Crítica | The Last Guardian

the last guardian

estrelas 4,5

Paz

Os caminhos estão descansando…

Foi em 2009 a primeira vez que The Last Guardian deu as caras. Sete anos separaram a encantadora e estranha primeira impressão do jogo em si. Onze, contando a distância do seu inesquecível antecessor espiritual, Shadow Of The Colossus – ao qual considero a melhor obra da geração Playstation 2. Não é preciso dizer que a expectativa e empolgação inicial tornaram-se um verdadeiro peso nas costas dos desenvolvedores, seja da falecida Team Ico, seja da genDESIGN, fundada pelo gênio criativo de Fumito Ueda que deixara a Sony em 2011. Agora lançado, The Last Guardian, seguramente, é daqueles jogos necessários, uma loucura paradoxalmente apolínea, centrada em afeto e contemplação.

Em primeiro lugar, para um game que quase virou piada devido aos constantes atrasos e ausências de notícia sobre seu desenvolvimento, tê-lo em mãos e vê-lo se desenrolar beira uma experiência mística. Os familiarizados com a experiência que o estúdio japonês proporciona bem sabem que o misticismo, enraizado em cenários desolados e solitários e nas narrações herméticas, é um ponto basilar da jornada. As rachaduras das ruínas em meio ao verde que permeia praticamente todo o game geram uma crescente sensação melancólica que reside na linha divisória do assustador, da agonia que só abismos são capazes de nos lembrar em momentos mais reservados – e haja abismo a se atirar neste game! Verdadeiro exemplar de ambientação, The Last Guardian tem na criação de mundo – um mundo extremamente semelhante com Ico e SotC, como era de se esperar – a primeira carta na manga para conquistar o coração de fãs novos e relembrar os da velha guarda o porquê do hype que o game criou.

Mas nada, nem de longe, supera a criação de Trico.

O hipogrifo – provavelmente chamado pelo seu ignorante primo de “gato” ou “cachorro”, com essas aspas reticentes e cara de desconfiança – de Ueda é um poço de emoção em potencial e fator preponderante do estrondo que o game provocou desde a década passada. Além de exalar carisma pelo seu tamanho e pela relação que cria com o garoto que controlamos durante o jogo inteiro, Trico é o motor do game como game: um quebra-cabeça gigante que utiliza simples e inteligentes level designs com o objetivo de fazer o pequenino protagonista avançar com seu gigante companheiro. Novamente, a admiração de tais momentos, da ideia de se fazer um jogo desafiador baseado somente nessa relação, não só instiga a continuidade para que a história por trás se desvele, mas também cria no jogador um ânimo inebriante e misterioso que tanto a narrativa – brilhante e sucinta – quanto a dificuldade baixa do jogo prosseguem em causar. Impossível não sorrir com o que é feito, ainda que os momentos épicos sejam, como se diz no futebol, telegrafados em variados momentos.

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Não é demais ressaltar que The Last Guardian é um game tipicamente oriental. Ueda não trabalha com conceitos racionalizados, puzzles complexos nem ultra elaborados plot twists. O sentido, como significado da trama, é claramente priorizado em detrimento do ritmo acelerado, da curva de dificuldade nos inimigos ou dos exageros que blockbusters americanos normalmente se enchem, do roteiro ao tom geral dos games – e Kojima que me desculpe, mas quando se mistura um com outro não faltam aspectos risíveis para se apreciar. O jogo parece sóbrio o suficiente para contar com precisão a história que se imaginara para início de projeto, gerando uma memória saudosa assim que acabado e sendo profundo – no sentido de inacabável – em uma inevitável apreciação sensorial posterior. Trata-se de um exemplo caro de como marcar presença com um conto original, personagens fascinantes e elegante simplicidade.

The Last Guardian suscita também uma bela discussão que geralmente vem na pauta das rodas de jogadores: o que importa mais para um game ser bom? Gráficos, história, jogabilidade, personagens, desafio… uma amálgama de tudo, certamente, mas algum fator deve ser preponderante. Anos atrás um amigo respondeu com convicção: gameplay. Disse ele que os controles devem prevalecer à história, opção que dei na época. The Last Guardian é um belo case deste embate, pois enquanto a ponte onírica é construída pela sensação de saudade – tema do jogo, em geral – calmamente construída pelos aspectos já ressaltados, a mecânica dos controles é capaz de provocar o inferno na terra segundos depois de uma magnífica paisagem se dar na tela. Talvez haja algo de sintomático: sendo o mesmo gameplay de Shadow Of The Colossus, game de enorme sucesso, pode-se dizer, até certo ponto, que os gamers estão mais frescos – ponto que concordo em grande medida. Mas ter de lidar com a péssima câmera, ou com controles que não respondem bem aos comandos – em um jogo que se alicerça exatamente no manejo destes elementos – é de matar a vontade de qualquer um. Não é que The Last Guardian esteja longe de Uncharted. Evidentemente está. O problema crucial é que The Last Guardian se propõe a algo que só funciona realmente bem caso haja uma jogabilidade fluída. Descobrir por qual caminho seguir depende dos pulos do garoto e de Trico. Admirar a beleza que pintaram visualmente depende da câmera bem posicionada. Seguir no jogo vincula-se, não raramente, em dar alimento ao companheiro de asas, tarefa aparentemente agradável e carinhosa, mas que pode se tornar tão cansativa e irritante que chega a despertar no jogador mais tranquilo o Kratos que nele dormia.

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É claro que há exageros. Em determinado ponto, o game possibilita dar ordens ao hipogrifo, algo que todo dono de um animal de estimação – estou pensando em cachorros, obviamente – se identificará: Trico recorrentemente demora para responder, sendo necessário reafirmar a ordem com gritos e gestos. Muito semelhante com a égua Argo de SotC, só que em grande escala. Mas é um real pecado ter um game tão distinto e único, como é praxe de Ueda criar, deslizando em aspectos técnicos e mecânicos que se mostram, de fato, extremamente importantes. Controles pouco apurados, assim como problemas comuns na queda de quadros por segundo, acabam por minar o jogo e explicar, para os que se perguntavam pelo porquê da demora do game, as dificuldades enfrentadas em todo o processo de desenvolvimento.

Mas então The Last Guardian não vale a pena?

Vale sim. E muito. Honestamente, continuo com a opinião de que a história e a narrativa são os pontos que fazem um jogo memorável, sem negar a importância de todos os outros. O gameplay pode ser mais ou menos: se o modo e o conteúdo da história contada forem cultivados com detalhamento, o game me terá. Se para você o gameplay é muito superior, certamente a nota que dei não te satisfará. Todavia, como disse acima, talvez seja apenas um aspecto da nossa época a obsessão por gráficos sem falhas e técnicas perfeitas. Talvez também explosões mantenham mais um moleque sentado do que o trabalho de descobrir para onde se deve ir em uma tela sem milhões de setas, objetivos e menus. Nada do que falo é algo novo, convenhamos.

Apenas um ponto final: música. A trilha sonora do game é muito mais passiva do que a vista nas épicas lutas contra os colossi, mas ainda preferiria algo um pouco mais marcante, ao nível dos personagens em si. A minha faixa memorável, infelizmente, é a do trailer de 2009. Não me entenda mal: o que foi criado pelo compositor Takeshi Furukawa é algo que vem pontuando meus dias desde que deixei de jogar. Entre qualquer faixa daqui e The Opened Way, todavia, ou Demise of the Ritual, não há como não voltar ao segundo game do estúdio.

The Last Guardian fala ao coração, mas para sua mensagem chegar é necessária paciência. Repetindo o que já disse sobre Shadow Of The Colossus, realmente acredito que o game não é para todos hoje em dia, sem querer me achar mais profundo do que outros. É questão de estilo e cultivo – e por isso discuto, já que isso envolve mais uma questão ética do que meramente “gamística”. O jogo tem graves erros e chega a irritar, mas também leva aos cumes que pouquíssimas obras nessa mídia sequer consideram levar o jogador. Não é só o silêncio pelo silêncio, nem o fantástico pelo fantástico. É o minimalismo pontualmente colocado, é a forma que é conteúdo por si mesma, são personagens com alma e um mundo que espelha o vazio, a incompletude e a fragilidade que o garoto, Trico e cada jogador sente ao passar por mais uma jornada inesquecível proporcionada por Fumito Ueda. Irritante de verdade é encontrar quem não se abra ao poder deste jogaço por preciosismo e mania de limpeza.

Começo e termino com Mário Quintana.

Jardim Interior

(…)
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

The Last Guardian
Desenvolvedor: genDESIGN e SIE Japan Studio
Lançamento: 6 de dezembro de 2016
Gênero: Aventura e Quebra-cabeça
Disponível para: Ps4

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.