Crítica | The Killing – 2ª Temporada

estrelas 2,5

obs: Há spoilers da temporada anterior.

Não medi elogios à primeira temporada de The Killing. Atmosfera pesada com fotografia opressiva, atuações inesquecíveis e um roteiro focado no lado psicológico dos personagens e não necessariamente na resolução do assassinato de Rosie Larsen. Não se pode esperar muito mais em termos de séries dramáticas de televisão.

No entanto, apesar das atuações de Mireille Enos e Joel Kinnaman, que fazem a dupla de detetives Sarah Linden e Stephen Holder da polícia de Seattle, ainda continuarem sólidas e envolventes, Veena Sud, criadora da série original dinamarquesa e showrunner da versão americana, infelizmente, meteu os pés pelas mãos em todo o resto, retirando a alma de sua obra. A segunda temporada alarga o escopo da caçada dos detetives, com mais envolvimento político, mais favores sendo trocados em altos escalões e mais drama com os personagens. Mas tudo soou artificial, de pegada bem óbvia e completamente diferente do que vimos na primeira temporada.

Talvez haja duas explicações para isso. A primeira é que a série dinamarquesa original tinha a estrutura de um crime por temporada. Na versão americana, a investigação do assassinato de Rosie Larsen se dá ao longo de duas temporadas. A segunda é que a AMC cancelou a série no final da segunda temporada, talvez precipitando algumas decisões de roteiro equivocadas.

Mas o fato é que, mesmo que um ou os dois fatores acima tenham contribuído para o resultado final – e trata-se, apenas, de especulação de minha parte – não há justificativa para um desvio tão grande do foco psicológico que saboreamos na primeira temporada. Não que o lado psicológico tenha sido esquecido. Não foi. Apenas os roteiros abordaram essa questão de maneira simplista, óbvia e maniqueísta.

Querem um exemplo? Ao longo de toda a primeira temporada, aprendemos, vagarosa e naturalmente que Linden tem um passado complicado envolvendo a obsessão por uma investigação antiga e a guarda de seu filho, um afetando o outro e com reflexos fortes no presente. O que a produção faz então na segunda temporada? Retira da equação o filho de Linden, Jack (Liam James), mandando-o para morar com seu ex-ausente pai em Chicago e arremessa Linden literalmente para dentro de um sanatório onde ela é obrigada a nos contar sobre seu passado em dolorosas sessões psiquiátricas expositivas. Sai a sutileza. Saem as meias palavras. Saem a vagarosa construção do personagem. Entra um roteiro pesado, artificial e emburrecedor, talvez em uma desesperada tentativa de transformar The Killing em simplesmente uma série de procedimento policial com tantas e tantas outras para evitar seu cancelamento. Pois bem, não só não conseguiram evitar o cancelamento (o primeiro de dois), como estragaram o diferencial da história.

Mas não é só isso. O roteiro também nos pede acreditar que Darren Richmond (Billy Campbell), o vereador candidato a prefeito de Seattle baleado ao final da primeira temporada pode se recuperar de suas mazelas em dois ou três dias, já saindo da cama direto para sua campanha. Coloca Mitch Larsen (Michelle Forbes) em uma busca sem rumo que só está lá para arrumar função para a personagem, mas que não traz absolutamente nada de útil para a narrativa. Joga Stan Larsen (Brent Sexton) no colo de seu antigo patrão, o mafioso polonês Janek Kovarsky (Don Thompson) e ainda inventa um assassinato antigo que vem lhe morder a canela no presente. Dá contornos exagerados e até folclóricos para Nicole Jackson (Claudia Ferri), a chefe indígena que gerencia o cassino Wapi Eagle, pintando-a como o demônio em pessoa. Cria um imbróglio desnecessário envolvendo a saída do antigo chefe de polícia e a entrada de um novo (Erik Carlson, vivido por Mark Moses). E por aí vai. Tudo para enrolar a trama, criar um monte de pistas falsas, fazer Linden e Holder correrem pela cidade que nem galinhas sem cabeça e desnortear o espectador.

Ah, mas a revelação de quem matou Rosie Larsen faz todo sentido! Bem, essa é uma justificativa forçada para se gostar da segunda temporada e que já vi sendo dita por aí várias vezes. Se existe um lado positivo da revelação é a não-inclusão de um personagem novo para ser o “assassino surpresa”. Isso seria o fim. A investigação de Linden e Holder encontram mesmo o(s) responsável(is) e ele(s) foi(ram) apresentado(s) desde o começo da série. Maravilha. Ponto positivo. Acontece que, como deixei bem claro na crítica da primeira temporada, o que importa em The Killing é o processo e não a resolução. Claro, o simples fato de a resolução não ser completamente maluca já ajuda, mas, se olharmos para ela com calma – e não farei isso para não estragar a experiência de ninguém – veremos que ela é repleta de furos de lógica e de situações clichês, como monólogos explicativos, personagem coadjuvante que surge magicamente, deduções de último segundo só para fechar a série e mais um monte de problemas que tornam o final, o grande segredo, completamente vazio.

O caminho que a segunda temporada tomou é um mistério para mim. Tão misterioso quanto o assassinato de Rosie Larson que, para dizer a verdade, preferiria que tivesse continuado sem solução.

The Killing – 2ª Temporada (EUA, 2012)
Criação: Veena Sud
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Mireille Enos, Billy Campbell, Joel Kinnaman, Michelle Forbes, Brent Sexton, Kristin Lehman, Eric Ladin, Brendan Sexton III, Jamie Anne Allman, Annie Corley, Brandon Jay McLaren, Garry Chalk, Claudia Ferri, Mark Moses
Duração: 587 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.