Crítica | The Handmaid’s Tale – 2X05: Seeds

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Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

No dia 16 de maio de 2018, saiu uma matéria no jornal El País (Brasil) com a seguinte manchete: Mulheres que jogam a toalha com ‘The Handmaid’s Tale’: “Isto é pornô de tortura”. Na sequência, o lide trazia a seguinte frase: “Não consigo continuar assistindo”. Uma parte da crítica internacional questiona o sadismo da segunda temporada e a capacidade de resistência do telespectador. Ao ler a matéria, percebemos que estas reclamações apareceram entre BaggageOther Women, ou seja, entre o 3º e 4º episódio da temporada. Pois bem. Existem argumentos em relação ao teor da série que qualquer um é capaz de entender (ela É SIM difícil de assistir), já outros, não. Para não me alongar explorando essa questão e apertar o logo botão que me levará para a crítica de Seeds, vou destacar a citação que traz uma fala de Elisabeth Moss. Segue:

Esse trato vexatório imposto às mulheres é puro entretenimento perverso? Ou os espectadores são incapazes de lutar com uma realidade inclemente? Elisabeth Moss, protagonista e produtora da série, não tolera quem a larga no meio. “Odeio escutar alguém dizer que não consegue vê-la porque é assustadora demais”, afirmou ela ao The Guardian. “Não digo isso porque me preocupe ou não que vejam a minha série, não estou nem aí. Mas, sério? Não ter coragem de ver uma série de televisão? Isto está acontecendo na sua vida real. Acorde, pessoal. Acordem.”

Com isso em mente, gostaria de levantar uma questão importante sobre o incômodo no entretenimento. Em uma visão imediata, deixo claro: toda crítica é válida (se for racional) e as pessoas devem ser livres para escolher o que querem assistir ou não. Mas me causa um real espanto ver jornalistas e críticos cogitando largar uma série como The Handmaid’s Tale após o 4º episódio (ou seja, nem no meio da temporada ainda) porque “não conseguem mais assisti-la“. Sim, eu entendo perfeitamente a reclamação. Entendo o incômodo, porque também o sinto. Mas a acusação de “pornô de tortura” e outras designações dadas à série me parecem exageros precipitados de profissionais impacientes que não têm o final feliz de mão beijada logo no início de uma temporada. Concordo com a fala de Moss ao comentar sobre essas partidas. Todos nós nos incomodamos. Mas estamos falando de uma temporada que nem acabou. A história ainda está em desenvolvimento. Paciência, gafanhotos!

Nos comentários dos outros episódios aqui no PC, este foi um assunto recorrente que tive com vários leitores e leitoras. É doloroso, massacrante, insuportável. Mas em um sentido dramático, percebem? De ficção, de entretenimento que, como também foi dito, retrata — queiram ou não — uma realidade existente. Ou mulheres em cativeiro são uma invenção da série? Mulheres estupradas? Mulheres impedidas de saírem de suas realidades massacrantes? Mulheres reduzidas a simples procriadoras, serventes ou meros “erros”, segundo designação de políticos? Mulheres tratadas como algo “menor” e “serviçal” por fanáticos religiosos? Que devem “estar caladas no templo”? Mulheres que, para os homens com quem vivem, a única coisa que têm de importante é a possibilidade de “dar um herdeiro para seguir o nome da família“? Eu tenho certeza absoluta que todos vocês já presenciaram, viveram ou tiveram conhecimento de todas essas atrocidades. A diferença — e este é o alerta que venho levantando no contexto histórico e sociológico do show, desde a 1ª Temporada — é que em Gilead o horror está institucionalizado e a prisão é totalitária, considerando um governo de homens cristãos extremistas. E querem um exemplo disso em nosso mundo, sob outro monoteísmo levado ao extremo? O Afeganistão.

Expostas essas questões, vemos em Seed um episódio que, justamente no meio da temporada, vem reafirmar o quão atropeladas foram as decisões de largar a série por “tal” e “tal” motivo. E embora eu esteja dirigindo essa crítica especialmente a formadores de opiniões (críticos e jornalistas), não deixo de ter, pessoalmente, o mesmo pensamento sobre o espectador comum, embora os perdoe facilmente por isso, o que não acontece com os meus colegas de profissão, cuja função é analisar com cuidado. Então chegamos ao episódio 5.

E eis que retorna algo lançado no episódio 4, diante da temática da culpa e da vergonha, já colocado como um caminho para a série. June ≠ Offred. Até Tia Lydia fez questão de separar as personas. Em vez de se colocar diretamente contra o sistema, June deixou sua face de ovelha sobreviver, enquanto alimentava o lobo ferido. Offred é a aia alquebrada, sem opinião, cheia de “sim” e “não“, obediente às ordens de seu Comandante, repetindo bênçãos divinas e desejando bom tempo e que o fruto seja bendito (que o senhor o abra). Em Seeds, vemos o íntimo de June aparecer como uma luz no fim do túnel, mas uma luz que sabe brilhar para as pessoas certas e se manter apagada enquanto tem “gente errada” olhando. Offred existe. E ela realmente pode acreditar em tudo aquilo que diz e faz, o que é igualmente aterrador. Mas no corpo de Offred também existe outra mulher. E pelo visto, é dela que virá a energia para o brotar da semente da mudança.

Escrito por Kira Snyder e dirigido por Mike Barker, o episódio apresenta de uma maneira plácida e ao mesmo tempo cortante, a gestação de sentimentos e caminhos para a ação, tudo isso sem jamais deixar os dois pontos narrativos centrais da série: 1) o choque de realidades (comparem as cenas, os significados e os sentimentos envolvidos nas duas versões de casamento que temos aqui); e 2) o jogo de adequação e inadequação, movimentos internos dos episódios que moldam e empurram os personagens para lugares críticos. Aqui, vemos isso tanto nas Colônias quanto na Cidade Central. Janine e June incorporam esse fervor quase mudo e apontam para o início de uma nova luta, sentimento reforçado por uma forte e emotiva trilha sonora.

Pesa negativamente aqui a interação com alguns momentos das Colônias ou mesmo a colocação desse bloco aqui no episódio, que serviu apenas para mostrar algo que poderia facilmente ter vindo em um capítulo inteiramente ali ambientado, com uma história sólida, melhor pensada para nos levar para algum lugar. O projeto fotográfico, porém, permanece em alta, assim como todas as atuações do elenco. Essa fusão de mundos e a possibilidade da chegada de algo novo — que pode ser qualquer coisa, a essa altura — me lembrou muito um dos meus poemas favoritos, Exausto, de Adélia Prado, que deixo como reflexão final para vocês, assim como a pergunta: o que acham das opiniões sobre abandonar a série pelo caminho que ela estava (ou está) tomando, mesmo considerando só o começo da temporada?

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

The Handmaid’s Tale – 2X05: Seeds (16 de maio de 2018)
Direção: Mike Barker
Roteiro: Kira Snyder
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Ann Dowd, Max Minghella, Ever Carradine, Robert Curtis Brown, Sydney Sweeney, Deb Filler, Tanya Faraday, Shahi Teruko, Soo Garay
Duração: 51 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.