Crítica | The Killing – 4ª Temporada

estrelas 4,5

Atenção: Há spoilers das temporadas anteriores, mas não da 4ª.

The Killing arrebanhou, merecidamente, um enorme grupo de seguidores ao longo de sua sensacional 1ª Temporada. Esses fãs continuaram fieis à série ao longo de sua inexplicavelmente fraca 2ª temporada, quando o primeiro crime da dupla de detetives Sarah Linden (Mireille Enos) e Stephen Holder (Joel Kinnaman) foi solucionado. Seguiu-se o primeiro cancelamento da série, revivida, apenas, pelos esforços da Fox e do Netflix, em parceria com a AMC, produtora original. Com isso, novo fôlego foi dado, com os detetives se envolvendo na solução de um novo crime, mas com ligação ao assassinato que levou a obsessão de Linden ao limite. Ao final, Linden, demolida emocionalmente, assassina à sangue frio o verdadeiro culpado, o chefe de polícia, ex-parceiro e ex (e então atual também) amante dela James Skinner.

Esse fechamento bombástico da 3ª temporada funcionou muito bem como encerramento do arco narrativo e uma continuação não era completamente necessária. Seguiu-se, assim, o segundo cancelamento da série. No entanto, a Netflix havia notado o potencial para o chamado binge watching (o hábito de ver séries de uma tacada só) e bancou uma continuação. Quando li sobre isso, estranhei, pois tinha receio que mais um novo crime fosse inventado e a série começasse a enveredar para o caminho de um police procedural comum, como tantas e tantas outras.

Mas não é isso que acontece na 4ª temporada. Veena Sud efetivamente encerra o arco narrativo de Linden e Holder ao não se esquivar das consequências dos atos da dupla ao final da 3ª temporada. Muito ao contrário, aliás. A nova temporada começa apenas algumas horas depois do final da anterior, com Linden chegando em sua cada toda cheia de sangue e terra, entrando no chuveiro e, depois, queimando sua roupas. Ela está visivelmente abalada, nervosa e, quando acaba tudo, Holder chega, muito taciturno para que eles combinem a história que contarão. Ao longo de toda a temporada, o fantasma do que eles fizeram os assombrará. E, para piorar, o ex-parceiro de Holder, Carl Reddick (Gregg Henry), começa a desconfiar que há algo errado com o sumiço de Skinner e passa a fazer sua própria e silenciosa investigação.

Com isso, Veeena Sud é bem sucedida ao inverter os papeis. Linden e Holder, apesar de seus problemas pessoais, sempre tiveram uma retidão moral inabalável. Agora, eles são jogados do lado oposto do espectro. São, de certa forma, os vilões e passam a sentir o gosto amargo de serem alvos de uma investigação. Se, antes, a dupla já era difícil, agora Enos e Kinnaman exploram todas as concavidades sombrias da personalidade de seus personagens, demonstrando um incrível controle de suas atuações. É um prazer ver atores desse naipe com a liberdade para fazer o que fazem com personagens queridos de seus seguidores.

Mas é claro que um caso novo também surge e, dessa vez, ele é diferente dos outros: uma família rica inteira – os pais e duas filhas – é assassinada e o filho mais velho, principal suspeito, foi baleado (ou se baleou) de raspão na cabeça e perdeu a memória do acontecido. Com isso, somos apresentados ao rígido mundo de uma escola militar, a St. George, comandada com mão de ferro pela Coronel Margaret Rayne, vivida pela excepcional Joan Allen. O mistério é bem construído e tem resolução satisfatória, mas o mais importante é entender que esse novo caso só está mesmo lá para servir de “comentário” ao tema que perpassa toda a temporada: família. A investigação dos terríveis assassinatos são utilizados para fazer paralelos interessantes com a incapacidade de Linden de ter uma família, algo que vem desde seu abandono pela mãe quando era pequena, até Holder, que é catapultado, sem planejamento, para uma nova família, quando sua namorada Caroline Swift (Jewel Staite) informa que está grávida. No entanto, não podemos esquecer da família policial, da família de Skinner e sim, da “micro-família” formada pela dupla principal, que vive uma simbiose hesitante, eu diria, desde que se conheceram, no começo da investigação do assassinato de Rosie Larson.

Assim, o novo caso, apesar de relevante na narrativa, ganhou, para mim, um caráter subsidiário, quase de alegoria e que permite uma visão “externa” do turbilhão que está se passando da cabeça de Linden e Holder, além de, claro, desviar o foco para os assassinatos em si que, por mais macabro que possa parecer, é mais fácil de ver do que a espiral em que a dupla entra. Veena Sud demonstra coragem ao trabalhar dessa forma, pois é raro ver, em séries de televisão, os heróis serem transformados em vilões, por mais que o herói possa ser moralmente ambíguo.

E a produção também tira vantagem de seu novo lar. Apesar de ter sido originalmente criada para a televisão a cabo, que já permite maiores liberdades em termos de violência e linguagem, no Netflix a coisa vai ainda além, com doses mais generosas de diálogos orgânicos, de violência e, sim, de sofrimento. Além disso, apesar de composta apenas de seis episódios, cada um tem quase uma hora de duração, seguindo a linha de House of Cards e de Orange is the New Black. E isso acaba beneficiando a fluidez da temporada, pois permite maior desenvolvimento por episódio sem, porém, estender a série muito além do que o necessário.

Com um “convidado surpresa” no episódio de encerramento que, aliás, é dirigido por Jonathan Demme, a série ganha um final digno, em linha com a atmosfera criada desde a 1ª temporada. Mas isso só se a série acabasse em seu “final” e não contivesse um epílogo que, tenho para mim, acaba traindo o espírito de tudo o que veio antes. É provável que aqueles que morrem de amores pela dupla gostem do que acontece, mas Veena Sud quase consegue banalizar seu trabalho ao passar uma camada açucarada em cima de tudo, ainda que o trabalho de Demme na direção, com momentos brilhantes como a reconstrução da cena de abertura, seja memorável.

Com dois cancelamentos, duas voltas à vida e um final que é perfeito até o epílogo, The Killing se mostra como um police procedural com cérebro e com um show de atuações de Enos e Kinnaman que não pode ser perdida.

The Killing – 4ª Temporada (EUA, 2014)
Criação: Veena Sud
Direção: Nicole Kassell, Lodge Kerrigan, Ed Bianchi, Gregory Middleton, Coky Giedroyc, Jonathan Demme
Roteiro: Veena Sud, Dan Nowak, Nicole Yorkin, Dawn Prestwich, Sean Whitesell
Elenco: Mireille Enos, Joel Kinnaman, Joan Allen, Gregg Henry, Tyler Ross, Jewel Staite, Sterling Beaumon, Levi Meaden, Liam James, Amy Seimetz, Billy Campbell
Duração: 330 min. aproximadamente

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.