Crítica | The Handmaid’s Tale – 2X04: Other Women

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Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Após o cliffhanger de Baggage, episódio anterior de The Handmaid’s Tale, muita coisa foi especulada. Nos comentários desta crítica, eu e alguns leitores falamos sobre possibilidades de futuro para June (ou ausência de possibilidades, dependendo do ponto de vista) e da estranheza que poderia ser a sua volta ao posto de Offred, reafirmando um ciclo que já conhecíamos muito bem. “Contaminado” por essas conversas, cheguei 100% repleto de defesas para ver o episódio Other Women. E 55 minutos depois, Bruce Miller (roteiro) e Kari Skogland (direção) me convenceram de que este era o melhor caminho possível, ao menos para este momento da série. Se isso vai funcionar da forma como foi sugerido ou não, é um problema que discutiremos nos outros episódios. Aqui, porém, a reintrodução de um novo momento de sofrimento e subserviência da protagonista foi exposto de maneira excelente, caindo apenas em um ponto: na estranhíssima colocação do roteiro para as cenas com Fred (Joseph Fiennes) dentro da casa. O restante é uma aula de como fazer personagens sofrerem e de como elevar ao máximo o nível de ira e indignação de milhões de espectadores.

Um primeiro ponto a ser levado em consideração aqui é o próprio caráter dramático que esse retorno deu a June (voltarei a esse ponto logo mais), ressaltando ainda mais o elemento de controle, lavagem cerebral e submissão que Gilead impõe a todos. Eu não vou cair na armadilha de criar possibilidades sobre “o que aconteceria se… ela tivesse ido para outro lugar?” (mas podemos fazer isso nos comentários, se vocês quiserem). Virtualmente, isso não importa. Não agora. O ponto, tendo esse retorno em vista, é mostrar desdobramentos de uma tentativa de fuga frustrada e como é possível massacrar convicções ideológicas ou pelo menos mudar a estratégia de luta de um grupo ou pessoa. Então percebemos o quão grande foi este episódio e como é interessante a promessa que traz para este novo momento.

No campo das ideias, culpa e vergonha são braços de um comportamento moral, com implicações éticas. Quando a gente causa dano a uma outra pessoa, por moralidade, duas possibilidades se apresentam: 1) a gente não dá a mínima importância, porque os outros não importam para nós. Só nós e os nossos interesses é que importam. Independente do que os outros sofram em decorrência dos nossos atos, continuaremos fazendo, porque temos que alcançar os nossos objetivos a todo custo. A dor do outro, nesse caso, não é um mal. Não é errado causá-la porque ela está servindo em nosso favor. Está fazendo com que a gente chegue a alguma lugar. Desse modo, não faz sentido nenhum ter culpa. 2) a gente coloca na balança os nossos interesses e o quanto isso seria terrível para as outras pessoas ao nosso redor. Não em um olhar moral, porque mágoas morais não interessam, e aí temos que fazer mesmo. Mas no sentido físico, no sentido de os outros serem mortos, famílias serem destruídas, pessoas serem mutiladas em decorrência das nossas atitudes. Claro que a fala de que “foi escolha do indivíduo seguir por aquele caminho” serve como acalanto. Mas não basta. Lembrem-se de que a culpa é um sentimento de cunho moral. E vejam o que o roteiro fez com esse conceito neste episódio.

O impacto se dá justamente na fomentação de uma culpa e mostra o quanto Tia Lydia é um gênio maldito da retórica e como as coisas funcionam no sentido ideológico em Gilead. Para quem está de fora, como a Ecowife que virou Aia, o julgamento é fácil: “jamais entregaria para eles um filho que eu gerei“, “jamais jogaria do lado deles“, “jamais obedeceria as regras“. A questão é: se você não fizer, todos à sua volta vão sofrer consequências pelos seus atos. E a culpa se somará à vergonha, porque todos, menos você, vão pagar o preço. Notem a encruzilhada moral em que June está metida. E a profundidade desse roteiro em colocar essas questões justamente aqui. Aí vale a discussão se a personagem se entregou de fato ao desamparo, ou não. Para mim, não. Ela está adotando, na superfície, a possibilidade de fugir da culpa, mas não acredito nem por um minuto que “perdemos” June. No meu ponto de vista, isso não faz sentido, a não ser que tenhamos histórias inteiras pela frente com outra protagonista ou outros caminhos em torno do horror de Gilead — o drama, por mais realista que seja, precisa ter um equilíbrio de ação e, considerando o trabalho dos showrunners até aqui, sei que é impossível que eles cometam uma erro tão banal quanto esse.

Mergulhado em uma trilha sonora falsamente confortável, em tons fotográficos verdes, difusos e com contrastes belíssimos de luz do Sol durante o chá de bebê, o segundo ato deste episódio é ao mesmo tempo um mergulho na desesperança e na ambiguidade pelo que virá. Notem que Tia Lydia fez questão de separar as mulheres no diálogo com sua Aia mais difícil. June e Offred. Até quando isso vai ser um ponto de separação na série, não sabemos, mas todo o pensamento negativo que eu tinha em relação ao retorno de June para Gilead foi desmontado por um capítulo repleto de excelentes discussões, tendo ainda uma breve e inquietante conversa entre os Comandantes sobre uma “visita ao Canadá“. Gilead tem planos de expansão? A pergunta “o que fazer quando não se tem mais esperança?” nunca fez tanto sentido.

Em tempo: Luke então se mostrou que não é tão bonzinho quanto parece, não é mesmo? Vocês perceberam que o roteiro coloca ele culpando a ex-esposa por coisas relacionadas à vida de casado? Achei curiosa a inserção. Claro que estamos em anos de diferença e evidente que as pessoas mudam. Mas achei bom ver isso no roteiro, mostrando um outro lado do personagem.

The Handmaid’s Tale – 2X04: Other Women (9 de maio de 2018)
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Bruce Miller
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Amanda Brugel, Ann Dowd, O-T Fagbenle, Max Minghella, Ever Carradine, Stephen Kunken, Robert Curtis Brown, Greg Bryk, Kelly Jenrette, Tattiawna Jones, Nina Kiri, Bahia Watson
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.