Crítica | The Leftovers – 2ª Temporada

estrelas 4,5

Quando um dos showrunners da série The Leftovers, Damon Lindelof (de Lost) anunciou que a primeira temporada não seria a última, ficou implícito que o programa seguiria de onde o livro homônimo de Tom Perrotta, desenvolvedor do show ao lado de Lindelof, havia parado. Afinal, como disse o próprio Lindelof em entrevista, a última cena da primeira temporada é a mesma narrada no livro e, daí por diante, não contavam com qualquer material para trabalhar.

Fato é que The Leftovers, com o material apresentado em sua segunda temporada, também com dez episódios, deixou claro, apesar da menor audiência em relação à temporada anterior, que ainda tinha, sim, muito a dizer, bastando que o conteúdo saísse das cabeças de seus criadores para o papel e, daí, para a TV. De fato, apesar de possuir uma narrativa mais intimista do que se costuma estimular no grande público, a nova temporada tanto tem a dizer, leitor ou leitora, que legitima ainda mais a série como uma das produções de ficção mais brilhantes para a TV dos últimos tempos.

Quem acompanhou os 10 primeiros episódios da série, porém, encontrará nesta segunda temporada um desenvolvimento ligeiramente mais dinâmico, mas não menos profundo. Mudança, aliás, é uma palavra-chave para os episódios inéditos do programa, que iniciam, de fato, uma nova fase na história, em nova cidade, com novos nomes acrescentados ao elenco e novos conflitos – até a abertura muda e, ao estilo country, que dialoga perfeitamente com a nova proposta, é um deleite à parte. Ao mesmo tempo, como uma sequência, contudo, eventos anteriores naturalmente não são esquecidos e desempenham seu papel ao longo da temporada. Além disso, mudanças de uma temporada para outra não são novidade, mas neste caso provam-se como mais um elemento de um roteiro seguro de si, que parece saber exatamente para onde vai e como chegar lá.

A saga da família Garvey continua na cidade de Jarden, Texas, onde, no fatídico 14 de outubro no qual 2% da população mundial simplesmente desapareceu, nenhum sumiço foi registrado. Pai e filha, Kevin (Justin Theroux) e Jill (Margaret Qualley), agora acompanhados pela madrasta e namorada do patriarca, Nora Durst (Carrie Coon) e por um bebê, buscam retomar suas vidas no local, que ficou conhecido como “Milagre” (“Miracle”, no original). A cidade, como é lógico, recebe visitantes e interessados em habitá-la, daí criou um parque histórico para lucrar com o turismo e um sistema rígido de autorização para se entrar em seus domínios. Antes que os Garvey lá chegassem, no entanto, nela já vivia a família Murphy, composta pelo bombeiro e valentão John (Kevin Carroll), pela esposa Erika (Regina King) e pelos gêmeos adolescentes Evie (Jasmin Savoy Brown) e Michael (Jovan Adepo), que com autenticidade são focos centrais do primeiro episódio da temporada.

Eventos que podem ou não ser interpretados como aleatórios e um desaparecimento súbito, porém, põem em risco a integridade da redoma na qual a cidade se mantinha até então. A começar pela falsa estabilidade dos Murphys e daí para a da cidade como um todo, a exemplo da primeira temporada vamos mergulhando aos poucos numa realidade que busca a todo custo ser evitada, negada por seus moradores e pelos já conhecidos novos habitantes de Jarden, mas que, como em qualquer crise, reivindica sua exposição. De questões mal resolvidas ao autoconhecimento, da fé, descrença e intolerância, da dependência, objeção e negação à tensão e dissimulação, o palco para esta crise está montado quando as duas famílias enfim se encontram.

Perrotta mais uma vez mostra sua genialidade como roteirista. Assistir à série, ainda mais à segunda temporada, é como ver um grande filme de ritmo constante, uniforme, sem hesitação alguma, com uma cena ou sequência servindo de apoio para a próxima. Os diálogos são primorosos e o elenco, agora integrando atores negros, com os quais Lindelof julgou obrigatório trabalhar, fica melhor dirigido e engajado do que nunca com textos de tamanho primor – exemplos como o diálogo entre Nora e Erika ao final do sexto episódio é que o digam. Tudo é recheado de significado, simbolismo e intensidade; cite-se como exemplo o muito explícito, e por isso mesmo mais genial, comparativo entre as algemas física e espiritual de Kevin, no sétimo episódio, das quais tenta, mas não consegue, de modo algum, se libertar. Sem falar, é claro, no magnífico prólogo da temporada, que tanto alude a Lost como a 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Ao mesmo tempo, a direção de Lindelof fecha a parceria perfeita na ambientação e no equilíbrio entre som e silêncio. A trilha, por falar nisso, mantém o maravilhoso padrão da temporada anterior, seja com as emblemáticas composições de Max Richter, nas quais se destacam o piano e o violino, ou com faixas não originais, mas tão diversificadas e felizes em suas escolhas para momentos específicos que são todas elas, sem exceção, memoráveis.

Provocativa – cite-se o quarto episódio -, com o maior padrão em relação à primeira temporada talvez perceptível no belo quinto capítulo, expansiva em uma incrível e inesperada mitologia, que ainda assim não tira a série de seu estilo pé no chão – cite-se o fantástico oitavo episódio, que por si só deve render muitas análises e estudos futuros -, a temporada modifica o status da série de uma das melhores do ano anterior para uma das mais imaginativas e profundas dos últimos tempos. Se há um defeito nos episódios inéditos, talvez seja o de explorar tantos tópicos e personagens que alguns acabam sendo menos desenvolvidos. Só que mesmo o foco reduzido não o impede de ser marcante, já que tudo é tratado com o cuidado uniforme mencionado acima.

Apesar de, mais uma vez, a temporada conter uma conclusão válida para a série, Lindelof já declarou ainda ter história para contar. É torcer para que as reivindicações de fãs pela terceira temporada, representantes, conscientes ou não, da luta pelo maior estímulo a conteúdos de qualidade – sempre, é claro, com o devido pluralismo -, não sejam, também, deixadas para trás.

The Leftovers – 2ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Showrunners: Damon Lindelof, Tom Perrotta
Direção: Mimi Leder, Carl Franklin, Keith Gordon, Craig Zobel, Nicole Kassell, Tom Shankland
Roteiro: Damon Lindelof, Tom Perrotta, Jacqueline Hoyt, Kath Lingenfelter, Patrick Somerville, Monica Beletsky, Nick Cuse, Tom Spezialy
Elenco: Justin Theroux, Amy Brenneman, Christopher Eccleston, Liv Tyler, Margaret Qualley, Chris Zylka, Carrie Coon, Ann Dowd, Janel Moloney, Regina King, Scott Glenn, Kevin Carroll, Jovan Adepo
Duração: 60 min. (cada episódio)

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.