Crítica | The Knick – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Os primeiros minutos do primeiro episódio de The Knick já dão o tom da série: o cirurgião-chefe do hospital Knickerbocker, J.M. Christiansen (Matt Frewer), auxiliado pelo seu pupilo John “Thack” Thackery (Clive Owen), fazem uma cirurgia de placenta prévia em uma mulher, tentando salvar sua vida e a do bebê. É um momento grotesco, medieval, de afastar qualquer um da televisão. O sangue jorra sem parar e, apesar da confiança dos cirurgiões, cuja sala de operações é uma espécie de estádio em que eles têm que narrar o que estão fazendo, com diversos “olheiros” ao redor, a operação fracassa fragorosamente, com a morte da mãe e da criança. Mas essa é a 15ª vez que isso acontece com eles e o Dr. Christiansen não aguenta mais seu fracasso e, ato contínuo, se mata, o que torna o Dr. Thackery o novo cirurgião-chefe.

Os espectadores que conseguirem ultrapassar esses angustiantes minutos iniciais serão brindados com uma absolutamente sensacional série, que não se esquiva em tratar de assuntos sérios, atuais, relevantes em meio à sanguinolência das cirurgias, além de oferecer, de bandeja, uma aula de história e, também, de direção por Steve Soderbergh (que dirigiu todos os 10 episódios) e toda sua equipe criativa que reconstrói a Nova Iorque do ano 1900 à perfeição. The Knick é um primor de série, daquelas que surpreende a cada episódio, mas não com surpresas ou cliffhangers baratos e sim com inteligência, boas atuações e uma história cativante inspirada em fatos reais, mas sem se utilizar de nomes específicos da época (com poucas exceções como no caso de Thomas Edison e Mary Tyfoid).

O mais interessante é acordarmos para a realidade do que era o nosso mundo há pouco mais de 100 anos. A eletricidade começava a se propagar pelas cidades grandes. Automóveis eram carroças puxadas a cavalo. Higiene era um conceito muito relativo. O conhecimento científico que formaria a medicina moderna estava começando a engrenar, com a migração das cirurgias dos barbeiros (sim, barbeiros) para hospitais bem equipados, com cirurgiões especializados. Mas cada episódio de The Knick nos abre os olhos para o quão medieval éramos há pouquíssimo tempo e nos revela que, provavelmente em mais 100 anos, quando nossos netos olharem para trás, dirão a mesma coisa do momento em que vivemos hoje.

No entanto, a trinca de roteiristas vai muito além do que só a abordagem do nascedouro da medicina moderna, ainda que essa seja a força motriz da série e o aspecto responsável por muitos momentos memoráveis. Ao introduzir o cirurgião educado na Europa Algernon “Algie” Edwards (Andre Holland), também logo no primeiro episódio, como segundo-em-comando imposto por Cornelia Robertson (Juliet Rylance), membro do conselho-diretor do hospital e filha do Capitão August Robertson (Grainger Hines), um dos maiores responsáveis pela manutenção da saúde financeira do hospital, os roteiristas já abordam a segunda vertente da temporada: o preconceito racial. É que Algie é negro e, apesar de estarmos falando de Nova Iorque, estado que tomou a posição anti-escravagista da União durante a Guerra de Secessão contra os Confederados não muitos anos antes, o preconceito é palpável. A presença de Algie é vista com escárnio por todos, inclusive por Thack e pelo resto da diretoria, que logo aloja o promissor jovem literalmente no porão do hospital.

É absolutamente impressionante ver a reação de todos em relação a Algie. Os cirurgiões não querem ele na sala e os doentes não querem ser tocados por “negros”. Ele é um pária, apesar de ser um cirurgião provavelmente tão bom quanto Thack. Ajuda nesse preconceito o fato que Everett Gallinger (Eric Johnson), cirurgião protegido por Thack, seria o segundo-em-comando não fosse por Algie. A tensão racial é fortíssima, mas Algie tenta não se abalar, chegando a abrir um centro operatório no porão do hospital (à revelia de todos) para tratar dos menos afortunados, dos negros que nem mesmo podem ficar na mesma ala dos brancos. Essa discussão social, perfeitamente válida e importante mesmo hoje em dia, dá cor (sem trocadilho, por favor!) à toda narrativa, alçando The Knick a uma das melhores séries novas de 2014.

Mesmo com um prato cheio nas mãos, os roteiristas, porém, não se contentam com esses dois assuntos e abordam, também, o papel da mulher na sociedade (por intermédio de Cornelia), o aborto, as drogas ainda lícitas àquela época, como cocaína (Thack é viciado na droga), a corrupção da polícia e do sistema hospitalar como um todo (tráfico de corpos, competição de ambulâncias, caixa dois e outros), a prostituição e um sem-número de outras questões. Claro que nem todos os assuntos ganham relevância, mas todos funcionam como uma forma inteligente de rechear alguns episódios.

Clive Owen nem parece o Clive Owen que conhecemos ou, pelo menos, parece o ator em seu melhor trabalho, Filhos da Esperança. Seu papel de cirurgião obcecado com inovações científicas e que vive injetando cocaína para manter-se acordado e para fugir dos traumas causados pelas dolorosas perdas na sala de cirurgia, além de passar horas a fio nas salas de ópio, é denso, complexo e extremamente exigente. Seu Thack tem que passar altivez, respeito, força, da mesma maneira que, nas cenas fora do hospital, precisa passar fragilidade, dependência e até desespero. Quando sua vida de drogado começa a convergir e interferir em seu trabalho então, seu papel chega ao ponto alto, com uma atuação digna de nota e que demonstra a maturidade do ator.

Andre Holland, como Algie, tem papel menos complexo, mas não menos importante em termos de atuação. Ele transmite, quase sem alterar suas feições, a revolta calada pelo preconceito e ignorância dos outros que ele não pode combater abertamente. Além disso, ele esconde, lá no fundo, seu amor proibido, impossível mesmo, por Cornelia e nós vemos isso em Holland a cada vez que seu Augie conversa com ela. É uma atuação sutil, mas extremamente eficaz.

E eu poderia falar quase que de todo o elenco, pois todos foram escolhidos à perfeição e encarnaram seus respectivos papeis, como Jeremy Bobb fazendo Herman Barrow, o gerente do Knick com problemas financeiros, Even Hewson como a enfermeira Lucy Elkins, Michael Angarano como o Dr. Bertram “Bertie” Chickering, Chris Sullivan como Tom Cleary, condutor da ambulância do hospital e Cara Seymour como a irmã Harriet, parteira do Knick. É um elenco de encher os olhos e de se aplaudir de pé, mesmo que, por um momento, desconsideremos Clive Owen e Andre Holland.

Em termos técnicos, a reconstrução de Nova Iorque, tanto exteriores quanto interiores, é assombrosa graças ao trabalho de design de produção de Howard Cummings e de direção de arte de Henry Dunn, além da decoração de sets por Regina Graves. Séries de época costumam focar em tomadas internas, mas em The Knick, a produção não se furta em nos mostrar a cidade como um todo, trabalhando sequências exteriores impressionantes, que nos permitem subentender a evolução da cidade nesses últimos 100 anos. O mesmo vale para o figurino, que ficou ao encargo de Ellen Mirojnick, sempre cuidadosa ao retratar os aristocratas e a casta mais pobre com muita propriedade e exatidão (ou, ao menos, exalando exatidão).

Mas o mérito mesmo vai para Steve Soderbergh que não só dirigiu a temporada como cuidou da fotografia e da montagem. E a fotografia de The Knick, com iluminação natural que lembra muito o esforço hercúleo de John Alcott, em Barry Lyndon, é algo a se destacar. As sombras invadem cada sequência, mas Soderbergh trabalha com elas, usando-as em favor da narrativa e sem se valer de saídas fáceis para isso. Nem mesmo a chegada da eletricidade resolve o “problema” da iluminação, pois tudo continua – como de fato era – na penumbra, mal iluminado pelas fracas lâmpadas. Além disso, o choque do escuro por todo o hospital com o branco neve, iluminado, limpo, da sala “circo” de operações é muito eficaz. É como se saíssemos da Idade das Trevas para o Iluminismo, somente para descobrir que estamos, na verdade, na Idade da Pedra…

The Knick é um tour de force imperdível que alia aula de História com aula de direção em uma amálgama rara de se ver por aí. Mal posso esperar pela segunda temporada!

The Knick – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2014)
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Jack Amiel, Michael Begler, Steven Katz
Elenco: Clive Owen, Andre Holland, Jeremy Bobb, Juliet Rylance, Eve Hewson, Michael Angarano, Chris Sullivan, Cara Seymour, Eric Johnson, David Fierro, Maya Kazan, Leon Addison Brown, Grainger Hines, Matt Frewer
Duração: 500 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.