Crítica | The Leftovers – 1ª Temporada

estrelas 4

O Arrebatamento é um evento que faz parte da doutrina cristã e consiste, basicamente, no seguinte: Jesus Cristo resgataria todas as pessoas que “o aceitaram” e seguiram seus ensinamentos durante toda a vida, levando-as para o céu, ou seja, para a “Nova Jerusalém” ou “o paraíso”. As pessoas que não fizessem parte desse grupo de “escolhidos”, ficariam na Terra e sofreriam as consequências de não ter aceitado Jesus como seu salvador. O Arrebatamento é, em muitas religiões, um dos sinais do Apocalipse.

The Leftovers parte dessa premissa para nos perguntar: e se o Arrebatamento, de fato, acontecesse?

A série, baseada no livro homônimo de Tom Perrota e desenvolvida por Damon Lindelof (de Lost) em parceria com o autor, começa com uma breve cena do evento que acaba ficando conhecido como “Partida Repentina”, onde 2% da população mundial – cerca de 140 milhões de pessoas – simplesmente desaparece. Essa “Partida Repentina” é retratada assim, brevemente, para deixar claro ao espectador que a série não está interessada em dar respostas sobre o acontecido; esse simplesmente não é o foco, muito menos o objetivo da obra – até porque, que tipo de explicação satisfatória você esperaria obter para um mistério como esse?

E, convenhamos, é nesse fato que reside toda a beleza, inteligência e criatividade de The Leftovers. Tom Perrota quer nos mostrar quais seriam as consequências do Arrebatamento, e não suas causas. E ele faz isso brilhantemente. Através da pequena cidade de Mapleton, onde se passa a maior parte da história, aprendemos muito sobre a psique humana, relações interpessoais e, acima de tudo, as diversas reações do ser humano ao trauma – nesse caso, ainda mais amargurante, porque é uma situação completamente inédita, a que eles simplesmente não sabem como reagir.

Para adentrar no universo pós-traumático criado por Perrota faz-se necessária a completa imersão por parte do espectador. Coloque suas crenças de lado (ou agarre-as com todas as forças) e imagine-se na situação em que se encontram os personagens: só assim você conseguirá desfrutar do que a série tem a oferecer. A direção pesa a mão no drama e, se você comprar a proposta da série, entenderá que esse peso dramático é, sim, necessário. Logo no piloto, temos uma cena onde um personagem mergulha em uma piscina e grita com todas as suas forças. Não ouvimos som algum, mas é possível perceber toda a agonia do rapaz. Esse é o sentimento que The Leftovers quer transpassar.

Nesse universo, encontramos situações extremamente imaginativas; é aí que Perrota encontra em Lindelof um aliado para dar seu recado na obra televisiva. Perrota é responsável pela parte humana, enquanto Lindelof está ali para reforçar toda a aura misteriosa existente na história. A abordagem envolvendo o clã dos Remanescentes Culpados é uma das maiores provas disso. No livro, seus objetivos são logo relevados: essas pessoas entram para a seita para serem porta-vozes de uma mensagem; elas vestem branco, não falam, precisam fumar ininterruptamente e tem toda sua existência voltada para a missão de não deixar as pessoas esquecerem da Partida Repentina. Na série, os RC são rodeados de mistério, abrindo espaço para que o espectador possa criar diversas teorias e interpretações – coisa que Damon Lindelof faz muito bem e já provou isso com Lost.

O elenco foi apropriadamente escolhido. Justin Theroux está competente na pele do chefe de polícia amargurado Kevin Garvey; Christopher Eccleston dá vida a um atormentado e inconformado reverendo Jamison no tom certo, um religioso que não consegue aceitar que não foi levado no Arrebatamento; Ann Dowd e Amy Brenneman estão praticamente perfeitas como adeptas dos Remanescentes Culpados; mas o destaque fica para a revelação Carrie Coon, que abraça o personagem de tal forma, que sua Nora Durst, melancólica e perdida, chega a ser assustadora de tão convincente.

Com suas diversas e inventivas histórias, como a de Santo Wayne – um homem que diz possuir poderes sobrenaturais de cura através do abraço – Nora Durst e seu trabalho de assistente social para famílias que perderam membros na Partida Repentina, as artimanhas dos Remanescentes Culpados e até onde eles podem chegar para cumprir sua missão, The Leftovers é uma experiência única. Se você se deixar fisgar completamente por sua premissa, conseguirá retirar o que há de melhor dos temas abordados nessa obra incrível – e assombrosa – do americano Tom Perrota.

The Leftovers – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2014)
Showrunners: Damon Lindelof, Tom Perrotta
Direção: Peter Berg (eps. 1 e 2), Keith Gordon (ep. 3), Lesli Linka Glatter (ep. 4), Carl Franklin (eps. 4 e 6), Mimi Leder (ep. 5, 7 e 10), Michelle MacLaren (ep. 8), Daniel Sackheim (ep. 9)
Roteiro: Damon Lindelof (eps. 1 a 7 e 10), Tom Perrotta (eps. 1, 5 e 10), Kath Lingenfelter (eps . 2, 6 e 9), Jacqueline Hoyt (eps. 3 e 7), Elizabeth Peterson (ep. 4), Carlito Rodriguez (ep. 8)
Elenco: Justin Theroux, Amy Brenneman, Christopher Eccleston, Liv Tyler, Chris Zylka, Margaret Qualley, Carrie Coon, Emily Meade, Amanda Warren, Ann Dowd, Michael Gaston, Max Carver, Annie Q., Paterson Joseph, Frank Harts, Scotte Glenn, Janel Moloney, Marceline Hugot
Duração: 72 min. (piloto), 55 min. aprox. cada um dos nove outros episódios.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira