Crítica | The Handmaid’s Tale – 2X11: Holly

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Contexto é tudo.

Ele nos permite entender quando é necessário considerar o todo e a parte, dentro de um determinado cenário, vindo de uma situação específica e criando possibilidades para um outro tipo de situação. Contexto nunca é algo fixo. Sua maleabilidade é uma das coisas que o tornam precioso, porque a inter-relação de circunstâncias que faz só é possível quando agrupados um número X de eventualidades, dentro de uma pontual conjuntura. É do contexto que sai a matéria-prima para a crítica. E é durante e após a crítica que surge, amparado pelo contexto, o elemento dialético de uma determinada obra. No presente caso, coloquemos em contexto o roteiro de Bruce Miller e Kira Snyder para Holly, um dos mais poderosos capítulos desta 2ª Temporada de The Handmaid’s Tale.

Holly é um episódio materno. Tem a ver não somente com o fato de June dar à luz à sua segunda filha — que é batizada com o nome da avó, vejam bem –, mas com a memória do nascimento de Hannah, e também com um momento de separação, quando ela começou a visitar a escola. As ações, claro, são um contraste para a chegada de Holly ao mundo e à recente (e segunda) separação entre Hanna e June, vista em The Last Ceremony, outro simbólico episódio. Nesse contexto, temos uma mulher nos últimos momentos da gravidez, solitária, em um lugar hostil. As tentativas de escape aqui são diversas e fazem o nosso coração acelerar, esperando por algo definitivo. A agonia, porém, permanece, e a direção de Daina Reid faz de tudo para nos mostrar que existem diversas formas de olhar este sofrimento.

Mais do que em qualquer outro episódio, a direção e a fotografia aqui estão em um nível difícil de se alcançar hoje na TV (junto com Westworld, THT é de um primor visual absurdo) e notem como June é filmada sob diferentes ângulos, nos dando diferentes impressões de observação para a personagem. Há cenas sob a sua perspectiva. Cenas em plongée (opressivas, sob o “olhar de Deus”, de cima para baixo); cenas em contra-plongée (engrandecedoras, vendo a personagem de baixo para cima); cenas com diferentes ritmos e bases angulares de aproximação, muitas vezes dando a impressão de que June estava sendo observada à distância, mantendo a paranoia de Gilead na visão do espectador. Junto a isso, temos o contraste de cores e a beleza poética da sequência do parto, uma das mais intensas da série, que por consequência, mantém viva — de maneira textual e também visual e simbólica, pela chegada da nova vida — a esperança.

Nessa jornada, apenas dois blocos cortam a presença máxima da gigante Elisabeth Moss, aqui, em uma performance que provavelmente lhe garantirá mais um Emmy. De um lado, o flashback para o nascimento de Hannah. De outro, uma excelente cena com Fred e Serena discutindo sobre Offred, momento de verdades morais e ideológicas que com certeza trará repercussões. Mas o grande brilho, a grande explosão aqui é Elisabeth Moss. Todo mundo sabe que carregar nas costas um episódio não é nada fácil. Isso exige excelência incontestável do ator ou atriz em cena, que é justamente o que temos aqui. Moss entrega uma performance em facetas que acompanham a câmera investigativa por todos os ângulos possíveis, destacando a solidão da personagem, salientada, inclusive, na pós-produção, como o aplaudível trabalho de inserção de trilha sonora e manutenção de momentos de silêncio, colocados na hora certa e pela duração certa.

Nesse ponto, a luta pela liberdade é vista a partir de uma perspectiva para encontrar caminhos. Para o que fazer quando se tempo pouco tempo e coisas muito importantes acontecendo. E então entra em cena, o lobo negro. Para quem não está acostumado com os bastidores da produção cinematográfica ou televisiva, é importante dizer algo: filmar com animais é algo caro, e quanto mais selvagem/raro/difícil de adestrar for o animal, mais caro é o processo de filmagem, dado o pagamento de profissionais responsáveis, o seguro e o acompanhamento de algum representante de instituições de proteção, que precisam ter certeza de que nenhum bicho será maltratado. Desse modo, entendam que toda vez que se coloca um animal com destaque em cena, acreditem, ele não está ali apenas para figuração ou porque é bonitinho. Nem em comédias escrachadas os animais são usados dessa forma descompromissada, imaginem em uma série com o peso de The Handmaid’s Tale.

Pois bem. O lobo e a loba possuem significados duais e aqui, destacarei os que mais se aproximam do episódio. No sentido pessoal, mostra a selvageria da mãe (elemento quase universal de simbolismo para o animal), culminando no trabalho de parto, um ato ao mesmo tempo delicado e extremamente selvagem, com sangue, gritos, suores… Na malha de identificação, está aí também a ideia de fertilidade e proteção inesperada, indicando força e um futuro sólido, vide a Loba que protegeu e amamentou Rômulo e Remo, os fundadores de Roma. Já no sentido externo, o lobo é a ameaça presente diante da fraqueza. É naturalmente o animal que ameaça as ovelhas. É aquele que se coloca no caminho do peregrino, impedindo-o que chegue à cidade da libertação (no Corão, no caminho até Meca e, na Bíblia, no caminho até Damasco). A presença do animal aqui complementa a realização pessoal de June, em uma dualidade de sentimentos e caminhos.

Para finalizar, quero chamar a atenção de vocês para a narração. O texto é curtíssimo. A mensagem de esperança vem pelo nascimento, pela transmissão radiofônica com reafirmação de uma pequena, mas sobrevivente soberania americana na voz de Oprah; e pela fala de June nas fitas gravadas para estudo futuro, momento em que o roteiro dialoga com um ouvinte de um tempo onde (talvez) essa situação de opressão não exista mais, e com o espectador atual: “I’m sorry there’s so much pain in this story”. Todo ponto de virada tem uma preparação que destaca exclusivamente a pessoa que encabeçará a luta, seja para si, seja para os outros. Este episódio foi um desses pontos.

Não é nada espantoso que June tenha tido o merecido momento solo, no nascimento da filha, uma demonstração de agressão (a loba em June) e de recuo diante do lobo no caminho. E para coroar isso, a própria estrutura de entrega do texto aqui foi atípica em toda a série, deixando claro um modelo narrativo e até de encadeamento do drama que os PHE e alguns espectadores vêm se esquecendo pouco a pouco: o conto, exatamente como nos promete o título do programa. Como em todo conto, as viradas dramáticas precisam destacar o narrador, especialmente se estamos falando de algo novo para ele. Pois aqui está. A história da maternidade segundo o Conto da Aia.

p.s.: eu quero deixar registrado que me emocionei muito na cena do parto e que fiquei extremamente feliz que Holly tenha nascido em um ambiente onde apenas sua mãe estava. Fora do ritual de Gilead. Sem a cerimônia. Um bebezinho que chega ao mundo quebrando padrões sociais em uma ditadura. Uma verdadeira lobinha.

The Handmaid’s Tale – 2X11: Holly (27 de junho de 2018)
Direção: Daina Reid
Roteiro: Bruce Miller, Kira Snyder
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, O-T Fagbenle, Samira Wiley, Cherry Jones, Oprah Winfrey
Duração: 50 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.