Crítica | The Knick – 2ª Temporada

estrelas 4

Obs: Há spoilers apenas da 1ª temporada, cuja crítica você pode ler aqui.

Muito mais do que uma série “de hospital” ou “de médico”, The Knick é uma produção que nos torna alerta para o tempo. Ela nos faz olhar para relativamente poucos anos atrás e perceber como o mundo era diferente – e em muitos aspectos, igual – ao que hoje vivemos e como provavelmente esse nosso tempo dito “moderno” provavelmente será visto como rudimentar, neanderthal quase, em poucos anos no futuro.

Usando como pano de fundo o famoso hospital novaiorquino The Knickerbocker, em 1901, a 2ª temporada da série começa alguns meses após o fim da , com o genial cirurgião Dr. John W. “Thack” Thackery (Clive Owen) internado na clínica para onde foi se curar do vício em cocaína e que gerou o sensacional cliffhanger em que nos é revelado que seu tratamento consiste no uso de outra droga, a heroína, então também usada como remédio. Thack ainda está lá, mais viciado do que nunca, pois, agora, oferece “serviços cirúrgicos” em troca de mais drogas. No hospital, o Dr. Algernon C. Edwards ou Algie (Andre Holland) atua interinamente como cirurgião-chefe, para completo desgosto do Dr. Everett Gallinger (Eric Johnson), que não só o odeia por ter passado à sua frente, como também por Algie ser negro.

Na nova temporada, aliás, a temática do preconceito ganha novos e terríveis contornos, quando Gallinger envolve-se com um grupo de “cientistas” que defende com unhas e dentes a eugenia, que tem como objetivo “melhorar a qualidade genética da raça humana” por meio de, dentre outros métodos, esterilização de pessoas que não carregam genes “desejáveis”. Alguém arregalou os olhos aí? Sim, eugenia, apesar de ser algo muito antigo, remontando à Grécia Antiga, ganhou corpo no começo do século XX e ver o assunto tratado em The Knick, é assustador. Assustador pois o máximo de condenação que vemos é Thack e alguns outros darem de ombros para a teoria, sem pensar muito no assunto. Assustador também por sabermos que, nesses últimos 100 anos, essa abordagem foi empregada em larga escala em conflitos mundiais, notadamente durante a 2ª Guerra Mundial. Assustador principalmente por constatarmos que ainda tem gente que defende e acredita nisso.

Mas The Knick também lida muito fortemente com a corrupção, desta vez tendo a construção do novo Knickerbocker como catalisador para esquemas por parte de Herman Barrow (Jeremy Bobb), o gerente do hospital e responsável pela obra. Sua ambição sem limites e a mais completa falta de escrúpulos gera um personagem repugnante (Gallinger, porém, ganha esse troféu), mas que, de alguma forma, permite certa simpatia por ele. Afinal, com raras exceções, os personagens da série são complexos e repletos de camadas que impedem olharmos para eles com um sorriso ou com o cenho franzido. Eles transitam perfeitamente entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, sempre nos surpreendendo.

Vejam por exemplo uma das melhores linhas narrativas paralelas da 2ª temporada, a que lida com a ex-freira Harriet (Cara Seymour) e o volumoso motorista de ambulância Tom Cleary (Chris Sullivan). A improvável dupla que, na 1ª temporada, tinha uma operação clandestina de abortos e que, na 2ª, é usada como pretexto para levar Harriet ao fundo do poço, volta com força total e com enorme destaque. Tom claramente sente algo por Harriet, mas o sentimento não é recíproco. Ou será que é? A peculiaridade desse relacionamento gera um perfeito rapport com o espectador, que não se cansa de ver os dois atores mostrarem sua química em cena, mas há algo de estranho ali, algo que não se encaixa perfeitamente. Somente ao longo da temporada é que é possível perceber o problema em uma sequência magnífica de Steven Soderbergh em um confessionário.

Aliás, Soderbergh, que se enamorou pelo projeto da série e, no lugar de dirigir apenas o primeiro episódio da 1ª temporada como originalmente planejado, dirigiu todos, voltando para dirigir novamente todos na 2ª, amplia seu campo de experimentação audiovisual. Enquanto que a 1ª temporada já mostrava sinais da ousadia do diretor, é apenas na 2ª que ele solta os freios completamente e faz usos muito interessantes da câmera, com ângulos extremos, shaky cam em momentos-chave de confusão e uma fotografia com uso extremo da luz natural, graças ao seu próprio trabalho na fotografia e também na montagem. Aqui, as câmeras digitais são utilizadas para capturar sequências escurecidas naturalmente, refletindo a claustrofobia de um mundo em que a luz elétrica ainda era artigo de luxo.

Em muitos momentos, Soderbergh exagera, porém. Especialmente quando ele parte para a “câmera na mão” em sequências que não pedem tal recurso. Mas são momentos esparsos e que são compensados por um trabalho inteligente e diferente, literalmente transformando The Knick em um laboratório, exatamente como Thack e suas técnicas cirúrgicas ousadas e controversas. Ao ir a extremos, Soderbergh quer emular esse sentimento de descobertas que os roteiros vão trazendo ao longo dos 10 episódios da temporada, mostrando que ele próprio – um pouco egocêntrico, eu sei – se vê em Thack: alguém além de seu tempo, com coragem de arriscar tudo.

Jack Amiel, Michael Begler e Steven Katz, roteiristas da 1ª temporada, também voltam para a 2ª, ampliando o escopo de suas críticas sociais como mencionado acima, mas estranhamente reduzindo a participação de Algie e até mesmo de Thack. Demora um pouco para a temporada achar terreno firme para fincar sua bandeira, com assuntos pouco desenvolvidos nos primeiros episódios e outros aparentemente perdidos no contexto maior. Uma dessas questões é a investigação do assassinato de Jacob Speight, inspetor do departamento de saúde que nos é apresentado na temporada anterior e que improvavelmente criara laços de amizade com Cornelia Robertson (Juliet Rylance). A temporada já começa com ele morto, afogado, e com Cornelia desconfiando de algo errado ali. Esse trabalho detetivesco da personagem permeia toda a temporada e soa estranho e forçado muitas vezes, ainda que o desfecho seja de tirar o fôlego e absolutamente revelador sobre a natureza humana.

Outra linha narrativa muito explorada pelos roteiristas é a da enfermeira Lucy Elkins (Eve Hewson), amante de Thack na 1ª temporada, mas que é rejeitado por ele quando o cirurgião volta de sua internação. O arco da personagem é fascinante, com o amadurecimento meteórico de Lucy com os acontecimentos ao seu redor e com sua postura perante eles. Aqui, novamente, vemos os roteiristas explorarem a emancipação feminina sem simplificar o assunto.

Apesar de menos perfeita que a 1ª temporada, a 2ª temporada de The Knick é indispensável para apreciadores de boa televisão. Atuações de se tirar o chapéu, assuntos que desnudam nossa percepção temporal de modernidade e um cliffhanger inusitado fazem da temporada uma das mais fascinantes de 2015.

The Knick – 2ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Jack Amiel, Michael Begler, Steven Katz
Elenco: Clive Owen, Andre Holland, Jeremy Bobb, Juliet Rylance, Eve Hewson, Michael Angarano, Chris Sullivan, Cara Seymour, Eric Johnson, David Fierro, Maya Kazan, Leon Addison Brown, Grainger Hines, Matt Frewer, Jennifer Ferrin, Perry Yung, Ben Livingston, Stephen Spinella, Arielle Goldman, Molly Price, Michael Nathanson, Rachel Korine, Jeremy Bobb
Duração: 500 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.