoje e espere as respostas. Esse tipo de disposição se faz presente em muitas cabeças e visões de mundo mesmo em um ambiente democrático, com alguns direitos concedidos. Imaginem só numa sociedade de crise, onde esses direitos não mais existem.

Estabelecendo um cenário de encontros, lutas e recolocações, a 2ª Temporada de The Handmaid’s Tale começa sem piedade alguma. E incrivelmente cada vez mais real para nós. Este é o tipo de história que incomoda tanto pelo conteúdo, quanto pela óbvia semelhança que tem com práticas já correntes em nosso mundo. Há sugestões vindas da trilha sonora, do memorial, do episódio de Friends que June assiste, do corte de cabelo, da queima de roupa e das ações até então “menores” de revidar contra o sistema que nos conecta com essa realidade, alertando e convidando a pensar. Em um mundo onde surgem cada vez mais pessoas e grupos políticos achando que o Estado deve intervir em tudo e na vida de todos — “para um bem maior” — e que o controle de expressões pessoais e do corpo deve ser tutelado porque “você não sabe o que é melhor para você, mas o Estado e a religião sabem“, The Handmaid’s Tale é uma sirene em volume máximo. O horror, desta vez, não está apenas na “brincadeira da ficção“. Não é “tudo de mentirinha“. Não desta vez.

The Handmaid’s Tale – 2X01 e 2: June / Unwomen (25 de abril de 2018)
Direção: Mike Barker
Roteiro: Bruce Miller
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Ann Dowd, O-T Fagbenle, Max Minghella, Bahia Watson, Jenessa Grant, Nina Kiri, Ericka Kreutz, Ryan Turner, Daniel Chaudhry, David Snelgrove, Dave Lapsley, Edie Inksetter, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Phillip Craig, Nicky Guadagni, Novie Edwards, Soo Garay, Keeya King, Ian Geldart, Helen King
Duração: 60 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.