Crítica | The Handmaid’s Tale – 2X03: Baggage

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Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Existe um aspecto impossível de quantificar ou definir ao certo, quando estamos falando de maternidade. “Amor de mãe” é um termo que pode ser interpretado, sentido ou exposto de diversas formas e mesmo que isso dependa de uma série de fatores, saúde física e mental da mãe ou mesmo de condições culturais, é evidente que há um senso de proteção da genitora (dos genitores em geral, mas o foco aqui é o instinto materno) em relação aos seus filhos. Algumas mães exercem isso de maneira saudável, outras de maneira doentia; algumas de maneira muito fechada para o mundo, isolando a si e a criança… outras de maneira consciente de que há um mundo à volta dela e de sua prole. Mas o amor e a necessidade de proteção, nas condições certas, estão lá. E é este amor e seus muitos caminhos sociais e até políticos que este terceiro episódio de The Handmaid’s Tale trabalha, na esteira de difíceis decisões tomadas pela personagem da excelente Elisabeth Moss.

June está em um processo de adaptação pessoal, após dois meses em sua primeiro esconderijo. O roteiro de Dorothy Fortenberry levanta a bola do “acostumar-se com a situação” desde cedo. Pergunta-se: mulheres se adaptam muito mais rápido a situações adversas? Para June, há muita coisa a ser considerada quando esta pergunta é feita. Primeiro, o fato de estar grávida e ser uma aia foragida em uma ditadura falocrata. Segundo, o fato de o tempo inteiro ela ser visitada por memórias do mundo livre, lembrando de sua educação feminista e da mãe ativista, que sempre a empurrou para as ruas, para protestar, para não se conformar ou “brincar de casinha“. O texto explora um interessante conflito entre as duas mulheres e essas lembranças ajudam a criar o impulso para o episódio, com um gancho de ironia na relação entre a “mocinha esperar ser salva por um homem” e uma forte tensão, com três blocos narrativos cheios de momentos tensos: a saída de June do prédio do The Boston Globe, a saída de June do complexo da Econowives e a tentativa de escape por voo, juntamente com um motorista de um comandante, tentativa que acaba frustrada, deixando-nos com um cliffhanger angustiante e alto nível de cólera.

Aqui, vemos mais o passado de June e entendemos parcialmente como o mundo foi caindo aos poucos ao nível de supressão de liberdades, a ponto de chegar à República de Gilead. Vemos desde momentos de luta que June acompanhou quando criança (ela aparece em uma manifestação da organização Take Back the Night), até contrastes pontuais com a vida de Moira e Luke no Canadá. Este ponto do episódio foi o que me pareceu mais solto, não necessariamente por conta da direção, atuação ou qualquer outro suporte técnico na composição desses momentos. O problema está no encaixe deles no episódio. Todos me pareceram um pouco deslocados, porque não houve um caminho orgânico que os validasse na trama, como aconteceu na estreia da temporada. Claro que este bloco serve como um espaço para que a gente respire e fuja do totalitarismo religioso que é Gilead, e temos até um ponto cômico e uma surpresa para nos alegrar, mas mesmo assim, seria necessário um gancho mais sólido na forma como essas cenas externas se ligam ao horror vivido por June. Espero que os roteiristas dos episódios seguintes pensem melhor nisso.

O fato de ter maior presença da protagonista e muitas coisas do passado em cena pode irritar alguns espectadores. Este é um ponto inconciliável de opinião, dado o propósito narrativo, mas ainda assim vale convidar a todos a pensarem um pouco sobre como é necessário um background que justifique, amplie e até explique como as coisas chegaram a este ponto. O mural que June cria, no período em que passa no The Boston Globe é um começo disso, mas as cenas familiares e a ideia de algo que “estava sempre ali, mas a gente não viu” grita e torna a ligação com o nosso mundo legítima, como abordei de maneira mais profunda em June / Unwomen. Aqui, cercada por uma fotografia cinza e em planos longos, June está à beira de mais um capítulo de desastres. Nós sabemos que as mulheres grávidas em Gilead não necessariamente são maltratadas (bem… não como são as não-grávidas), então fica a dúvida sobre o que deve acontecer com June a partir de agora. Será acorrentada, como a mulher que vimos no início da temporada? Voltará a ser Offred? O futuro volta a ser amargo e enraivecedor. Como acontece em todo lugar onde as liberdades são tomadas, escapar não é uma coisa fácil. Os algozes que pregam a tal ideologia do “isso é melhor para todos” ou “a gente sabe o que é melhor para você” farão o que puderem para garantir isso.

The Handmaid’s Tale – 2X03: Baggage (2 de maio de 2018)
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Dorothy Fortenberry
Elenco: Elisabeth Moss, Ann Dowd, O-T Fagbenle, Max Minghella, Samira Wiley, Cherry Jones, Erin Way, Jordana Blake, Philip Craig, Vas Saranga, Asia Rempel, Katie Messina, Catherine McNally, Amanda Barker, Michelle Hospedales
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.