Crítica | The Killing – 3ª Temporada

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estrelas 4,5

O assassinato de Rosie Larsen foi solucionado. No processo, a perturbada detetive Sarah Linden (Mireille Enos) quase foi novamente para o fundo do poço, sendo resgata, apenas, pelo não muito menos perturbado parceiro, Stephen Holder (Joel Kinnaman). No final, Linden resolve largar a polícia e Holder, ao contrário, encontra um propósito na vida e segue em frente em sua carreira.

The Killing voltou para a terceira temporada, depois do cancelamento da série pela AMC ao final da segunda. A Fox, juntamente com o Netflix, negociaram uma solução e um novo caso foi colocado perante Linden e Holder. Mas não se trata de um caso solto e independente. Um ano se passou, Holder tem um parceiro experiente novo, o detetive Carl Reddick (Gregg Henry) e Linden trabalha no porto, tem um namorado, uma casa bucólica em uma ilha e um joie de vivre pouquíssimo característico dela. Trabalhando aspectos que foram colocados nas duas temporadas anteriores, o roteiro traz um fantasma, um caso novo de um assassinato de jovens prostitutas que Holder, quase sem querer, faz a conexão com o modus operandi do assassinato que foi o responsável pelo ataque de nervos de Linden referenciado nas duas primeiras temporadas.

E, é claro, Linden volta à realidade, largando a vida utópica que se forçou a viver unicamente para parecer normal. Ela é uma policial. Ela é obsessiva. Essas são suas características. O que ela viveu por um ano foi uma mera fuga, uma tentativa de se encaixar nas normas ditadas pela sociedade. Mas sua personalidade é mais forte que sua vontade e a mera – e longínqua – possibilidade do assassino atual ser o mesmo que ela perseguiu três ou quatro anos antes é tudo o que é necessário para fazê-la voltar, fazendo uma espécie de “meia parceria” com Holder e trabalhando sob a chefia de James Skinner (Elias Koteas), seu ex-amante e ex-parceiro da época em que ela investigou o assassinato que a tirou dos trilhos.

Essa volta ao passado que é meramente resvalado nas temporadas anteriores é uma excelente ideia para criar coesão à série. Nada de um assassinato novo e aleatório. Há, na cabeça de Linden ao menos (e, quando ela encasqueta com alguma coisa, ela não para), um evidente ligação, mas uma ligação que ela não consegue estabelecer, especialmente considerando-se que sua antiga investigação chegou também à uma resolução. O assassino foi preso e ele se encontra, agora, no corredor da morte, há 30 dias de ser morto. E essa história paralela, dos últimos 30 dias de Ray Seward (Peter Sarsgaard) é que funciona para dar cor – ou tirar a cor – da investigação de Linden e Holder. Eles correm contra o tempo para reabrir um antigo caso e resolver um novo, com a possibilidade ínfima, irrisória de um estar ligado ao outro.

E, entre a investigação e o corredor da morte, vemos a vida como ela é, na sarjeta, no esgoto, na pobreza e no desespero. Meninas e meninos se prostituindo por dinheiro para subsistência. Crianças que fugiram de seus respectivos lares pelas mais diversas razões e que, agora, encontram apoio entre elas e nas poucas pessoas que tentam ajudá-las. A chuva das duas primeiras temporadas abre espaço para esse foco, que faz a atmosfera ficar ainda mais pesada, mais difícil de ignorar. E ainda somos brindados pela jovem atriz Bex Taylor-Klaus, fazendo o comovente papel da jovem prostituta masculinizada Bullet, que tenta se aproximar de sua paixão Lyric (Julia Sarah Stone) ao mesmo tempo que se mostra durona e inteligente, criando forte, mas hesitante laço de amizada com Holder.

Essas três vertentes fazem com que a terceira temporada de The Killing quase volte à forma da irretocável primeira temporada. A fotografia monocromática, em tons de cinza, passam muito bem os sentimentos que transpassam todos os personagens, uns lutando contra a insanidade, outros contra a insegurança e outros ainda para sobreviver. E, por trás de tudo isso, vemos Enos e Kinnaman dando outro show de atuação e formando uma excelente dupla detetivesca que não se vê facilmente por aí. São personagens falhos, que pouco falam, que pouco demonstram sentimentos, mas que nós sabemos que, por detrás de um verniz silencioso, há um turbilhão de emoções reprimidas.

Peter Sarsgaard também está sensacional como o prisioneiro Seward, às portas da morte. Sua epopeia kafkiana a caminho da morte é de fazer a alma de qualquer espectador se contorcer de dor. Sabemos que ele é um assassino, um homem violento e vemos isso em primeira mão quando, em atos de insanidade(?) ele chega a pedir para ser enforcado no lugar de morto por injeção letal, além de outros momentos ainda mais terríveis. Sua queda ao inferno é vertiginosa e ninguém é perdoado, muito menos o espectador.

Mas essa linha narrativa dessa terceira temporada é, também, a mais problemática, pois, durante metade do tempo, ela parece desconexa demais em relação a todo o resto. E há desdobramentos, com muita atenção dada também às vidas dos carcereiros do corredor da morte que, por diversos momentos, parecem estar lá unicamente para servir de fillers. Só a partir da segunda metade da temporada é que vemos uma convergência maior das linhas narrativas e passamos, então, retroativamente, a apreciar o que nos foi mostrado. No entanto, os momentos no corredor da morte, apesar do trabalho de Sarsgaard, exige certa paciência e compreensão.

O que funciona muito bem é a resolução orgânica para o crime. E sim, ele se resolve apenas nessa temporada, o que reflete a dinâmica da série dinamarquesa original e que, no caso do assassinato de Rosie Larsen, foi estendida para duas temporadas. Uma temporada para um crime, com uma estrutura de um episódio de abertura e um de fechamento de 84 minutos, com cada um dos outros oito episódios “do meio” com média de 50 minutos, permite um ritmo muito bom a tudo que vemos, especialmente pelos roteiristas terem largado a passagem de tempo de um episódio por dia, permitindo saltos temporais que ajudam a fluidez da narrativa.

The Killing, em sua terceira temporada, volta à forma e mostra que Linden e Holder são personagens que podem ser muito mais interessantes do que os crimes que investigam. Isso, sozinho, já é razão suficiente para se apreciar a série, apesar do soluço que foi a temporada anterior.

The Killing – 3ª Temporada (EUA, 2013)
Criação: Veena Sud
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Mireille Enos, Joel Kinnaman, Elias Koteas, Hugh Dillon, Amy Seimetz, Bex Taylor-Klaus, Julia Sarah Stone, Max Fowler, Peter Sarsgaard, Aaron Douglas, Gregg Henry
Duração: 528 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.