Crítica | The Hour – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Palavra cruzada. A simples fusão de uma palavra com outra cria um encontro de uma letra. Imagine agora essa construção sendo arquitetada por um espião que utiliza a publicação no jornal para passar informações. Esse é o tipo de coisa que faz parte da trama envolvendo os bastidores de um programa de telejornal da BBC, no qual os jornalistas deixam as mesas da redação para investigar e transformar a maneira como a notícia é feita, em vez de apenas reportar os fatos. É a hora que você não pode perder.

A transmissão de som e imagem convertida para a televisão, que ocupa o centro da sala nas casas das pessoas, potencializou a disseminação em massa de informação e entretenimento. No entanto, Freddie Lyon acredita que os telejornais estão mortos – da maneira como estão sendo produzidos. Essa é a cena de abertura da série dramática britânica The Hour.

A partir desse personagem central, um jornalista investigativo incomodado com o sistema de comunicação e que não se contém dentro dos padrões da BBC, diante das restrições à difusão da informação, é possível acompanhar a crítica ao conformismo e adoção de um posicionamento frente ao contexto histórico situado no final dos anos 50.

Estamos em 1956. O Canal de Suez é o plano de fundo e a Guerra Fria é o motor dessa instigante história de detetive/espionagem. Uma junção de Agatha Christie e John Le Carré, sendo que, da primeira, ela toma para si o tom bem humorado e aposta no conhecimento da natureza humana para endireitar as pistas e completar as letras na palavra cruzada. Já do segundo pega emprestado o formato de suspense calibrado com doses de ligações inexplicáveis e agendas secretas, que pretendem atingir o objetivo com a ajuda de espiões infiltrados com um estilo que lembra aquele aderido no filme O Espião que Sabia Demais.

Diante das críticas, a série acabou atraindo comparações com a série estadunidense de grande sucesso Mad Men, por também se passar nos anos 50, embora seja visível a existência de um rumo totalmente diferente. Contudo, outra série que também segue o formato de bastidores de noticiários é a norte-americana Newsroom. Ela trabalha com uma discrepância temporal quase imperceptível com o tempo atual, o que muda consideravelmente o contexto da série, mas não tanto as situações e as problemáticas exploradas no The Hour.

Para confirmar essa paridade com a realidade, basta notar que a série britânica estreou diante de um contexto no qual se tornou inevitável o paralelo entre o escândalo dos grampos, envolvendo o jornal de maior circulação no Reino Unido – caso responsável por uma série de investigações e prisões e o estopim para a discussão a respeito da regulação da imprensa – e as críticas referentes ao domínio da informação e da liberdade de expressão utilizadas na série de televisão. E embora ambientada em um cenário vintage, os questionamentos parecem ter ecoado das telas da série para os jornais diários do Reino Unido atual.

Mas, retomando o ponto em comum com outras produções televisivas o que se destaca pode muito bem ser aquele da tensão amorosa, quase uma imposição para o formato de séries. Trabalhando junto com Freddie, o jornalista inconformado, temos Hector Madden, o âncora superficial, e a produtora do telejornal, Bel Rowley. Esse trio ocupa as cadeiras principais da trama, mas contam com um elenco de personagens bastante interessante para entregar uma excitante narrativa.

Uma vertente na qual é preciso reparar é o papel feminino dentro da redação, com a ocupação de cargo estratégico, como o caso de Bel Rowley. Existe a tentativa de transmitir uma real noção do que era esperado de uma mulher e o que ela tinha de enfrentar no mundo dos ternos, uísques e cigarros. Poucas eram as mulheres encarregadas de chefias, e como enfatizar esse melhor ponto de vista do que a partir do apelido que Freddie dá a Bel: Moneypenny. O que nos traz outra referência literária com James Bond, a partir da referência à personagem da secretária do MI-6.

Em geral, nessa temporada de estreia, a série consegue cativar a atenção do espectador durante 60 minutos, exatamente o tempo de duração do telejornal fictício. Além disso, tem umas sacadas irônicas bem colocadas. Um exemplo é ter um jornal sendo usado como embrulho de peixe com fritas, um prato típico local, que pode muito bem ilustrar o chavão sobre a importância e a validade das notícias.

The Hour – 1ª temporada (Reino Unido, 2011)
Criadora: Abi Morgan
Diretor: Diversos
Roteiro: Abi Morgan
Elenco: Romola Garai, Ben Whishaw, Dominic West, Anna Chancellor, Joshua McGuire, Lisa Greenwood, Oona Chaplin
Duração: 60 min por episódio.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.