Crítica | The Leftovers – 3ª Temporada

estrelas 4

*Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Esqueçam por um momento os mistérios, as maluquices e as invencionices de The Leftovers, que não necessariamente agradarão todo mundo, e concentrem-se no trabalho do elenco aqui. Lembrar do que Justin Theroux, Carrie Coon, Christopher Eccleston, Amy Brenneman, Scott Glenn e outros fizeram ao longo de 28 episódios já é razão suficiente para colocar a série em um nível diferenciado de apreciação.

Mesmo com o dilúvio (sem trocadilho) de excelentes séries que temos hoje em dia, é raro encontrar atores e atrizes que tão intensamente se entregam a seus papéis como podemos testemunhar aqui. E isso em papeis que variam enormemente em caracterização, com os mesmos personagens vivendo momentos dramaticamente muito pesados ao lado de outros com pegada cômica de humor cáustico, muitas vezes dentro de um mesmo episódio. É uma montanha-russa de sentimentos que cada ator, cada atriz – particularmente Theroux, Coon, Glenn e Eccleston – lida brilhantemente, pouco importando se a cena é de ação, algo que, na acepção mais comum da palavra, é rara na série, ou em monólogos ou diálogos longos, expositivos, até de certa forma cansativos. A latitude dramática de cada membro do elenco é de se tirar o chapéu e isso independe de qualquer outra consideração técnica sobre The Leftovers.

Mas, claro, não poderia fugir de abordar a temporada em si, que encerra a série baseada em romance de Tom Perrotta e desenvolvida para TV por ele e por Damon Lindelof, conhecido por sua fama por Lost. Mas, antes, ainda que brevemente, sinto que devo expor o que acho da série como um todo.

Diferente do que talvez a maioria, considero excepcional apenas a primeira temporada da série. A única efetivamente baseada no livro de Perrotta, os 10 episódios iniciais que lidam com as consequências do desaparecimento súbito de 2% da população mundial a partir dos habitantes da cidadezinha de Mapleton, no estado de Nova York, nunca deveriam ter tido continuação. A história, ali, era auto-contida e perfeita ao usar o mistério como trampolim para discutir a reação das pessoas pelas perdas em diferentes níveis, tendo como força motriz Kevin Garvey (Theroux), o chefe de polícia local que luta para manter sua sanidade e os resquícios de sua família.

Quando Lindelof e Perrotta decidiram continuar a série, eles tiveram a coragem de alterar completamente o status quo, transferindo o elenco para a cidade de Jarden, dentro do parque nacional de Miracle, no Texas, local onde nenhum habitante desapareceu no fatídico 14 de outubro. A segunda temporada apresenta uma nova família – os Murphy – e os showrunners passam, então, a perigosamente mergulhar no mistério em si, caindo de cabeça no lado bíblico e sobrenatural da história, ao mesmo tempo em que, de certa forma, transformaram o novo cenário em uma versão reduzida e mais eficiente da ilha de Lost.

Quando digo perigosamente, creio que cabe uma explicação: a primeira temporada não se propunha explicar nada, apenas lidar com as consequências da chamada Partida Repentina ou, retirando de vez o véu, do Arrebatamento bíblico, para quem ficou. Ao colocar o desparecimento como o centro da segunda temporada, Lindelof e Perrotta passaram a ter que oferecer respostas, algo que inclusive foi prometido expressamente por Lindelof. A grande diferença é que, ao contrário do que ele mesmo fez em Lost (e talvez justamente por ter aprendido a lição), houve foco e concentração na segunda temporada, o que evitou dispersão e a acumulação de mistérios insolúveis e desconexos. Foi, sim, uma temporada falha, mas que trouxe belas surpresas.

E, com isso, chegamos à terceira temporada que tem como mote a proximidade do 7º aniversário do 14 de outubro que traria, na visão de muitos encapsulada pela pregação do ex-reverendo Matt Jamison (Eccleston), o Apocalipse. Assim como na temporada anterior, há um prólogo no passado, desta vez em 1844, que lida com um profeta prevendo algum evento celestial, algo que, claro, ecoaria muitas vezes ao longo da temporada.

No presente, Kevin descobre que Matt vem escrevendo um evangelho sobre ele, por considerá-lo um messias, um novo Jesus Cristo. O manuscrito único – ou quase – é entregue a Kevin que, também aprendemos, vem repetindo suas experiências de quase-morte enrolando um plástico na cabeça em uma perturbadora e inquietante sequência somente com sons diegéticos. Kevin e sua fuga da vida é a luta pessoal que, de certa forma, caminha de mãos dadas com o profetizado fim do mundo.

Mas, não demora e Lindelof e Perrotta novamente põem as mangas de fora e alteram radicalmente o status quo da série, transferindo a ação para a Austrália, em Melbourne e arredores. Kevin Garvey Sr. (Glenn) já havia ido para lá, quase que saindo da série na temporada passada e Nora, em um misto de esperança e faro investigativo, vai para lá – com Kevin a reboque – para investigar uma alegada máquina que poderia transportá-la para onde quer que os “arrebatados” tenham ido.

A estrutura da curta temporada de oito episódios espelha o que já vimos antes na série, com quase um episódio dedicado a cada personagem, a partir do segundo. Em sua grande maioria, as escolhas são acertadas, com especial destaque para Don’t Be Ridiculous, focado em Nora, em que a vemos lutar contra suas próprias convicções quando aprende sobre a existência – ou não – da misteriosa máquina milagrosa, Crazy Whitefella Thinking focado em Kevin Garvey Sr. em sua enlouquecida e engraçada busca pelas canções aborígenes australianas que, ele acredita, são a chave para impedir o Apocalipse e, lógico, The Most Powerful Man in the World (and His Identical Twin Brother), que marca a volta de Kevin Garvey (o filho) para o mundo espiritual, desta vez vivendo não um, mas dois personagens, um com e o outro sem barba em um dos grandes momentos de toda a série.

Percebe-se facilmente, porém, que a série foi além do que deveria ir. A temática da perda e como cada um lida com ela torna-se, aqui, bastante repetitiva, com episódios que caminham pelo inusitado, pelo bizarro mesmo, sem que justifiquem de verdade sua existência. Esse é o caso, por exemplo, do surreal It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World, que estaria muito bem inserido em Twin Peaks, mas que, em The Leftovers, parece um esforço hercúleo para fazer da série mais do que ela precisava realmente ser. Afinal, ainda que haja valor em colocar Matt, Laurie (Brenneman), John (Kevin Carroll) e Michael (Jovan Adepo) em uma balsa atravessando da Tasmânia para Melbourne cheia de adoradores de um leão lendário particularmente viril transando por todo o canto e com Matt ainda lidando com um sujeito que diz que é Deus, a grande verdade é que, em termos narrativos, o episódio é um grande e estranho filler.

De certa forma, o mesmo ocorre com Certified, dedicado a Laurie e que nos dá uma visão de seu passado e sua tentativa de suicídio logo antes de se juntar ao culto dos Remanescentes Culpados. Essa outra camada que não conhecíamos sobre a personagem me pareceu forçada, na linha de que “todos devem ter problemas psicológicos” a partir da Partida Repentina e não atribui à ela qualquer traço que tenha clara função narrativa.

E será que o derradeiro episódio, The Book of Nora, satisfaz? E a resposta é um retumbante sim, pois há um encerramento lógico, mas não necessariamente final, para tudo o que nos é apresentado. Aqui, vemos Lindelof em forma, quase que pedindo desculpas pela confusão que foi seu trabalho em Lost (sim, fui um daqueles que não suportou a salada que ele fez por lá) entregando-nos uma explicação que espelha o primeiro episódio da temporada, mas que não é definitivo ou representa a “verdade verdadeira”. Aquele longo monólogo expositivo – completamente sem imagens, como seria de se esperar em circunstâncias normais – que dá outra dimensão para o conceito de “perda” e encerra a série, exige que nós, assim como Kevin, acreditemos sem reservas no que está sendo dito. Aconteceu de verdade? Essa resposta depende do que preferirmos acreditar.

Em outras palavras, a terceira temporada da série, apesar de manter o altíssimo nível do trabalho do elenco e da produção como um todo, elementos, diria, incontestáveis, é cheia de altos e baixos que revelam que não havia efetivamente história nem mesmo para o número reduzido de episódios que ganhou. Mesmo assim, se o espectador insistir e souber dosar o que espera da série, The Leftovers é televisão de primeira linha.

The Leftovers – 3ª Temporada (EUA, 16 de abril a 04 de junho de 2017)
Showrunners: Damon Lindelof, Tom Perrotta
Direção: Mimi Leder, Keith Gordon, Daniel Sackheim, Nicole Kassell, Carl Franklin, Craig Zobel
Roteiro: Damon Lindelof, Patrick Somerville, Tom Perrotta, Tom Spezialy, Tamara P. Carter, Haley Harris, Lila Byock, Carly Wray, Nick Cuse
Elenco: Justin Theroux, Amy Brenneman, Christopher Eccleston, Carrie Coon, Kevin Carroll, Scott Glenn, Jovan Adepo, Chris Zylka, Margaret Qualley, Liv Tyler, Ann Dowd, Michael Gaston, Janel Moloney, Jasmin Savoy Brown, David Gulpilil
Duração: 450 min. (oito episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.