Crítica | The Hunting Ground

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estrelas 5,0

Assédio sexual é uma realidade evidente em qualquer nação do mundo, independente de sua cultura e em praticamente todas (senão em sua totalidade) o que presenciamos é um completo descaso em relação às vítimas dos abusos, seja por parte das autoridades locais, do administrativo de empresas, firmas ou mesmo instituições de ensino. The Hunting Ground aborda tal questão focando no último caso, o assédio nos campi das universidades americanas, nos mostrando o impacto dessas situações nas vítimas e a ausência de medidas de repreensão aos infratores, que perpetuam tais crimes graças à impunidade.

Conhecendo pessoas que já passaram por situações similares sei de primeira mão o quanto uma experiência como essa pode abalar as estruturas do psicológico de alguém – a sensação de impotência chega a ser angustiante, sem falar, é claro, do trauma deixado na vítima. Tristemente ambos são causados tanto pelo ocorrido quanto pela velada proteção que os estupradores/ assediadores contam, simplesmente porque determinada organização não deseja ter sua imagem manchada. O documentário de Kirby Dick procura evidenciar essa questão, problematizar e trazer à tona, em uma empreitada para dar voz a todos aqueles que passaram por isso, sejam mulheres ou homens, porque, sim, atinge a todos.

Chega a ser perturbador acompanhar os cento e três minutos de The Hunting Ground, iniciado de forma precisa no momento de aceitação de jovens às universidades. A euforia das estudantes ao descobrirem que conseguiram entrar na instituição de ensino desejada chegaria a ser calorosa não soubéssemos de antemão a temática do filme. Ao som de Pompa e Circunstância, tipicamente ligada ao evento da formação universitária, assistimos comemorações de estudantes ainda ignorantes ao que irão passar, abusadas, estupradas, ignoradas e até mesmo taxadas de vadias, putas e derivados, teriam suas vidas abaladas, algumas chegando a tirar suas próprias vidas.

A intenção da obra é justamente essa, impactar, é preciso que a problemática abordada ganhe visibilidade ou a impunidade será mantida eternamente dentro desses ambientes repletos de hipocrisia, que buscam passar a idéia de plenitude e perfeição, quando, na verdade, são perfeitos espelhos do que a sociedade “de fora” efetivamente é: uma busca incessante pela imagem, seja ela verdadeira ou mera construção, um teatro para todos verem como você, ele, ela ou isso são bons. O longa evidencia a situação deplorável do sistema legal, tanto interno quanto externo às faculdades, revelando que, para qualquer conforto, é preciso que as vítimas recorram umas às outras ou a seus familiares.

Roteirizado pelo próprio Dick, a obra aborda diferentes pontos da mesma questão, ao mesmo tempo que acompanha um grupo de ativistas, com simples início que acabam conseguindo a atenção do governo federal, conseguindo, portanto, voz diante de todo o crime que ali ocorre. O texto assim não nos cansa em virtude dos muitos depoimentos e situações parecidas que somos apresentados e consegue manter nosso olhar fixo na televisão a todo o tempo. A triste circularidade que o longa apresenta ainda atua a seu favor, representando o quanto ainda devemos caminhar, que a luta mal começou, mas que, felizmente, apresenta um progresso que não se via desde os primeiros casos de assédio e estupro reportados.

O que pessoalmente ainda me deixa com pensamentos positivos é a visibilidade alcançada pelo documentário – uma produção da CNN por si só já garante uma audiência mais considerável se compararmos com produções independentes. Não bastasse isso, a música tema, Til it Happens to You – indicada ao Oscar de Melhor Canção Original e ao Grammy de Melhor Canção Composta para Mídia Visual – foi escrita por Diane Warren e Lady Gaga e, tendo sido, performada pela última, já ganha um alcance significativo, contando, inclusive, com um clipe bastante impactante, disponível ao fim desta crítica para que você, leitor, assista (e recomendo fortemente que o faça).

The Hunting Ground é um filme que deve ser visto. Trata de uma realidade que, infelizmente, é universal e atinge a mais pessoas do que imaginamos, inclusive muitas vítimas são próximas de nós e tem suas vozes silenciadas, graças à vergonha que a sociedade às proporciona. É uma obra que luta contra a impunidade de assediadores e estupradores e essa luta precisa fazer parte do nosso dia – somente assim essa deplorável situação poderá ser remediada. A luta começa com nossa própria mentalidade a vítima não possui parte da culpa, independente da roupa que estiver usando, se estiver bebendo ou se portando de maneira que os mais puritanos/machistas/etc consideram “errado”. Nada justifica assédio ou estupro, não vamos ajudar a silenciar mais ninguém, por favor.

The Hunting Ground – EUA, 2015
Direção:
 Kirby Dick
Roteiro: Kirby Dick
Elenco: Andrea Pino, Annie Clark, Claire Potter,  Melinda Manning, Kimberly Theidon
Duração: 103 min

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.