Crítica | The Last Kingdom – 1ª Temporada

estrelas 3,5

O que mais leio por aí é que The Last Kingdom é uma espécie de resposta da BBC à Game of Thrones e isso me irrita profundamente. Quer dizer que, agora, qualquer série de televisão que se passa na Idade Média será comparada à série da HBO? Isso não só é uma comparação errada, como cria um problema enorme de expectativa, pois é natural que se passe a esperar momentos grandiosos, muito CGI e elementos mágicos, como dragões e zumbis do gelo.

No entanto, não há nada disso em The Last Kingdom. Muito ao contrário, a obra é baseada nas Crônicas Saxônicas, série de livros ainda sendo escrita por Bernard Cornwell, especialista em misturar sensacionalmente bem ficção e fatos reais para contar fascinantes histórias de vários períodos formativos da Inglaterra. A primeira temporada, desenvolvida por Nigel Marchant e Gareth Neame (ambos produtores de Downton Abbey e o segundo também de Roma, essas sim séries comparáveis a The Last Kingdom em termos de narrativa e propósito) aborda os acontecimentos dos dois primeiros livros, O Último Reino e O Cavaleiro da Morte, contando como, no século IX d.C., com a Inglaterra dividida em diversos reinos e sendo dominada pelos vikings dinamarqueses, o jovem Uhtred, filho do conde (ealdorman, no original) de Bebbanburg, na Nortúmbria, é sequestrado pelos inimigos quando jovem, acaba sendo adotado por eles, absorvendo seus hábitos e, depois de uma tragédia, vê-se obrigado a ajudar o Rei Alfredo de Wessex a derrotar esses próprios dinamarqueses.

São três os elementos principais da série: uma fascinante discussão sobre identidade, uma aula de história sobre uma era muito pouco conhecida e uma abordagem sobre a devoção cega à dogmas religiosos.

A questão da identidade vem do nascedouro da narrativa, quando vemos Uhtred, filho do conde Uhtred (Matthew Macfadyen) e irmão mais velho de Osbert, ser morto por vikings que acabaram de chegar em seu território. Uhtred-pai, então, imediatamente manda o padre Beocca (Ian Hart) rebatizar Osbert como Uhtred. Mas, depois de um massacre pelos vikings, o garoto acaba como escravo de uma família dinamarquesa viking que, depois, acaba adotando-o juntamente com Brida, também saxã. Ambos, então, absorvem por completo o jeito viking de ser, tornando-se dinamarqueses em hábitos, crenças e aparências. Mas a desgraça recai novamente sobre Uhtred, agora crescido e vivido por Alexander Dreymon: ele perde sua família dinamarquesa em um ato de vingança e acaba sendo culpado por isso. Sem chances de se explicar, ele e Brida (Emily Cox) fogem para o único reino saxão ainda não dominado pelos vikings, Wessex, comandado pelo aparentemente debilitado Rei Alfredo. Lá, apesar do desgosto de Brida, Uhtred passa a usar seus conhecimentos sobre os hábitos e estratégias dinamarquesas para ajudar o rei, tudo com o propósito egoísta de recuperar Bebbanburg, hoje controlada por seu tio traidor.

Portanto, Uhtred é alguém que não sabe exatamente quem é, uma pessoa sem lealdade a um povo ou a um país. Alguém que, no frigir dos ovos, só se preocupa consigo mesmo. Essa luta interna, apesar de não ser algo explorado a fundo na temporada, dá estofo para seu constante deslocamento em relação a tudo a seu redor. Quem o conhece, o recebe com desdém pelo seu passado, como uma pessoa de menos valor por ter sido criada por vikings pagãos. Quem não o conhece, mas o vê com seu figurino viking (ele se recusa a usar as armaduras saxãs), o teme imediatamente como um dos invasores. E, quem vê valor nele, sente inveja.

A aula de história vem de todo o contexto fático que rodeia a narrativa focada em Uhtred. Ele jamais existiu, mas o Rei Alfredo, um dos únicos dois monarcas ingleses a receber a alcunha de “O Grande”, o que já demonstra sua importância histórica, foi fundamental no início do processo da unificação da Inglaterra debaixo de um soberano apenas, criando uma identidade nacional. A temporada é muito feliz em retratá-lo da forma mais aceita pelos historiadores, como alguém de aparência frágil, cronicamente doente, mas inteligente e preocupado com seu legado, inclusive repetindo a famosa sequência em que ele, vivendo como camponês, teria levado uma bronca de uma camponesa por deixar queimar um assado no forno. Vivido de maneira serena por David Dawson, Alfredo, não seria errado dizer, é o verdadeiro objetivo da narrativa dos showrunners a partir da obra de Cornwell. Uhtred, de certa forma, é apenas o veículo para nos aproximar do combalido rei, uma maneira de nos colocar ao lado dele em sua jornada para afastar os vikings e trazer união, algo que seu neto efetivamente conseguiria anos depois de sua morte. Portanto, o componente histórico em The Last Kingdom é importantíssimo e muito bem-vindo, quase que como uma aula magna de um ótimo professor.

O terceiro vértice da temporada é a religião ou a visão da religião Católica sobre quem é diferente. Assim como nos dias intolerantes de hoje, qualquer crença que não fosse oriunda de Roma era automaticamente considerada como herege e errada e os vikings, claro, por adorarem diversos deuses, era vistos como demônios. Mas o interessante é notar o contraste, algo inclusive expressado pela paleta de cores na fotografia da série. Os ambientes vikings são vivos, cheios de cores, com os personagens vivendo a vida de forma exultante, como se cada dia fosse o último. Em Wessex, carregado por um Alfredo fervorosamente devoto – apesar de ironicamente pecador – tudo é cinza, triste, sujo, com figurinos espartanos e quase nenhuma cor. Cada vitória é celebrada com missas, nunca com festas e fogueiras noite a dentro. São duas visões de mundo exatamente opostas e que, exatamente por isso, criam um excelente magnetismo, com o mistério da fé cristã sendo hesitantemente admirado por Guthrum (Thomas W. Gabrielsson), um dos líderes dinamarqueses.

Mas a série tem alguns problemas que não passam despercebidos. O primeiro deles é de natureza orçamentária. Ainda que os showrunners façam milagre com figurinos perfeitos, que evocam a época e os povos com exatidão (eles só tomam a liberdade de manter curtos os cabelos dos saxões, algo que nem de longe reflete a realidade, mas que tem a função narrativa de diferenciá-los mais facilmente dos descabelados vikings), percebe-se uma forte restrição em relação ao uso de extras ou de CGI para dar mais recheio aos embates. Os roteiros – todos escritos por Stephen Butchard, também produtor, fazem grandes esforços para manter as batalhas ao mínimo possível, mas, mesmo assim, é visível o “esvaziamento” de diversas sequências em que um exército mais robusto seria necessário.

Esse, porém, não é o maior dos problemas. A questão principal é a forma como os roteiros simplificam a narrativa para resolver as mais diversas situações, por repetidas vezes, com salvamentos ou reviravoltas de último segundo, algo que funciona bem no começo, mas que cansa com o tempo. São coincidências demais, atalhos demais tomados por Butchard para passarem despercebidos. Ao contrário, eles chamam atenção para o problema na medida em que são intensificados, especialmente quando envolvem Uhtred. Aliás, devo confessar que Alexander Dreymon, no papel principal, foi uma escalação pouco alegre. O ator não faz feio exatamente, mas ele não consegue mergulhar de maneira convincente em seu personagem, algo que, por exemplo, Dawson alcança com facilidade. Ele chega quase a ser um caricatura de seu personagem, mas que acaba de alguma forma funcionando muito mais pela história sendo contada do que por seus méritos.

The Last Kingdom se sustenta como uma ótima série histórica que merece a atenção de quem aprecia o gênero. Mas é importante lembrar que a série não é e nem quer ser Game of Thrones e que a comparação é inepta ao limite. Esperem realidade com toques de ficção e não ficção com toques de realidade e a série muito provavelmente alcançará as expectativas.

The Last Kingdom – 1ª Temporada (Reino Unido, 22 de outubro a 10 de dezembro de 2015)
Showrunners: Nigel Marchant, Gareth Neame
Direção: Nick Murphy, Anthony Byrne, Ben Chanan, Peter Hoar
Roteiro: Stephen Butchard (baseado em romances de Bernard Cornwell)
Elenco: Alexander Dreymon, Tobias Santelmann, Emily Cox, Thomas W. Gabrielsson, Joseph Millson, Rune Temte, Matthew Macfadyen, Ian Hart, David Dawson, Adrian Bower, Simon Kunz, Harry McEntire, Brian Vernel, Amy Wren, Charlie Murphy, Rutger Hauer, Peter Gantzler, Sean Gilder
Duração: 480 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.