Crítica | The Handmaid’s Tale – 2X08: Women’s Work

plano criticio womans work plano critico handmaids tale plano crítico

Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Uma das características de nossa condição de “animal social” é unir-se, às vezes até a contragosto, a pessoas que de alguma forma compartilham das mesmas dores e desafetos que nós. A dor e o ódio são dois dos maiores motivos de união que nossa existência conhece.

Com isso em mente, digo que foi extremamente prazeroso perceber como este episódio de The Handmaid’s Tale se utilizou da dor como cimento de diversas relações entre personagens e sugeriu o ódio como uma espécie de decoração final que, mesmo sem estabelecer-se de fato (como motivo de ação anti-sistema), com certeza irá gerar arranjos curiosos até o final da temporada, especialmente por parte de Serena, que teve a consequência final daquilo pelo que sempre lutou: uma sociedade onde o homem é “A Cabeça” e a mulher é um adendo de luxo, podendo apenas fazer coisas que estejam sob os desejos e ordens do marido. Ao sair da asa de ordens e superioridade masculina, a mulher “quebra a corrente estabelecida por Deus, passando de seu lugar de ajudante e contempladora, para fazer coisas que ela, por sua fraqueza de gênero, corpo e mente, jamais poderia fazer.” [uau, até escrever um negócio desses, como conceito de pensamento de Gilead, me deixa constrangido e internamente mal].

O fato: Angela, o bebê de Janine, está doente. Aparentemente todos os tratamentos possíveis foram feitos e “não há nada de errado com ela“. Mas há. E na tentativa de reunir mãe e filha, talvez como um ato desesperado e um motivo de despedida, o roteiro de Nina Fiore e John Herrera cria o ímã perfeito para a reunião de personagens neste episódio, sem ferir a linha corrente mais densa (relação na casa dos Waterford) e adicionando coisas que podem ser o início de algo instigante para a série, ou seja, a retomada mais firme de atividades de resistência que já tinham se mostrado na 1ª Temporada (as cartas voltam aqui, e estão com Nick, o que me parece um mal sinal, a médio prazo) e que conseguiu colocar uma bomba nas mãos de uma das aias, realizando um atentado.

Se as estruturas sociais de Gilead haviam ficado abaladas com o ataque — cabendo até uma pequena fase de “mais terror nas ruas” e deposição relâmpago de um novo Comandante –, fica cada vez mais clara a indicação de que o nível de opressão do sistema chegará a um ponto de esgotamento, fazendo, no processo, com que grupos ou pessoas se tornem progressivamente descontentes, talvez mudando parcial ou totalmente de opinião, o que ser o caminho de Serena. Independente deste ser o caso ou não, a insatisfação aliada a uma tentativa de mudança volta a ser um elemento corrente no show, gerando uniões por dor e por ódio, abrindo as portas para um tipo de engajamento que, como todo mundo sabe, é contagiante, seja para o bem, seja para o mal — basta olhar para o Brasil de pelo menos 2 anos pra cá e entender como isso funciona na prática, mesmo em uma sociedade não tão opressiva quanto a de Gilead… imaginem só.

Prezando pela iluminação focal, interna, a fotografia de Women’s Work é um presente bem embrulhado para o espectador. Como as pequenas esperanças que se acendem de maneira individual, em um único espaço — e depois se espalhando para muitos outros, deixando “os de fora” olhando, perplexos, sem saber exatamente o que fazer –, Fred vai acendendo abajures, contemplando sua luz, assim como Serena e June. E tudo isto em um episódio onde uma Marta médica é chamada para atender uma criança e onde Janine reata os laços com sua bebê, que ao raiar do dia, com todo o simbolismo de uma “nova página” que isso pode trazer, está bem, deixando Tia Lydia estupefata. A passagem da dor, do constrangimento e do ódio para a beleza de uma criança num momento de doçura com a mãe, foi uma das mais belas formas de se terminar um episódio. Na maior quietude possível, os roteiristas conseguiram armar a enorme pira de uma enorme fogueira. Uma das maneiras mais inteligentes e sutis de “criar um monstro” que eu já vi em uma série.

The Handmaid’s Tale – 2X08: Women’s Work (6 de junho de 2018)
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Nina Fiore, John Herrera
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Ann Dowd, Max Minghella, Ever Carradine, Stephen Kunken, Sydney Sweeney, Nina Kiri, Bahia Watson, Jenessa Grant, Troy Blundell
Duração: 52 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.