Crítica | The Hollow Crown: Henrique IV – Parte 2

estrelas 4

Henrique IV – Parte 2 deveria ter um subtítulo, algo como “o fim da boemia de um príncipe” ou “a queda de Falstaff“. Nenhum deles, no entanto, poderia definir bem a consciência do poder e a mudança pessoal de um príncipe como fez Shakespeare ao escrever essa peça. Se na Parte 1, o bardo deu o tom de abertura para um reinado turbulento e apresentou as personagens que seriam atingidas pelas mudanças futuras, nesta Parte 2, já estabelecida a ameaça de deposição e mantido o desagrado de uma parte dos nobres em relação a Henrique IV, o autor nos mostra grandes transformações na Inglaterra vindas do núcleo de seu governo. Henrique IV – Parte 2 é uma peça sobre mudanças, mas principalmente, sobre um novo começo.

Mais do que qualquer outro príncipe da obra shakespeariana Hal, o Príncipe de Gales, passou por grandiosas transformações desde que o vimos como o boêmio e amigo do populacho em Henrique IV – Parte 1, situação que ainda nessa obra começa a se desfazer (rápido demais, por sinal) e que na sequência desapareceria por completo para dar lugar a um político, alguém que reconheceria os dias festivos e irresponsáveis da juventude e parte da vida adulta, mas que ao ser coroado, deixaria tudo para trás, como se fosse um sonho do qual precisava se livrar, segundo palavras ditas a um incrédulo Falstaff, no dia da coroação.

De um modo mais orgânico que na parte anterior e com melhor condução do texto original, Richard Eyre conseguiu uma ótima versão desse fim de linha para Henrique IV, tendo a perspicácia de deixar reticências sobre o príncipe Hal durante todo o tempo, trazendo-o à tona em momentos precisos da projeção, guardado sua aparição tocante e espantosa para a reta final, da qual se destacam dois momentos: o encontro com o pai moribundo, o último conselho e o reconhecimento do peso que estava para segurar com a coroação; e a dupla sequência do velório de Henrique IV à coroação de Henrique V.

Após a retomada das terras reclamadas na peça anterior e a sensível diminuição dos conflitos civis, Henrique IV enfrenta o medo da deposição e a irresponsabilidade do filho mais velho, o herdeiro do trono. Prevendo a chegada da morte, o rei pede conselhos aos nobres e parentes mais próximos, emite decretos, envia cartas e faz convites a juízes e nobres, preparando o ninho para que o Príncipe de Gales pudesse ter um bom início de reinado e ele próprio pudesse terminar o seu. Esse temor do rei, no entanto, pode não ser visto durante a projeção, mas é literalmente dito por ele ao filho, antes de morrer, momento em que se pronuncia sobre a coroa usurpada de Ricardo II e profetiza bom governo ao filho, que não roubaria mas herdaria a coroa de seu país.

Há um misto de esperança e desespero em todo o texto, como se a chegada de Henrique V ao trono pudesse ser a resolução de todos os problemas da Inglaterra e como se todos os seus amigos de boemia precisassem temer a sua recusa em reconhecê-los como parte de uma nova vida. Esse temor é confirmado logo nas primeiras horas de reinado, finalizando essa parte da tetralogia com a prisão de Falstaff e de alguns outros que um dia riram e se divertiram ao lado do príncipe. Sem conseguir controlar o que acontece em seu reino e o que vai ser de seus antigos amigos a pequeno, médio e longo prazo, Henrique V começa a sua jornada política com o estigma de traidor.

Jeremy Irons torna o fim da vida de Henrique IV um grande evento, com uma atuação que expõe com perfeição a confusão de sentimentos do rei, o medo e ao mesmo tempo a esperança de que sua descendência teria reinados muito melhores. Tom Hiddleston, no papel do Príncipe Hal/Henrique V, consegue nos fazer ver claramente a transformação pessoal do personagem, a ponto de parecer irreconhecível na última cena, num discurso-atuação notável. Por fim, o maravilhoso Simon Russell Beale no papel de Falstaff: o ator faz milagres com o texto, compondo um cavalheiro complexo e cheio de manias, tiques físicos e vocais, um exemplo extraordinário de entrega ao personagem que dá gosto de ver. Seu olhar perdido e amargurado na última cena do filme encerra um ciclo que começara com gargalhadas e chegara então a um ponto crucial, onde qualquer coisa poderia acontecer.

Partindo para a finalização da Henriad Tetralogy, temos agora no trono um rei que costumava estar em lugares onde bêbados, ladrões e prostitutas se reuniam para zombar dos nobres e das leis do país. O dilema do exercício da autoridade é o primeiro problema que Henrique V tem em mãos, um fantasma que assombrava o trono da Inglaterra já a alguns reinados e que veio se tornando mais violento e mais problemático com o passar dos anos.

The Hollow Crown: Henrique IV – Parte 2 (UK, 2012)
Roteiro: Richard Eyre (baseado na peça de William Shakespeare)
Direção: Richard Eyre
Elenco: Jeremy Irons, Tom Hiddleston, Alun Armstrong, Joe Armstrong, John Ashton, Will Attenborough, Conrad Asquith, Simon Russell Beale, David Beames, Jim Bywater, Alexandra Clatworthy, Ian Conningham, Tom Cornish, Niamh Cusack, Julie Walters
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.